COISAS DO CORAÇÃO




27 março 2011
POR (J. Castro)[1]

— Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém, disse à sua comadre, Bella. E Beatriz abafou um suspiro.
— O que eu não compreendo é como você vai ser vovó antes mesmo de ser mãe – insinuou Bella. Ambas riram. Realmente aquilo não fazia sentido.
Nina era uma menina magricela, de pele cinzenta e cabeleira arrepiada que viera procurar abrigo em sua casa. Ela não se lembra de como foi parar ali, mas a verdade é que a mãe e os dois irmãos foram praticamente lançados da carroceria de uma caminhoneta — só mais tarde foi-se saber. O motorista que os trouxeram parou o veículo abruptamente e, aproximando-se do beiral da carroceria disse à mãe assustada:
— Chispa. A mãe agarrou a filha e aconchegou-a ao peito, num instinto de proteção. Os olhos estavam fitos no homem de pé à sua frente.
— Vamos, chispa — e tentou puxá-la pelos cabelos. Ela ameaçou-o com a mão espalmada e pagou muito caro. Subindo para a carroceria, o homem a pegara pelos cabelos e a jogara no chão. No desespero para segurar-se em algo, Nina caíra dos braços da mãe. O homem a lançara sem piedade para o chão, mas o céu intercedeu em favor da menina, pois uma moita de capim a amparou e ela sofreu apenas um leve susto. Ao contrário de seus irmãos que caíram de mau jeito e sofreram forte traumatismo. Debilitados e famintos, pouco depois os meninos eram apenas as reminiscências que flecharam o núcleo do coração da mãe, deixando Nina sozinha no mundo.
Mas a menina não tinha idade para compreender absolutamente nada disso. Ela compreendia apenas que estava com fome, por isso se punha a chorar e a andar sem rumo. Já era quase noite fechada. O destino a levara até a casa de Beatriz, na porta da qual ela gemia e chorava fracamente. Ao ouvir os gemidos, Beatriz olhou pela janela e ficou petrificada. A moça não sabia se chamava a polícia ou gritava sua mãe. Não fez nem uma coisa nem outra. Sensibilizada com o estado da garota, a moça abriu a porta e trouxe a menina para dentro. Ofereceu-lhe leite, carinho e proteção. Beatriz deu-lhe também um nome e, assim, ela passou a fazer parte da família. Agora Nina era a mascote da família. Poucos dias depois, ninguém reconheceria aquela menina esquálida que viera não-se-sabe-de-onde procurar abrigo justamente na casa de quem tinha muito amor para dar.
Nina era a sua menina, como Beatriz gostava de dizer. Dormiam no mesmo quarto, pois ela não queria perdê-la jamais. Cada manhã era saudada com entusiasmo por Beatriz porque Nina era a luz do seu amanhecer. Nina era o tênue raio de sol após um longo período de inverno. E o tempo passou rapidamente. Nina cresceu e ficou linda, com seus grandes olhos agáteos. Os cabelos agora sedosos e bem tratados escorriam em suaves cascatas pelas suas espáduas. Beatriz esquecia o queixo ao fitar a menina que, aliás, já não era mais uma menina. Tornou-se uma moça muito bonita e sensual.
Agora Nina já insinuava para os gatinhos que desfilavam na rua de sua casa. Beatriz quase morria de ciúmes da filha e comadreava com Bella que tinha de arranjar um rapaz bonito, de boa linhagem para se casar com Nina. No papel de mãe, ela não permitiria que sua princesa se amancebasse com um cafajeste qualquer. Ela queria agora um garoto à altura da beleza de Nina, para que seus netos fossem tão lindos quanto sua própria filha. Aqueles que não se enquadravam no perfil de beleza concebido por Beatriz eram sumariamente enxotados de sua casa. Até água quente servia de repelente aos mais afoitos. Lógico que ela não deixaria que sua filha sujasse o sangue com um joão-ninguém “sem lenço e sem documentos”. Até que Nina conheceu Romão.
Romão era vizinho de Beatriz. Freqüentava sua cozinha, quando ela não estava em casa, pois a moça o detestava. Um dia, ele chegou ao extremo de pular pela janela e roubar os bolinhos de bacalhau que Beatriz preparara para o jantar. O infeliz era manco, gago, de fala fina e por cima, caolho. O pior era que Nina dava o maior bolão para ele, mas nunca haviam conversado, pois sua mãe sempre se opunha. Inclusive, naquele dia Nina estava de castigo por causa de suas insinuações desavergonhadas, como dizia Beatriz. Porém, num pequeno descuido Romão já estava pronto para a entrevista:
— Cumé qui você cha... a... a...ma? Ela virou os olhos para cima como a dizer “eu mereço”, e explodiu:
— Ni...i...i...i...naaaa! — e deu-lhe uma palmada na cara. Sua voz esganiçada por causa da raiva fez com que Romão se encolhesse, acovardado. Passado algum tempo, a moça compreendeu que o garoto não tinha culpa se ela estava de mau humor. A verdade é que tudo parecia conspirar contra ela. Sua mãe não a deixava mais sair na rua. Seus amigos foram enxotados de sua casa. Alguns apenas olhavam de longe, por cima do muro, mas ao verem Beatriz, saíam correndo com mil e quinhentos diabos no couro. Será que sua mãe queria que ela ficasse para titia? Com esses questionamentos tamborilando em sua cabeça, Nina deu uma risadinha à guisa de desculpas. Romão retribuiu, aceitando o pedido. A culpa fora dele, que não soubera fazer a abordagem. Beatriz estava na janela e os viu. Logo começou a rezar baixinho. — Meu Deus, tenha piedade! Oh, Deus proteja a minha menina...
Mas o destino resolveu brincar com Beatriz. Nina achou que não lhe custaria nada atar uma amizade com aquele garoto, até porque as disparidades sociais fazem o equilíbrio das almas nobres. Nina era bem criada e educada. Romão era pobre e tímido. Possuía um sotaque sulista, bem carregado no “erre”. Notava-se pela maneira esquiva que até poderia ser um larápio — Nina concedeu. Mas, o que importava? Ela precisava mostrar à sua mãe para que viera.
— E você, como se chama? — fez Nina, com trejeito.
— RRRomão! RRRomão! — gaguejou o moço, timidamente. Ela riu, mostrando duas fileiras de dentes muito bonitos.
— O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão — ela brincou, imitando seu sotaque. Eles riram. Como se aquela brincadeira fosse uma senha, ambos se enlaçaram num abraço rápido e violento.
Ni... i... i...i... na! Que pensa que está fazendo? Passe já para dentro! Sua mãe gritou, tentando evitar o pior. Não, não foi aquele o marido que ela havia pedido para sua princesinha — pensou. Mas Nina não ouviu. Aliás, não queria ouvir. Saltou o muro dos fundos e ambos foram para debaixo de uma mangueira no quintal vizinho. Afinal, ela estava cansada daquela superproteção. De que lhe adiantaria ser bonita, se ela não podia ser o que ela queria? Ela precisava viver para si mesma, doesse em quem doesse. Chorando, Beatriz sucumbiu.
Agora, com a barriga quase arrastando no chão, a gata angorá dormia placidamente na cesta de vime. Parecia cansada, mas feliz. A comadre Bella forrava a cesta carinhosamente, com um acolchoado macio que ela trouxera de presente, pois em breve acomodaria os seus novos afilhados.
— Nossa, comadre! Não aguento mais de curiosidade para ver meus novos afilhados — disse Bella. Agora foi Beatriz quem retribuiu com pesar:
— Pena que o pai é um vira-lata caolho! 

[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, Goiânia, 122 p) e Marcas do Infortúnio, romance (Kelps, Goiânia, 334 p).

Obs: Este texto faz parte do livro Arremedo: Contos & Lorotas, 2009.

1 comentários:

  1. Caríssima Profa. Lilian, muito me alegra o seu gesto de grandeza em nome da boa literatura. Acredito que a grandeza de uma mulher não se configura na medida de sua estatura, mas na nobreza da alma, na simplicidade e pureza dos gestos. Seu coração há muito já se libertou das amarras que faz as pessoas gemerem sob o jugo de uma sociedade dominadora. Que este texto possa contribuir para que outras almas se libertem, nem que para isto seja necessário "pular o muro" ou subir na mesa, como o fizeram os seguidores da Sociedade dos Poetas Mortos. Abraço poético. Jonan

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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