Maria Lúcia dal Farra e seu talento com as letras




06 novembro 2012



Alumbramentos foi o vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Poesia 
Maria Lúcia dal Farra fala da sua história na literatura (Fotos da montagem: Cláudio Chinaski  e Luiz Fernando de Barros)


Ela nasceu em Botucatu, São Paulo, mas é na Fazenda Lajes Velha, no interior do Estado que ela vive. Cresceu em meio à arte com pais que, mesmo sendo professores por formação, desembocaram no mundo da arte de maneira esplendorosa, carregando-a junto com eles. O pai era um artista multifacetado: tocava e desenhava. Já a mãe, era uma artesã de mão cheia. Fazia entalhes na madeira, pintava e bordava os panos que o marido e ela projetavam.

Assim ela cresceu no mundo da arte, aprendendo a cantar, tocar instrumentos e a se encantar pela vida. Com a literatura alcançou a tudo que podia: fez mestrado, doutorado, pós-doutorados, livre-docência e titularidade. E continua até hoje na área, mesmo estando aposentada, trabalhando como pesquisadora do CNPq, participando de congressos, orientando alunos e dando aulas no Departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe.

Alumbramentos foi o vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Poesia (Foto: Márcio Santana/UFS)Com todo esse empenho no trabalho o reconhecimento foi obtido. Publicou muitas obras sobre narrativa e poesia, aqui e no exterior, além de alguns dos melhores trabalhos e edições críticas que há no mundo sobre a poetisa portuguesa Florbela Espanca. Lançou entre outras publicações o ‘Livro de auras’ (1994), ‘Livro de possuídos’ (2002), e ‘Alumbramentos’, com o qual venceu pela Câmara Brasileira do Livro, a 54ª edição do tradicional Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Melhor livro de poesia”. Além dele, ela publicou ainda as crônicas de “Inquilina do Intervalo”.

O Sergipe Cultural teve a honra de conversar com essa grande poetisa sobre sua vida e sua carreira. Confira a entrevista.

1- Você tem um trabalho acadêmico bastante reconhecido. Como começou sua trajetória como escritora? O que te motivou a seguir essa carreira?

A bem da verdade é o inverso: desemboquei no trabalho acadêmico por causa da minha escrita. Desde muito cedo fui estimulada por meus pais, que são professores, de modo que cresci nesse ambiente em que cultivar a leitura e a escrita sempre fora algo desejável, natural e simultâneo.

Aliás, não só, pois que cantar e tocar davam continuidade a tais práticas. Portanto, a maneira de entretecer tudo isso, de levar adiante essa vocação era me dirigir para o conservatório e para as letras. Foi o que fiz. Só que então tive de tomar a decisão mais dura da minha existência: me entregar com mais moderação a essas artes, porque, foi nessa época, que descobri que eu não era muitas, mas apenas uma única mulher.

Fui pra literatura, e a levei a sério, porque fiz tudo o que tinha direito: mestrado, doutorado, pós-doutorados, livre-docência e titularidade. E olhe que continuo até hoje, embora aposentada, a trabalhar como pesquisadora do CNPq. Escrevo e publico incessantemente. Participo o tempo todo de congressos, oriento e dou aulas. Não tenho parada.

Ela ficou muito feliz com o reconhecimento através do prêmio (Foto: Márcio Santana/Ufs)

2- Porque a escolha pelo gênero poesia?

Não sei se é para me consolar, mas julgo hoje que escrever poesia é a maneira mais eficaz de eu persistir fazendo tudo ao mesmo tempo, sobretudo a música. Mas a poesia não foi uma escolha – ela é que me escolheu. Comecei por ela e a prosa só me veio depois.

3- Ao longo dos seus quatro livros já publicados, você sente que houve um amadurecimento literário em cada um deles?

Penso que cada experiência literária é diversa da outra, cada uma consistindo sempre numa viagem única, inaugural e irrepetível, ao inferno absoluto do silêncio e da não-significação.  Assim, não procuro uma continuidade, no sentido de que eu me bote na busca de uma maturação para além da alçada de cada obra.

4- O que a motivou a escrita de cada um dos seus livros?

Acho que cada um dos meus livros procura expor na sua travessia, a maneira como eu pude afrontar e efetivar a motivação a que ele se propõe, o propósito que me anima a escrevê-lo. De maneira que, suponho cada um deles pode ser visto como uma espécie de mostruário dessa busca, de flagrante vivo desse esforço, que é sempre tenaz, e, tomara, consistente, uma vez que me favoreço para obtê-lo.

Cada livro meu tem 99 poemas, o que me dá certa folga para alcançar o que procuro. Repare que, para obter tal número, outros muitos tantos ganharam o caminho do lixo.

5- Com relação ao prêmio Jabuti, o que representou para você vencer este renomado prêmio?

Sem dúvida, um baita de um orgulho por ser por meu intermédio que, pela primeira vez, esse prêmio aporta a Sergipe. O Jabuti, de qualquer maneira, dá um pique grande ao trabalho de qualquer um, porque é um reconhecimento, digamos, formal. O que quer mais ou menos dizer que houve, em algum momento, e até casualmente, entre pessoas entendidas do riscado, um consenso benfazejo acerca daquilo que você produz e isso abre o seu leque de expectativas, de leitores, de respostas ao que faz.

Através de um prêmio como esse, posso dividir melhor a minha experiência e isso aumenta as chances de conhecer aquilo que os outros pensam a respeito do que faço. E a escrita funciona assim: recebendo o que se oferece, maneira de se realimentar para prosseguir por outras plagas. Porque a poesia é algo que vive da comunidade, visto que usa um bem compartilhado: a língua.

O fato é que, no meu foro íntimo, escrevo como quem tem dentro de si um jabuti – ou um gato, um cachorro ou um porquinho-da-índia – enfim, como quem tem um alvo simbólico que não funciona necessariamente como compensação por trabalhos prestados.

6- Como você vê o universo literário hoje em Sergipe?

Existe um grupo de pessoas esforçadíssimas e muito competentes, pessoal que trabalha no sentido de compartilhar a poesia, a literatura enfim, disposto a criar leitores.

Falo sobretudo do pessoal da “Roda da Leitura”, da Maruze, do Viana, da Rose, da Mary Jane. Também falo da muito especial Joésia Ramos, que sai pelo interior do Sergipe, com a sua trupe, fazendo espetáculos de música em praça pública, em mercados, nas feiras, ganhando mundo para passar para todos, o seu próprio encanto pela arte. Falo do Jeová, que aduba a literatura e rega as tênues plantinhas da poesia naquele seu programa de segunda-feira lá na rádio Aperipê. Todos eles me comovem, fazem um trabalho missionário!

Fonte>>> http://cultura.se.gov.br/noticias/maria-lucia-dal-farra-e-seu-talento-com-as-letras

3 comentários:

  1. Ótima entrevista. O Brasil tem muitos talentos que acabam não sendo reconhecidos pela grande massa de leitores. Uma pena.


    Att,
    @RSMerces

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  2. São em momentos assim, em eventos assim, que a gente acaba se dando conta de que temos mais riqueza escondida do que imaginamos.
    Andei sapeando o trabalho dela e me encantei. Poesia de verdade..

    Beijos

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  3. Eu não costumo ler poesias... só muito de vez em quando, tenho que estar com espírito pra isso. Mas amei a entrevista, é muito legal a história da Maria Lúcia, e que bom que ela teve o trabalho oficialmente reconhecido com o prêmio jabuti.

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