Resenha - Perdão, Leonard Peacock, Matthew Quick




06 outubro 2013


Leonard tem duas certezas para seu aniversário de dezoito anos: irá atirar no amigo com uma P-38 da Segunda Guerra Mundial e cometerá suicídio.


Ele não é tão ousado quanto o leitor pode acreditar e são dados, um tanto quanto suscetíveis a dúvidas, que lhe afirmam isso. O suicídio segundo um site é o fim da vida de um adolescente a cada cem minutos e na Wikipédia as informações mostram que a arma de fogo ainda é o método mais usado. Contudo, Leonard está convicto de seu ato.

A mãe de Leonard mora em Nova York onde trabalha com moda e trepa com um qualquer. O pai fora um astro do rock que após falir e tentar ganhar algum dinheiro com vendas no eBay desapareceu. Sozinho, costuma sair de manhã e acompanhar o trajeto de homens e mulheres para seus empregos. Faz dessa observação um estudo das possibilidades de um futuro feliz.

O garoto amanhece, separa a arma, corta o cabelo e sai da casa levando consigo quatro embrulhos para quatro pessoas especiais.

O caminho de Leonard antes do homicídio-suicídio segue a entrega dos presentes aos seus amigos. O vizinho surdo que assiste aos filmes de Borgat e com quem passou a apreciar o cinema clássico, o jovem músico cujos ensaios secretos no teatro da escola eram acompanhados por um atento telespectador, o professor da aula sobre o Holocausto, Herr Silverman e uma apaixonante garota que colhia mentes perdidas para as virtudes divinas.

Leonard conhece a si próprio e é essa consciência que lhe certifica a não mudança das coisas. Espera, na quase extinta esperança, a mãe lembrar seu aniversário e fazer uma ligação, perturba-se com as memórias do amigo de quem hoje alimenta somente ódio. A “quase extinta esperança” é alimentada pelas “cartas do futuro”. Orientado pelo professor Silverman, ele emprega vidas a seres possíveis em seu futuro que ironicamente materializam-se em um mundo pós-catástrofes.

O romance de Matthew é narrado pela voz de seu personagem principal. Um texto cru, insurportavelmente verdadeiro e vezes capaz de emocionar. Poucas são as passagens em que o autor dá a Leonard um discurso sentimental sem esbarrar na realidade tão certa ao jovem. O fato de levar uma arma na mochila talvez seja consequência da ausência de um rito (melhor, uma saudação) na comemoração de seus dezoito anos.

Quick também é autor do romance “O lado bom da vida” e em ambos mostra personagens fortemente marcadas por psicológicos fragilizados. Em “Perdão, Leonard Peacock” o protagonista representa os resultados das novas relações humanas. Presos nas telas de suas TV’s, computadores e videogames as manifestações afetivas perdem espaço e criam humanos superficiais e imersos na depressão.

Leitura hilária, cruel, fluida... Impossível não soltar boas risadas com as notas de rodapé de Leonard, os diálogos sinceros e toda a narrativa desse homicida-suicida.


3 estrelas. 

Por R. s. Merces

5 comentários:

  1. é interessante perceber como sua leitura vem se refinando e suas resenhas tem trazido grandes contribuições ao mundo literário!

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  2. é bem legal , gostei bastante da resenha , fiquei bem alegre em ve

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  3. Muito boa resenha!
    Fiquei curiosa para conhecer tudo o que se passa na vida do Leonard, o porque dele querer cometer suicídio e tudo o que acontece antes disso.
    Espero poder ler logo esse livro :)

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  4. Esse é um livro que eu quero muito ler. Porque ele conta a história de algo que realmente acontece na vida de muitos jovens.

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  5. uma resenha bem interessante, gostei da forma como ele distribui as palavras, otimo

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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