O dia da mulher e o ‘golpe da barriga’




06 março 2014
By imagem: Evilfreckles1


Por Lilian Farias

Recentemente, vi um texto onde a autora abordava a temática da mulher no casamento e desmanchava ‘dicas’ saudáveis de como manter os laços matrimoniais vivos até que a ‘morte os separem’.  
As instruções variavam entre: ‘Apoio no lar: ‘o homem gosta de chegar e ver a casa arrumada, perfumada, com uma boa comidinha!’; ‘Fabulosa parceira sexual: Sim, isso é importante! E a palavra fabulosa não quer dizer fazer loucuras na cama, ser a melhor!’; até: ‘Atraente: A mulher precisa se cuidar, ter tempo para isso! Fazer academia, regime, massagem, ir ao salão, enfim ficar atraente!’.

Mas, antes de vomitar em 3, 2, 1; vamos fazer uma breve reflexão...
Quando estou com meu companheiro e alguém me pergunta se estou grávida por estar com uns quilos a mais - ditados pelo padrão de beleza-, eu pergunto para o Renê: - Você me deu o golpe da barriga?

Nessa hora, todos riem; como se o que eu falasse, fosse apenas algo meramente criativo. Mas não é; a frase não passa, na verdade, de uma semente feminista que tento germinar na cabeça dos machistas e fundamentalistas de plantão! E acredito que fique!
Mas voltando ao texto, como muitos sabem que sou muito louca na hora de pensar; comecei a refletir sobre o danado golpe da barriga que “a mulher adora aplicar nos homens indefesos”. Achei que as frases machistas e doentias da autora casariam muito bem com essa realidade!

Primeiro, deixo aqui bem claro, que o homem também dá o golpe da barriga. Como? Caso o seu parceiro lhe agrida psicologicamente, isso também é golpe da barriga. Quantos homens/agressores usam do ‘poder do mais forte’ para manter a mulher presa a um casamento doentio e a induz a engravidar para perpetuar a espécie?; Quantos homens/agressores forçam a mulher a fazer sexo, mesmo sem vontade desta e quando engravidam a culpabilizam por isso, deixando-a com o ‘ônus’ de o casamento ser uma instituição fracassada?.

Muitos machistas de plantões se aproveitam do golpe da barriga para manter uma relação de poder/violência sobre a mulher e agora mãe. Então, não venham me dizer que o homem não dá o ‘golpe da barriga’; além de em muitos casos, ser uma violência sexual!

E ai fica a pergunta: e a mulher? Há anos, escuto pessoas dizerem: fulana deu o golpe da barriga para segurar cicrano. Então vamos pensar... fulana fez sexo sozinha; com o dedo; ou com um vibrador, ou sei lá o quê; com o esperma de fulano numa ação milagrosa, pois ele não participou do ato e pimba: engravidou! E, agora, precisa de uma ‘reparação’. Nesse caso, Ela não é golpista; Ela é uma Santa! Ela operou um milagre!  
Fulano não quer mais se relacionar com cicrana e mesmo assim mantém uma relação sexual com ela E sem camisinha! Ela engravida e a culpa é dela? Ao que me consta; ele mantém uma relação de poder/violência sobre essa mulher. Afinal, se ele não deseja, por que foi?; E se foi, por que não usou camisinha?

E, mulher, você pode também usar a camisinha feminina. Isso não é pecado: é proteção! Por mais que tentem colocar o que protege o direito da mulher como algo pecaminoso: NÃO É PECADO!

O sexo é livre, você não deu o golpe. Foi uma ação conjunta; ele sabia o que fazia. Ele desejou. Tanto ele como você poderiam se prevenir, mas isso não aconteceu. E na continuidade da história, ninguém segura ninguém; nasce uma criança e a mãe, na maioria das vezes, é a única a educá-la sem, ao menos, receber a pensão. O que é um direito da criança! Que também será usurpado até que a ‘morte os separem’.

Como eu ainda não vomitei em 3, 2, 1; penso nos argumentos da autora para manter um ‘matrimonio saudável’; pois, diante de todas as atribuições que ela deu a mulher; se não der certo, dá o ‘golpe da barriga’! É um matrimonio onde o homem exerce uma relação psicológica de violência sobre a mulher até que a ‘morte os separem’. Mas, nesse caso, prefiro ser separada pela vida.
Enquanto se comemora o dia da mulher, umas rompem e outras não com os grilhões do machismo/fundamentalismo!
Começa com o ato sutil em afirmarem que somos golpistas e termina com a morte que nos separa da vida e dos nossos direitos!

Sobre a autora:
Lilian Farias nasceu em 1985, é formada em Letras/Português pela UPE- Universidade de Pernambuco. Dá aula e ama escrever poesias. Autora do romance O céu é logo ali e Mulheres que não sabem chorar, além de blogueira literária. "Amo escrever sobre aquilo que incomoda, não tenho medo do preconceito!" Trabalha no movimento Social.


2 comentários:

  1. Adorei essa postagem.. qs vezes ouvimos muitas coisas bizarras sobre os relacionamentos ... sua reflexão foi magnifica

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  2. uma postagem muito legal gostei muito dessa ideia

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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