A namorada – por Carol Rodrigues




25 novembro 2014


A menina tinha uma namorada com um nome lindo, porém a chamava de "amor" por dois motivos: o primeiro, deduzi, que chamá-la pelo seu nome completo soaria formal demais e segundo, constatei, que se a chamasse por "namorada", as pessoas esqueceriam que ali havia um casal que se amava e não um conceito arcaico embutido e naturalizado ao longo do tempo. Era nítido quando andavam pela rua, com os dedos entrelaçados, que a sensação gostosa que sentiam no coração era tão grande, que se preocupavam apenas em sorrir.
E sorriam muito.
A pureza do que sentiam era imensa e diante da estranheza de alguns olhares direcionados a elas, pensavam apenas que era pela diferença grande de altura entre as duas. Inundadas de amor, seria mesmo impossível reconhecer o repúdio. Sentaram num banquinho da praça, coincidentemente, fizeram o mesmo trajeto que eu e quase me derreti quando uma delas reclamou "estou gordinha" e a outra com ares apaixonados respondeu "eu gosto e te amo exatamente como você é". Elas não eram apenas um casal,  eram o amuleto uma da outra e vi que o preconceito, que algumas pessoas em volta despejam, era apenas fruto de uma inveja genuína. Quem no mundo não quer ser amado? O amor é unânime no fim das contas e até quando vai receber tantas classificações? Se alguém lhe dissesse "você não pode amar, aliás, você pode, mas a aquela que nós queremos”? Como se o amor fosse uma ditadura e fôssemos Pinochet da certeza, com o prazer perverso de ser donos da verdade dos outros como se fosse absoluta e incontestável.
Percebi como eram cúmplices no momento em que a menorzinha se ajeitou de costas enquanto a outra lhe abraçava, como se fosse um escudo e pudesse protegê-la de qualquer perigo. Falaram sobre filhos e num gesto absurdo de generosidade, entrariam na fila da adoção, escolheram nomes e fizeram planos para o futuro numa casa com cães, gatos uma tartaruga e muito amor. Estavam de olhos fechados e de fora vi a interseção de dois mundos numa pausa silenciosa.
Eram claramente companheiras e tinham intimidade o suficiente para estarem confortáveis, mesmo sem uma palavra dita.
Estavam tão concentradas em suas próprias vidas, que não perceberam o bom e velho machismo vomitado em "que desperdício, Deus não aprova isso. Como explicar isso para uma criança?". Refleti automaticamente que desperdício seria Deus perder tempo com isso enquanto as pessoas esgoelam suas mazelas e imploram ajoelhadas por ajuda. Desperdício é o mundo evoluir constantemente enquanto muitos estão congelados ao gêneses.

Desperdício é o egoísmo de impor a própria história na alheia e desejar que o mundo seja bom e feliz, porém nunca melhor e mais feliz do que nós mesmos. Desperdício é pensar que algumas pessoas escolhem a quem amar. Desperdício é um preconceito genealógico, incorporado como se fosse genético. Crianças são puras, livres de estereótipos e aprendem por analogia. Pra elas o amor é a sensação de tomar o sorvete favorito. Por fim, trocaram anéis e ao ouvir uma delas dizendo "aqui está nosso nome e nosso lugar favorito gravado, assim nunca vamos nos perder” cheguei à conclusão que elas não eram uma escolha, eram um acontecimento.

Sobre a autora -  Carol Rodrigues é escritora, gente fina, militante Feminista e estudante Faculdade Ciências Médicas - MG.

17 comentários:

  1. Oiii. uau. Adorei esse texto. Toda forma de amar é amor, e toda forma é linda. Não importa quem amamos. E concordo que muita gente só tem inveja realmente do amor dos outros. Beijooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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    1. Não sei porque a primeira resposta não saiu aqui, rs. Mas muito obrigada, Gi, pelo carinho e atenção ao ler o meu texto! Com toda certeza qualquer forma de amor é linda e muito válida! Obrigada pela leitura! Um abraço!

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    1. Angélica! <3
      Linda é ocê coração! Obrigada por me prestigiar sempre!

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    2. Angélica, sua linda! Sempre sendo docê e me prestigiando de alguma forma, né? Brigada pelo seu carinho sempre <3

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  3. Poxa.. que texto bonito, você escreve muito bem! Parabéns..

    Mutações Faíscantes da Porto

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    1. Agradeço o carinho, moça! Obrigada pela dedicação do tempo ao ler meu sentimento transcrito! Um abraço.

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  4. Adorei o Texto Lili a Carol escreve muito bem.
    Me encantei *__*
    Já dizia Lulu, consideramos justa toda a forma de amor.

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    1. Toda forma de amor é justíssima! Obrigada pela gentileza das palavras e pela dedicação ao lê-las! Um abraço!

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  5. O texto ficou bem legal, por conta da inocência do amor delas. Ótima escrita.
    Beijos | Pretty Things!

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    1. Obrigada, Mariana! Fico feliz por ter gostado! É um motivo a mais para continuar escrevendo! espero que aprecie os próximos também! Um abraço!

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  6. lindo texto, emocionante :DD
    Infelizmente, o preconceito está aí todos os dias e temos que combater isso...

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  7. Olá Lilian,

    Um testo muito bem escrito e o amor supera tudo...abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  8. Muito bom o texto. A forma como descreve este amor, e a forma como as palavras que precisam ser ditas são ditas...parabéns pelo talento
    Alê
    Blog: Diva Todo Dia

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  9. Um texto brilhante, muito bom mesmo .. escritora incrivel

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  10. Meus parabens, esse texto esta perfeito, lindo
    .

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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