Consciência negra por Carol Rodrigues




20 novembro 2014


A história de Clara sempre me fez pensar. Ela era uma menina linda e seu pai lhe deu esse nome, porque segundo ele, foi o dia mais claro de sua vida. A propósito, seu pai é um homem absurdamente culto, filho de médicos na França, continuou o gosto pela medicina e se tornou o principal cirurgião de um grande hospital de lá. Foi numa das suas cirurgias, que conheceu sua esposa, uma advogada brasileira muito conceituada, com as férias em Paris interrompidas devido a um mal súbito.
A história de Clara, começa nesta quase tragédia onde seus pais puderam se conhecer. Não demorou muito, desde o episódio do hospital, para se casarem. Decidiram vir morar no Brasil porque ela não podia deixar o trabalho aqui, mas quando se aposentassem, voltariam para Europa e envelheceriam lá. A menina nasceu pouco tempo depois da chegada deles no país.
A família fez uma festa enorme. Seus pais decidiram que seria apenas ela, não queriam mais filhos e ela cresceu em berço de ouro. Estudou nas melhores escolas, fez o ensino médio na Alemanha e voltou pro Brasil porque não aguentou de saudade de casa. Era querida por todos e frequentava festas particulares nas mansões das amigas, gostava da moda italiana, era apaixonada por literatura e pelo Van Gogh. Sempre admirou a mãe pela competência na profissão e queria ser assim, porém dentro do ofício do pai. Passou de primeira na melhor universidade de medicina do país e foi lá que conheceu Geruza, a única bolsista do curso.
As duas se aproximaram porque Clara, curiosa, queria saber as razões pelas quais aquela menina queria ser médica, mesmo vindo de tanta pobreza e como alguém da favela conseguiu passar numa universidade tão conceituada e concorrida como aquela. Pra ela tudo isso era novo e intrigante. Geruza já tinha visto tanta coisa na vida, que já sabia o que estava por vir. Sabia que seriam seis anos carregando o estigma de bolsista, que seria discriminada pelas roupas simples e batidas e passaria ainda por muitos questionamentos meritocráticos. Estava preparada pra tudo, sempre munida de argumentos.
Mas com ela foi diferente. Apesar das roupas de grife e do vocabulário impecável de Clara, Geruza gostava do jeito que se importava e se sentiu confortável em responder as perguntas de alguém que só conhecia a pobreza pelos jornais e revistas que lia. Se tornaram melhores amigas e Clara diante da nova experiência, achou justo carregar a chaga de bolsista com Geruza.
Quase perto de se formarem, Clara levou Geruza para seus pais conhecerem a tão famosa amiga. Entretanto, para o espanto das duas, seus pais foram hostis, distantes e categóricos. Esperavam uma amizade no nível da filha e não aquela "zé ninguém" diante deles. Questionaram de onde ela vinha, quem eram os pais, o que faziam e Geruza ficou atordoada com aquela situação. Sentia-se confusa, mas por amor à amiga, respondeu às perguntas, contou que era da comunidade do Morro, a mãe era diarista e o pai era um turista sul-africano desafortunado que a abusou e nunca mais foi visto. "Estou aqui graças a generosidade da minha mãe, que mesmo violentada, decidiu que eu poderia ser a coisa boa que ela sempre esperou e nunca aconteceu." Foi olhada com mais repúdio. Cansada daquela situação nauseante diante tanto preconceito, Geruza quis ir embora antes que perdesse a linha e começasse a falar o que não deveria.
Mesmo contra o gosto dos pais, Clara decidiu levá-la em casa. Era o mínimo. Antes de sair, seus pais lhe chamaram para uma conversa e deixaram bem claro que não queriam a filha com aquele "tipo de gente". Ela deu as costas, entrou no carro e no caminho não falaram muita coisa.
O silêncio só foi interrompido com o pedido de desculpas quase choroso de Clara, que imediatamente pediu para ir conhecer a mãe da amiga. Geruza nunca conseguiu dizer não à ela e apesar de arrasada e confusa com tudo que havia presenciado, aceitou. Ao chegar nas proximidades, pediu para que estacionasse o carro ali. As ruas não comportavam um veículo daquele tamanho e ele chamaria atenção demais. Subiram pelas ruelas e Clara estava perplexa diante daquele cenário. Chegaram na casa simples com uma porta só de entrada e poucas janelas. "Essa aqui é a Clara, mãe. Aquela amiga que eu te falei".
Dona Cleusa se ajeitou e foi cumprimenta-la. "Mas ela é..." Geruza fixou os olhos seriamente na mãe, uma proibição para que não terminasse o que ia dizer. Clara a abraçou com ternura e dissertou sobre a felicidade de estar ali. Dona Cleusa decidiu esquentar a janta e Clara ficou sentada no sofá pensando sobre a sua vida até aquele momento. Sobre aquele mundo tão distante e as dificuldades que as pessoas passavam enquanto ela torrava seu dinheiro em roupas e festas. Engolia suas analogias a seco. Quando jantou não conseguia acreditar que aquela comida simples podia ser inacreditavelmente gostosa. "A senhora parece a minha mãe" . Dona Cleusa saiu pensativa e foi buscar um suco na geladeira.
Terminaram e Clara ao ver as horas se apressou para que o conflito em casa não fosse maior. Se despediu de Dona Cleusa, agradeceu e prometeu voltar. "A casa ta sempre de portas abertas, minha filha" e acenou um tchau cheio de perguntas. Elas desceram pelas ruas agora um pouco mais aliviadas pelo constrangimento todo. Riram como sempre, marcaram de estudar na biblioteca, mas ao chegar no carro, o destino de Clara mudaria. Ao abri-lo, tomou um tiro certeiro no tórax.
Um carro da polícia-milícia fazia ronda e num ato de vingança, confundiram-na com a mulher de um traficante, que por azar tinha um veículo idêntico ao dela e, por uma infortuna coincidência, eram parecidas, gostava de roupas caras, alisava o longo cabelo negro, era magra e negra, como Clara. Geruza desesperada ligou para emergência e usou ali tudo que aprendeu, todos os recursos, todas as técnicas até o socorro chegar, enquanto Clara se esvaía e pensava como a vida era mesmo engraçada. A injustiça do julgamento sem fundamento de seus pais, voltava a ela em poucas horas. Não teve tempo de fazer justiça, pensou. Os bombeiros chegaram primeiro e viram que já não podiam fazer mais nada. Tudo que era possível já tinha sido feito. Geruza chorava no corpo da amiga quando um dos bombeiros chegou até ela e tentando ajudá-la "Acho melhor você tirar seu carro daqui, moça. Eles não gostam de gente de fora, ainda mais com essa cara de gringa."
           O dia da consciência negra não tem como princípio a busca por obtenção de privilégios e sim de direitos. É um dia de desapropriação de situações como o preconceito, de visibilidade de atitudes invisíveis tão naturais e enraizadas como a sua, por exemplo, ao ponto de imaginar durante toda história, que Clara era branca e Geruza a negra.

sobre a Autora:

Carol Rodrigues é escritora, gente fina, militante Feminista e estudante Faculdade Ciências Médicas - MG.

10 comentários:

  1. O melhor texto que já li. Parabéns!!!

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    1. Podia ter assinado para que meu agradecimento fosse mais pessoal. Mas de qualquer forma, muito obrigada pelo carinho. Um beijo, anônimx

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  2. Uau, que texto incrível.
    Em momento nenhum pensei na cor da pele das personagens apesar do título.
    Li solta leve, deixando-me levar para ver onde iria chegar e adorei. Beijos.

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    1. Esse texto é uma maneira de mostrar para as pessoas que ainda estão presas aos esteriótipos que eles estão mais enraizados do que elas imaginam! Fico feliz, de verdade, que tenha conseguido lê-lo livremente. Meu carinho enorme pela paciência na leitura. Um abraço!

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  3. Olá Lilian,

    Esse texto é excelente e deve ser compartilhado com certeza, parabéns por postar o texto e parabéns para Carol pelo texto....abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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    1. Oi, Marco Antônio! Poxa, que legal ver a resposta positiva de algo que escrevi com tanto cuidado! Agradeço pelo carinho da leitura e das palavras cedidas a mim. Um abraço!

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  4. meu Deus. Fiquei abismada... :o
    texto forte e profundo...

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    1. Obrigada, Maria Valéria! Eu tentei captar as mais diversas reações a partir desse texto e fico feliz que tenha se sentido dessa forma e que ele tenha te tocado de alguma maneira. Obrigada pela leitura! Abraço!

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  5. Estou maravilhada com este texto, lindo.. carol parabens por ter esse dom magnifico com as palavras. Continue nos agraciando

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  6. Babando aqui com os seus textos, são brilhantes

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