Resenha – Tango, com violino




30 novembro 2014





Um livro cativante. Tango, com violino, de Eduardo Alves da Costa, Tordesilhas, 352 páginas, caminha lento e fluído como uma brisa de fim de tarde. Como a calma sábia dos mais velhos e humor permissivo a não histeria e uma música de Vinícius de Moraes. Elemento capazes de nos manter em estado de equidade e flutuantes. Capítulos curtos que mais lembram crônicas, a história passa num ônibus. Um livro apetitoso, para ser degustado quão intensamente um vinho, se não prestarmos atenção, passamos do ponto e ficamos confusos sobre exatamente o que estamos lendo.  

'Tango, com violino' descreve o dia a dia de Abeliano, um professor de história da arte aposentado que envelheceu 'ex abrupto, no momento em que se deu conta de que poderia viajar gratuitamente nos ônibus municipais'. A partir daí ele desenvolve o hábito de andar ao acaso nos coletivos da cidade, na esperança de que seu itinerário lhe revele algo inusitado. Desse modo, acaba por transformar a banalidade cotidiana em uma série de aventuras que atribuem importância a cada contato humano, a cada paisagem urbana. Alimentando-se do que vê e do que ouve, em todo ônibus que entra Abeliano vive um universo possível e fugaz, que se desfaz a cada fim de viagem para ressurgir na próxima, o que lhe possibilita 'adiar o mergulho no isolamento irremediável e definitivo'.

Abeliano, personagem central, é um professor de História da Arte aposentado. Que descobriu o prazer de viajar de ônibus coletivo gratuitamente, gozando de um ‘dos privilégios’ da velhice. A cada parada, o extraordinário aparentemente frívolo, porém, carregado de afetividade emocional. Só para contar, eu li Tango, com violino ao som de Édith Piaf. O resgate do afetivo é tão intenso na narrativa de Eduardo Alves, que, por vezes, lembrava-se nostalgicamente de uma infância com avós. #chorei

Abeliano só se dá conta de que a garota está ao seu lado quando o ônibus faz uma curva fechada e ele sente a coxa macia e quente. Ela deve ter vinte e poucos anos. Abeliano procura manter a calma, pois esses contatos nos coletivos ocorrem com frequência. Muitas pessoas gostam de se esfregar, são saudáveis, necessitam de contato humano, íntimo. E não se pense que minha idade constitua impedimento. Há moças que se sentem atraídas pela naftalina, como se lhes desse um prazer especial encoxar velhinhos, algo muito próximo a desvirginar garotinhos, dois extremos da caridade – iniciação à vida e banquete de despedida.”

O rio fluido que é a vida de Abelino no ônibus o faz conhecer pessoas diversas, na personalidade e idade. E diversos diálogos são travados, interrompidos pelo ponto de partida de cada um. Algumas pessoas ele nunca mais encontra, outras, amizades se formam. Algumas paixões desabrocham, dando um clima, como o para no ar do beija-flor, de romance, dura alguns segundos, nos deixando com sabor de ‘vontade’, esperando o próximo beija-flor encantar o dia.

A narrativa do Eduarda pode ser melancólica, divertida, poética, nostálgica, porém, jamais depressiva. Doente. Com artrose. É uma dança. A dança da vida. A dança do tempo.   Que integra aspectos da afetividade, vitalidade e transcendência. A leitura foi apreciada por mim com calma e coração aberto. Simplesmente amei! 

5 comentários:

  1. Muito bacana, gostei muito da capa e os trechos descritos aqui são cativantes.Adorei

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  2. Adorei a capa do livro.. toda moderninha rs. E menina, que jeito maravilhoso de escrever é esse? Sou apaixonada pelos seus textos, pura poesia para os meus olhos! Acho super bacana seu blog, mas o seu jeito é ainda mais encantador.. super beijo!

    Mutações Faíscantes da Porto

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  3. pelo jeito que vc escreveu a resenha, esse livro transborda lirismo, neh??? Recomendação anotada... Sem contar que essa premissa se sair por ai viajando de ônibus me interessou bastante... eu queria poder fazer isso algum dia...
    bjs, flor ^^
    http://torporniilista.blogspot.com.br/

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  4. Resenha muiti boa, gostei da capa e do enredo . Perfeito

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  5. Oi Lilian,
    Achei esse livro encantador, esse título é muito marcante.
    Passional e apaixonante, já desperta vontade de ler
    e essa sua resenha então, tão rica em detalhes e bem elaborada dá vontade de correr a compra-lo.
    Ótima resenhista, sempre.
    Beijos

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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