A literatura erótica como emancipação feminina, por Bruna Escaleira




14 janeiro 2015
by Shadowlord123456


*Texto de Bruna Escaleira
*Fonte thinkolga

Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.
Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.
No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.
 Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.
 Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.
Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.
Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.
As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.
Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.
A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.
Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:
Continue lendo>>>> aqui 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.
http://thinkolga.com/

2 comentários:

  1. Lilian, adoro o ThinkOlga.
    É muito difícil mesmo se ver representada em escritoras. Ainda mais porque a maioria das contemporâneas acaba se contentando em fazer parte do "chick lit" ( que já é algo machista, porque o termo é pejorativo por ser "LITERATURA DE MULHERZINHA") pra poder pelo menos ser publicada.
    Precisamos de mais mulheres em todos os gêneros literários, e precisamos que elas sejam respeitadas.
    Beijinho.

    ResponderExcluir
  2. Olá flor, estou ciente disso, a abertura para as mulheres na literatura agora a recém é descoberta e ainda há esse preconceito em relação ao erotismo, se te agrada não há mal nisso, eu acredito que muito preconceito ainda terá que ser quebrado em relação a isso, cada um tem o direito de ler e escrever o que gosta, se importar com os outros vai ser a pior coisa que se faz.
    http://k-secretmagic.blogspot.com.br/
    Xoxo

    ResponderExcluir

O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 

SKOOB

Arquivo do Blog

Direitos autorais

Copyright © 2015 • Poesia na alma