Resenha – Enfeitiçadas




19 fevereiro 2015

Uma leitura de recomendação, praticamente de insistência. Enfeitiçadas, Jessica Spotswood, 271 páginas, Editora Arqueiro; foi mais que indicada por meu amigo autor Danilo Barbosa. Ele dizia ao telefona: Lilian, você precisa ler esse livro. É tua cara. Danilo, meu amigo/irmão, sinto contrariar, mas não é a minha cara, mas sim, de todas as mulheres. Vou além de que foi dito por você: Todas as mulheres precisam ler esse livro. O motivo? Ora, engana-se muito quem pensa que o que está descrito no livro faz parte de um passado triste. Ah! Preciso salientar que preparei coxinha sem glúten para acompanhar nessa leitura maravilhosa.


Algo que tenho percebido, ultimamente, são as obras que tratam de temáticas de empoderamento da mulher. Inclusive, escrita por mulheres, algo deveras importante. Esses romances têm tomando uma força gigantesca junto aos leitores e leitoras. Isso é fabuloso. E quando eu digo isso, eu não discorro sobre romances românticos com estereótipos de mulheres eurocêntricas que necessitam de um príncipe e/ou a vida delas giram em torno de verdades cartesianas. Enfeitiçadas identifica uma trajetória de dor e luta da mulher, pelo fato de ser mulher. Nos ambienta num contexto histórico, que infelizmente ainda existe. Mas, deixemos de ‘falatória’ e vamos à obra.

Nem mencione o fato de as pessoas terem medo de garotas.”

As irmãs Cahill têm uma profecia a cumprir e enquanto não sabem disso, suas únicas preocupações consistiam em esconder da Fraternidade, movimento comandado por homens machistas e religiosos, que elas são bruxas. Pode parecer fácil, mas elas são três jovens ainda. Cate tem 16 anos, Maura, 15 e Tess, 12 anos. A mãe delas morreu há alguns anos e deixou Cate incumbida de cuidar das irmãs.
Aos 17 anos, Cate precisa anunciar a sua decisão, se vai se juntar a Irmandade ou casar. Falta pouco tempo e ela é uma menina cheia de dúvidas e poucas respostas. O pai é ausente e ainda sofre com a morte da mulher. A mãe, que também era bruxa, não teve muito tempo para ensinar as sobre a vida. No entanto, o que ela deixou foi suficiente para Cate ser cautelosa e desconfiada. Afinal, o contexto não é dos mais agradáveis para mulheres, quem dirá para bruxas.

Chama-se escola dominical, mas acontece duas vezes por semana: no domingo, antes do culto, e na noite de quarta-feira. São duas classes distintas: uma para crianças com menos de 10 anos, na sala de aula no fim do corredor, para ensinar-lhes orações básicas e as diretrizes das crenças da Fraternidade; outra para meninas de 11 a 17 anos, para nos ensinar como somos cruéis.”

No meio do Caos, Cate recebe um bilhete de sua madrinha, que estava desaparecida, informando sobre um diário da mãe. Sedenta por resposta, afinal, Cate precisa decidir se vai para a Irmandade ou se irá casar, ela revira a casa até encontrar o objeto. Para sua surpresa, sabe da profecia da maneira mais dura. O diário diz pouco, mas deixa Cate alerta sobre duas mulheres que pode confiar: a madrinha e a dona da livraria. O que vem a ser um perigo, considerando que mulheres não deveriam pensar. Mulheres só podiam ser submissas e preparadas para seus maridos ou Irmandade.
No entanto a Irmandade já tem planos para as irmãs Cahill e as colocam em uma situação/armadilha para poder tê-las em seus poderes. Apesar de tudo, aquele ainda era o lugar mais seguro para elas, porém o preço dessa segurança é alto, bem como o preço da profecia. Elas são as bruxas da profecia, e ao que parece, Cate a mais poderosa de todos os tempos.


A história corre agradável, a leitura prende, como por magia. A indignação pelos trechos de ver como as mulheres eram tratadas causam repugnância, também, infelizmente, por eu conseguir contextualizar a nossa realidade. Cate é impulsiva, comum para sua idade. Maura tem personalidade forte e, por vezes, cruel, protagoniza uma pequena cena lésbica. Tess é uma fofa, meiga e compreensiva. Acho que das três, Tess é a mais madura, apesar da pouca idade. Cate sente um pouco mais de conforto quando encontra outras bruxas em lugares improváveis, mas isso também a deixa perto da profecia que soa como maldição...


Os ‘ensinamentos’ dados pela Fraternidade também as confundem. Na verdade, não passa de horas de torturas, visto que a mulher e a bruxam precisam sentir vergonha do que são. Elas são ensinadas a terem desprezo por tudo que representam no mundo. A odiarem ser bruxas. Apesar de muitas não concordarem com o discurso da Fraternidade, algumas das ideias já estão impostas pelo medo.

– Submissão – anuncia ele. – Vocês devem se submeter à nossa liderança. A Fraternidade irá conduzi-las pelo caminho correto e mantê-las inocentes em relação aos males do mundo. Sabemos que é apenas a fragilidade feminina que faz com que se desviem. Nós as perdoamos por isso. – A voz dele é cheia de compaixão paternal, mas seus olhos demonstram desprezo ao passarem por nós. – Iremos protege-las de sua própria teimosia e vaidade. Devem se submeter à nossa ordem da mesma maneira que nos submetemos ao Senhor. Devem pôr seu amor e sua fé em nós da mesma maneira que colocamos a nossa n’Ele.”


Tudo falácia. As regras só servem para mulheres, bem como as punições. Consideram as mulheres o mal do mundo, elas só servem de empregadas para eles e objeto sexual. As mulheres ricas têm um pouco mais de sorte, mas a pobres que ficam viúvas, nem trabalhar podem... Eu coloquei citações leves, minha vontade era que todas lessem o livro, e vissem o quanto a Fraternidade é nojenta e repugnante e tanto quanto eu, conseguissem contextualizar a nossa realidade atual. 
Os capítulos são curtos e a diagramação envolvente. A capa é muito bonita. O livro é perfeito. Já estou terminado de ler amaldiçoadas, a continuação, e logo posto a resenha por aqui... Confesso que foi uma obra surpreendente, ao mesmo tempo que de uma narrativa leve, a autora soube mesclar com louvor os aspectos que a tornam magnífica e forte. 

8 comentários:

  1. Eu realmente adorei esse livro, e já tenho o segundo aqui. Achei que a escrita fluiu muito bem, além de a história prender o leitor até não poder mais.

    Beijão,
    May :*
    {tagarelando.net}

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    1. Conclui a leitura do segundo.
      Próxima semana, posto resenha...

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  2. menina, há séculos que eu sonho em ler esse livro *--*
    Acho a ideia dele bem bacana, e é uma trilogia. hehe :)
    Adorei a capa dele tbm.
    Eu acho que me identificaria mais com Cate, porque tbm sou impulsiva...
    É um absurdo a gente perceber que a nossa situação atual não tá tão longe essa sociedade que as irmãs viviam, né???
    Esse livro é bem tua cara mesmo, ou melhor, a nossa cara, de todas as mulheres.

    Bjs, Lilian. Espero um dia poder ler essa maravilha :D

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    1. Pois é, Valéria!
      A últimas declarações de Feliciano e trupe, tem uma bancada muito forte, eram as mesma da Fraternidade... Confesso que tenho medo.

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  3. Nossa fiquei realmente enfeitiçada por essa obra.. incrível mesmo. Se não consegui desprender meus olhos da tua resenha, imagina do livro então. Adorei, já vai pra minha lista de "quero ler" com certeza. Beijos!

    Mutações Faíscantes da Porto

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  4. Olá Lilian,

    Esse livro esta na minha lista de desejados e espero futuramente ler toda a série, vi que gostou bastante e isso é bom...ótima dica e resenha....abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br


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    1. eu só tinha uma opção: amar o livro, visto que é maravilhoso!
      Obrigada pelo carinho!

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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