Resenha - Melodia do Mal, por Amanda Larissa




14 março 2015


“O produtor musical Lennart Cederström, outrora componente de uma dupla de certo sucesso, juntamente com a mulher, Laila — ambos de meia-idade e vivendo quase no ostracismo – encontra num bosque, envolta em plástico, semienterrada e quase morta, uma diminuta recém-nascida.Entre as décadas de 1970 e 1990, Lennart vira sua paixão pela música e o autoconferido talento deturparem-se, entregues à crescente indústria cultural, ao oportunismo de empresários e ao artificialismo das relações entre o público e seus ídolos. Agora, cansado e desprovido de sonhos, vê na menina a perspectiva de preservação da música em sua mais pura essência e um resgate da própria existência. Afastado da mulher e do filho, a quem despreza, faz da menina praticamente um projeto musical, instruindo-a e cercando-a da melhor música. A criança responde com surpreendente e quase milagroso talento, dotada de uma belíssima voz. Ao mesmo tempo, demonstra um peculiar interesse em “desconstruir” objetos, conceitos – e, como se vê depois, pessoas. A esposa, Laila, ex-cantora, e agora uma obscura e abusada dona de casa, acaba aderindo ao projeto, incapaz de resistir ao fascínio emanado por aquele ser de beleza paradoxal. Assim, “Pequenina” ou “Estrelinha”, como a chama o casal (“Theres” para o filho deles, Jerry), é criada em segredo num porão, silenciosa e musical como nenhuma outra criança. À medida que cresce “longe dos males da sociedade”, ilumina e transforma a vida dos pais postiços... até revelar uma essência perturbadora e sanguinolenta.”

Melodia do mal, de John Ajvide Lindqvist, Editora Tordesilhas, 488 páginas é um soco no estômago. E ele doerá por horas; dias; talvez, até semanas.
Nada nesse livro indica o que está por vir. A princípio, pensei que a capa fosse maravilhosa, mas ao terminar o livro, percebi o quanto ela parecia bobinha. Melhor seria de pudessem registrar o frio azul dos olhos de Theres, ou o porão onde viveu. A sinopse também me capturou quando o livro chegou em casa, mas ao relê-la, me pareceu vaga e desconexa em comparação com a força do livro.
Os únicos verdadeiros sinais que temos do que virá são as elogiosas citações das críticas da MTV.com, e dos jornais Independent e New York Post. Mesmo assim, ainda parece muito pouco.
Por mais que eu fale, ou avise, nada vai poder prepará-lo para a (deliciosa) sensação de mal-estar e desconforto que esse livro é capaz de fazer chegar às suas entranhas.
Curiosamente, não há nada de surpreendente na história. À medida que o enredo avança, tudo flui de forma muito natural, e fica tão espantosamente claro que você já pode perceber tudo o que está para acontecer.
Todo o horror desse livro é tão iminente, e certo, e praticamente auto- proclamado, que você passa a considerar cada ato condenável como o curso natural das coisas, e um pouco da frieza dos personagens parece habitar por um instante suas veias.
Tudo é meticulosamente criado para gerar uma sensação de desconforto, até mesmo o fato de a história estar ambientada na Suécia. Estamos acostumados com histórias em Londres, nos EUA, em Roma ou em algum outro cenário que seja levemente mais familiar. Mas a Suécia me pareceu extremamente insólita, no contexto do livro. Os lugares, artistas e músicas, as citações, será que são reais? Não é possível nenhuma conexão, e isso acaba se tornando mais um dos pontos positivos do livro: Flutuar pelo cenário como uma mosca, sem a capacidade de criar um elo, frio como seus personagens. A única coisa vagamente familiar é o grupo sueco Abba, e o recorrente uso de sua música “Thank you for the music”, que toma formas assustadoras dentro da história.
De certa forma, isto é libertador, uma vez que você não vai querer formar um elo com nenhum de seus personagens.
Não com o fraco e problemático Jerry, ou com seus infelizes pais, os músicos em decadência Lennart e Laila. Ligar- se à hermética Theres é tarefa Hercúlea, para não dizer impossível.
Em certa altura, você vai achar que pode se identificar com a depressiva Teresa, mas logo essa ideia é também tirada de você. O desprezível produtor Max Hansen também não te ajudará, e numa tentativa desesperada, você tentará se apegar a uma das Meninas Mortas, até descobrir que pouco sabe sobre elas, e o livro está no fim.
Desista: Você passará o livro todo sozinho e com medo, sobressaltado e enojado, e com certo ímpeto de largar aquela leitura ultrajante e poder raciocinar novamente. Será tarde demais. John Ajvide Lindqvist escreve de tal forma que, em poucos minutos, já fomos capturados. O torpor que todos os personagens sentem ao conhecer Theres toma parte também de nós, e PRECISAMOS dela, assim como todos os outros.
John apresenta a história em partes: A menina de cabelos Dourados; A Outra Menina, As duas Meninas, Todas as Meninas e As Meninas mortas. Não é uma narrativa cronológica, existem flashbacks, sobreposições temporais, mas ao mesmo tempo tudo caminha de uma forma absurdamente linear, em fluxo contínuo. Não há noção de pausa, mesmo na troca de personagens. Tudo flui num tenebroso crescendo pra tragédia anunciada desde a primeira linha.
O final, descrito como apocalíptico na contracapa do livro, nada mais é do que o fluxo natural das coisas, o fim terrível de uma história terrível, desde o princípio.
A forma como nenhum dos personagens parece ser completamente são, no que tange ao aspecto psíquico é perturbadora. Todos eles, em diferentes níveis, são pessoas gravemente feridas mentalmente, e é extremamente incomoda a forma como nenhum deles é capaz de perceber o rumo obviamente ruim que as coisas estão tomando.
Nem os “pais” de Theres, o autocentrado Lennart, nem a autopiedosa Laila, nem o “irmão” dela, preocupado demais com seus pequenos problemas e tão afundado em autopiedade quanto a mãe, nem os inexpressivos pais de Teresa, Maria e Göran, nem Johannes, seu amigo de infância, preocupado demais com seu relacionamento juvenil com Agnes. Simplesmente não há ninguém que enxergue o óbvio rumo catastrófico das coisas e o impeça. Parafraseando o que Jerry diz no livro, não é como se uma bola estivesse rolando montanha abaixo e pudesse ser parada por um deles, eles simplesmente estão todos dentro da bola, rolando ladeira abaixo junto dela. E a tensão que toma conta do leitor é a mesma de quem está dentro da bola: Ela já não pode ser parada, você rola junto dela.

Chegar ao fim desta tensa história é uma experiência extremamente gratificante. Sair da posição de observador impotente é um êxtase. Mas acredite. Você ainda sentirá o ranço deste livro na sua boca por um tempo. A tensão, a frieza e a crueldade deste livro não saem facilmente da mente, e a obra do “Stephen King” sueco vai ecoar por muito tempo em seus pensamentos. Deliciosamente aterrorizante, como deveria ser todo livro que tem a audácia de ser chamado de terror.

Sobre a resenhista: 


15 comentários:

  1. uau, uau e uau...
    sua resenha me deixou sem fôlego, com medo e um frio na espinha,
    sou fã e apaixonada por clássicos de terror e esse livro é bem no estilo dos que gosto,
    já anotei o nome aqui porque eu quero esse livro rsrs, o que mais me chamou a atenção foi você citar
    a banda ABBA que é a minha favorita.
    Adorei a resenha você conseguiu capturar a essência assustadora do livro.
    Beijos e sucesso.

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    1. Que bom que você gostou! Nem imagina o frio na barriga que foi começar aqui com a responsa de um livro tão pesado e tão bom. Obrigada pelos elogios. Tô aliviada!!!

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  2. UAU. Uma das melhores resenhas que já li de Mandy; fiquei tensa ao ler cada linha e já tô colocando no skoob pra não esquecer que preciso lê-lo assim que der... xD

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    1. Eita, Val... Morri de vreguenza aqui!!!! Que bom que consegui estrear bem por aqui, ainda mais que você já está acostumada com a minha escrita. Valeu mesmo!!!

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  3. Nossa!! Que livro é esse? Que resenha é essa? haha. Já queroooo, mas ao mesmo tempo estou com medo de não ser forte o suficiente para o livro, gosto de histórias impactantes assim, que deixam a gente sem palavras, com um leque de sentimentos. Esse parece ser daqueles.

    Beijos!

    http://livrosfilmeseencantos.blogspot.com.br/

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    1. Ana, eu também achei que não teria estômago, tentei deixar de lado e assistir a novela... Huahauhauhau. Mas não rola, esse livro é magnético, começou não tem como não terminar!!!!

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  4. Nossa, esse autor tem um nome difícil hein! Esse parece o típico livro que me deixaria de ressaca literária, e eu adoro isso. Concordo quando você diz que a capa parece bobinha, pelo que você descreveu, o livro parece ser muito melhor que isso. E eu adoro livros ambientados na suécia, embora tenha lido apenas alguns. Já coloquei esse livro na minha lista hoho

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    1. Menina, eu nem sei como começar a falar o nome dele. Huahauhauahua. Eu achei a capa linda, mas depois de ler, parecia que precisava de algo mais forte, sei lá... talvez eu tenha ficado muito impressionada. Huahauhahauhauha

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  5. Oii, tudo bem?
    UAU! Que resenha foi essa? MARAVILHOSA!
    Fiquei muito curiosa para ler o livro, assim que puder colocarei na listinha de desejos.
    Bjs

    A. Libri

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  6. Oláá
    Imagino que iria amar o livro pois adoro terror e esses temas fortes, sua resenha me deixou até arrepiada e super curiosa para leitura. Nunca ouvi falar muito no livro mas depois da resenha, quero ler haha ótima dica e ótima resenha, aliás, a capa do livro é linda e atraente para o público alvo.

    Beijos
    Catharina
    http://realityofbooks.blogspot.com.br

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  7. Oláá
    Imagino que iria amar o livro pois adoro terror e esses temas fortes, sua resenha me deixou até arrepiada e super curiosa para leitura. Nunca ouvi falar muito no livro mas depois da resenha, quero ler haha ótima dica e ótima resenha, aliás, a capa do livro é linda e atraente para o público alvo.

    Beijos
    Catharina
    http://realityofbooks.blogspot.com.br

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    1. Catharina... Sim, a capa é linda e atraente. Tanto que quando chegaram os livros da parceria aqui eu voei nesse sem nem piscar. Mas depois de ler me pareceu que merecia algo mais sombrio, mais sei lá... Tomara que você leia e goste tanto quanto eu. Quero que todas as pessoas do mundo leiam este livro. Hahauhauhauhauah

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  8. Amanda que coisa incrível você fez aqui comecei a ler a sinopse assim com um olho só, caindo de sono mas qdo entrei na resenha tive que parar apenas pra tomar um café porque senti que vinha algo de muito bom pela frente, menina amei mesmo, escutei a musica citada e o escambau rsrs enfim o livro me pegou de jeito viu ?? Parabéns <3
    http://florroxapoemasepoesias.blogspot.com.br/

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    1. Ai, minha flor roxa, você sempre me fazendo elogios que eu nem sei se mereço. Huahauha. Obrigada querida. Mil beijos.

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  9. Muito boa a resenha,estava enrolando para lê-lo, mas vou passá-lo na frente agora. Gosto de livro que mexam comigo, que deixem impressões e que me façam reagir de algum modo á história. Só não curti muito o fato de que não há personagens com quem se crie um vínculo.

    http://porquelivronuncaenguica.blogspot.com.br/

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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