A Literatura Fantástica é fantástica




30 abril 2015



Jorge Miguel Marinho*
“Sabendo que narrar faz parte da condição humana, Deus decidiu contar a história do universo. Experimentou diversas vozes, mas nenhuma delas fez eco na criação. Foi então que descobriu que a ficção é palavra que salva e Ele se salvou.”

Pondo fé no que o fragmento acima sugere, a ficção não tem começo nem fim e parece fazer eco no próprio ato criador. Vivemos também e muito da fantasia e extraímos dela imagens e palavras que espelham “coisas” muito reais.
Nesse universo que funde realidade e ficção, a Literatura Fantástica tem lugar de destaque e uma voz muito singular. De modo geral, ela é entendida como uma narrativa – conto, novela, romance – que transgride ou subverte as leis naturais do universo concreto, inserindo na ficção “o sobrenatural”, isto é: aquilo que não tem possibilidade de acontecer no mundo real.
Existe uma Literatura Fantástica que atua no sentido de entreter e emocionar, ainda que provoque o susto ou o pânico no leitor, muito especialmente as histórias de terror. São aquelas histórias de arrepiar: feitiços, aberrações, possessões de homens e mulheres, de crianças também, aparições diabólicas, lobisomens e vampiros, mortos-vivos, fantasmas, seres metamorfoseados, apavorantes, sobrenaturais.
Entretanto, quando se fala em Realismo Fantástico, ainda que seus componentes expressivos sejam situações sobrenaturais, como um homem que vira inseto durante o sono em A metamorfose, de Franz Kafka – muito mais do que o entretenimento, a diversão ou o espanto, que no fundo provoca um medo desejável como quase tudo que é espetacular –, o que o escritor busca é uma reflexão ou uma súbita revelação do real.
Nesse sentido, os critérios de avaliação de um fato fantástico, no mundo da Literatura, têm sempre como referência ou ponto de partida o repertório normativo do leitor: como ele vê a vida, como atua na realidade, o que deseja, o que sonha, o que já leu e como essas histórias aparentemente estranhas, esquisitas, bizarras sensibilizam, repercutem, inquietam, atemorizam ou até escandalizam a sua maneira de ser.
Em síntese, o que – em termos políticos e existenciais – o chamado Realismo Fantástico quer é inquietar ou desacomodar as expectativas confortavelmente emocionais do leitor. E mais: será Realismo Fantástico todas as formas narrativas em que os componentes sobrenaturais estejam voltados para esta súbita descoberta ou redescoberta da “vida” como se a “vida” fosse surpreendida pela primeira vez.
Motivando este olhar, o Fantástico faz acordar uma percepção mais sensível e funda do “estranho” e do “absurdo” que estão presentes na existência de fato e as pessoas naturalmente “aceitam” no dia a dia como “coisas reais e coisas muito comuns.”

Não se trata, portanto, de instaurar o terror, o insólito ou o estranho como elemento de pura fruição, prazer estético ou simples apelo emocional, mas sim de expressar de forma “absurda e hiperbólica” a realidade concreta, comum, ordinária e absurdamente normal. De fato, não são os acontecimentos impossíveis e sobrenaturais que por si só garantem a estranheza da Literatura conhecida como Realismo Fantástico, mas sim a “naturalidade” com que os personagens se colocam diante do absurdo e sobretudo a “naturalidade” na forma de narrar.
Por estas razões, o Realismo Fantástico – Realismo Mágico ou Maravilhoso como também é conhecido – acredita de fato que, se as pessoas se inquietam, se perturbam ou se escandalizam diante de uma manifestação artística, é porque esta inquietação, esta perturbação, este escândalo já viviam dentro delas e a Arte do Fantástico só fez “revelar”. É como se ser humano tivesse o hábito de conviver com o que é estranho, assustador, desumano como se este modo de viver fosse uma ordem, uma disciplina, um destino completamente natural.
André Breton, mestre do Surrealismo, sabia disso muito bem e dizia uma frase que faz todo sentido no nosso mundo:
O que é admirável no fantástico é que não existe fantástico: só há o real.
Seria de se pensar como o Realismo Fantástico continua sendo muito significativo nos nossos dias e vai permanecer como “alerta” – as suas palavras, imagens e histórias lembram um espelho que reflete os mistérios da natureza humana, o absurdo das guerras e a solidão dos desvalidos, a eficiência da tecnologia e a miséria que atinge populações, a solidão, a violência, o desamor e todas as mazelas de “uma vida inteira que podia ter sido e não foi”, para lembrar um verso de Manuel Bandeira.
Octavio Paz, ensaísta, poeta e prêmio Nobel de Literatura, sintetiza também estas considerações todas com rara expressividade e precisão, pondo em destaque a aguda atualidade do Realismo Fantástico quando declara e até denuncia:
Hoje as pessoas convivem com toda a sorte de absurdos da realidade de fato, mas não convivem naturalmente com o absurdo posto na ficção.
E é por tudo isso e muito mais que a Literatura Fantástica é fantástica.

* Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor. Entre suas obras estão O menino e o fantasma do meninoUma história, mais outra e mais outra e Lis no peito, esta última premiada em 2006 com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Prêmio Jabuti de melhor livro juvenil e o White Ravens. Suas histórias são marcadas por uma atmosfera em que sonho e realidade se misturam no cotidiano das personagens.

17 comentários:

  1. Eu me apaixonei à primeira vista pela obra de Jorge Miguel Marinho. Na teia do Morcego é, provavelmente, o livro mais legal do meu ano. Realismo fantástico é o meu amor maior na literatura. Adorei este texto!!!

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  2. A literatura fantástica abrange uma gama muito rica, onde podemos ver não só seres sobrenaturais, como também mundo inexistentes. Da emoção ao terror é um gênero que agrada a todas as idades.
    Bjs, Rose

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  3. Adorei o texto, você escreve seus posts com sentimento e carinho, confesso que não conhecia muito bem sobre o assunto. E adorei ampliar meus horizontes,
    Bjus

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    1. Obrigada pela atenção, mas o texto não é meu.

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  4. A literatura fantástica, assim como a poesia, vive com com asas a liberdade de vôo. É como você mencionou, o fantástico simplesmente é fantástico, não precisa de explicações, não precisa tratar de fatos. Uma criatura magica, uma estrada de tijolos amarelos, um chapéu velho que canta aos novos alunos musicas sobre uma escola magica e seus fundadores, unicórnios, uma fada do amor que se entrega a ele mesmo sabendo que é mortal, deuses... Tudo na literatura fantástica é precioso, o impossível acontece em todos os âmbitos, o que não se pode acreditar se torna incrível. O fantástico brinca com as palavras, brinca com as almas e dança dentro dos seres. Cada livro de tal encanto é uma verdadeira chave de portal.

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  5. Olá, tudo bem?

    Que post mais informativo, adorei.
    Eu adoro literatura fantástica, e mais ainda o realismo fantástico, adoro as surpresas, o pavor esse lado mais pesado, com uma crítica mais forte, como no exemplo de Metamorfose. è uma delícia. Literatura fantástica é fantástica... <3

    beijos!

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  6. Oi, tudo bem?
    Eu sou uma das que gosta de literatura fantastica, são os meus preferidos, pois sempre tem surpresas e a nossa imaginação só aumenta

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  7. Texto excelente, Lili. Eu sou admiradora do Realismo Fantástico, pois as narrativas são maravilhosas, em sua maioria... algumas me causam uma estranheza que não dá pra explicar em palavras, mas me deixam de pensamento 'perdido' por vários dias... ^^
    bjs

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  8. Oi Lilian, tudo bem?
    Não conhecia o Jorge Miguel mas certamente vou querer conhecer melhor o trabalho dele.
    Ele mostrou com o texto uma visão que eu não tinha a respeito da literatura fantástica, apesar de apreciar o gênero.
    Bjs

    A. Libri

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  9. Olaa
    Adorei seu post, muito interessante, eu curto bastante literatura fantástica, muito gostoso ler de vez em quando.

    Reality of Books
    Beijos

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  10. Nossa! Adorei seu texto. Na verdade, eu sempre curto tudo o que você escreve. A fantasia está no meu top de leituras. Adoro livros que me deem a possibilidade de "viajar" por mundos diferentes e fora da realidade!
    Um grande beijo!
    Blog Cheiro de Livro Nacional

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    1. Obrigada pela atenção, mas o texto pertence Jorge Miguel Marinho. Na introdução já vem com essa informação. ;)

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  11. Olá! Muito bom o texto do Jorge Miguel Marinho. O texto é fantástico, assim como a literatura fantástica é fantástica. Abraços!

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  12. Oi, tudo bem?
    Eu gosto bastante de literatura fantástica, embora não seja meu gênero favorito. Esse tipo de literatura realmente meche com nossa imaginação e instiga a mente. Não sou muito fã dos livros voltados para o terror, mas amo sobrenaturais.
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  13. Muito boa reflexão!
    Eu adoro o gênero fantástico e, de fato, há muito da realidade do autor na fantasia que ele cria. Acho incrível como encontramos livros que nos deixam boquiabertos com a criatividade do autor (rs). E acho ainda mais incrível como nossa própria imaginação dá vida à criação de outrem.

    Beijos, flor!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  14. Oiii
    Adorei essa reflexão sobre a Literatura Fantástica... é um dos meus estilos literários favoritos, justamente por nos fazer "viajar", imaginar e criar uma nova realidade.
    Parabens pelo post linda...

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  15. Oii!

    Adorei o post!
    Nunca tinha lido esse trecho do Jorge Miguel Marinho, mas gostei bastante :)

    Beijos, Amanda
    www.vicio-de-leitura.com

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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