Mulheres na Literatura, por Pók Ribeiro




17 abril 2015


Em toda a história da Literatura Ocidental há marcas fortíssimas da presença de um cânone literário masculino, reconhecido e responsável pelos escritos mais respeitados do Universo Literário. As poucas mulheres que ousaram romper esses paradigmas foram perseguidas, massacradas e relegadas à condição de loucas. Evidenciando esta realidade sombria, a dramaturga Maria Angélica disse, em 1876, no prólogo de sua peça abolicionista Cancros Sociais[1]

A mulher brasileira, se não quer sujeitar-se ao escárnio dos espirituosos e às censuras mordazes dos sensatos, não tem licença para cultivar seu     espírito fora das raias da música ao piano (...) entre nós, o que sai da lacra feminina, ou não presta, ou é trabalho de homem.


Àquelas que persistissem na produção literária, restava, apenas, escrever utilizando-se de pseudônimos masculinos, ou ainda e mais grave, dar visibilidade aos seus esposos ou irmãos, visto que eram estes que assinavam suas obras e recebiam todas as honras. Há ainda um grupo grande de mulheres ousadas, principalmente no Século XIX, que enfrentaram o determinismo e ecoaram suas vozes, produzindo uma literatura não só sentimental, mas, sobretudo irônica e transgressora. A obra de algumas dessas mulheres fora resgatada em 1999 pela Editora Mulheres, no livro Mulheres Escritoras do Século 19[2].
Outras tantas foram caladas perpetuamente, sucumbindo ao poderio masculino e dedicando-se exclusivamente às atividades domésticas e de procriação, já que a superação das proibições familiares era apenas parte de uma sequência de barreiras a serem enfrentadas pelas mulheres escritoras. Conquistar o público leitor e uma crítica literária, notadamente masculinos, pois somente estes tinham o irrestrito direito à educação e, consequentemente, ao mundo das letras, era sim tarefa ainda mais árdua.
Quando o cenário literário permitiu, timidamente, a aparição da mulher foi no campo da poesia - considerado um gênero mais apropriado ao universo feminino. Daí toda a discussão, posteriormente, travada em torno dos substantivos “poetisa” e “poeta”, visto que, somente quando – raramente- a crítica masculina aprovava a obra de uma mulher, esta galgava o patamar de poeta, já que o título de poetisa estava destinado às mulheres- escritoras de “menor potencial”, segundo a avaliação masculina.
Figuras como Anna Ribeiro de Góes Bittencourt, Auta de Souza, Gilka Machado e outras tantas, relegadas ao quase anonimato, foram extremamente significativas até a chegada de Raquel de Queiroz no cenário literário brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Posteriormente, outras figuras como Nélida Piñon, Dinah da Silveira de Queiroz, Zélia Gattai, Hilda Hilst e outras tantas mulheres emblemáticas na nossa literatura, foram responsáveis pelo fortalecimento da presença feminina no campo literário brasileiro.


Desde os primórdios da Literatura Nacional, a mulher teve um papel secundário, sempre obscurecido pela presença masculina, mais forte e com respaldo na sociedade. Seja como personagem ou como autora, à ela sempre coube uma posição menos expressiva, estando relegada a condições de submissão e/ou anonimato. De modo opressor, a figura feminina esteve sempre condicionada a um perfil masculino que lhe assegurasse segurança e força, como se ela própria não pudesse criar e manter sua história.
É, pois, de extrema necessidade que se amplie as discussões acerca de todas as mulheres escritoras que foram silenciadas pelos dogmas literários de uma sociedade patriarcal, bem como refletir criticamente acerca de suas obras e de velhas análises sobre elas postas. Além de discutirmos e analisarmos obras e autoras do passado, é fundamental que também se coloque em discussão o novo cenário literário brasileiro, não mais preso a velhos e conservadores padrões, mas, sobretudo, visando a inclusão, a igualdade e a liberdade de expressão de modo efetivo, onde a mulher tem sido ativa seja como criadora ou personagem.




[1] Trecho extraído do livro Escritoras Brasileiras do século XIX, disponível em  http://www.editoramulheres.com.br/imprensa9.htm
[2] ZAHIDÉ LUPINACCI MUZART (org). Escritoras Brasileiras do Século XIX: Antologia. Ed. Mulheres/Edunisc, 1999.



38 comentários:

  1. Não somente na literatura, mas em praticamente tudo a mulher era criticada. Na verdade, até hoje. É uma injustiça sem fim. Espero que num futuro próximo nós sejamos vistas com outros olhos. Sei que tá beeeem melhor do que antes, mas o preconceito continua aí e as diferenças são gritantes.

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    1. Nós somos a o ferramenta para o fim desse preconceito.
      Abraços.

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  2. É impressionante como as mulheres são perseguidas desde sempre. Se hoje em dia ainda temos que lutar por nossos direitos, imagine-se nesta época onde nem direitos as mulheres tinham... Tiro meu chapéu para estas corajosas e talentosas mulheres.
    Bjs, Rose

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  3. Gostei do seu texto, ele nos relata toda a tragetória da mulher lutadora, sem esperar pelos outros
    interessante e bonito
    bjs

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  4. Curiosamente ainda não tinha parado pra pensar nesse assunto mais a fundo. Eu tenho alguns autores favoritos pelos quais sou apaixonado, mas em termos de autoras, com exceção de Clarice Lispector ( e vou dizer que um dos texto dela que mais amo é "Das vantagens de Ser Bobo) e J.K Rowling. Sou muito fã de Roberto Drummond, Kakfa, Niet e varios outros autores. Vou procurar mais obras feitas por mulheres, imagino que esteja perdendo também trabalhos fascinantes. Ontem vi um post sobre algumas mulheres, incluindo a Simone de Beauvoir que já está na minha lista.

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    1. Muito bem!!! Certamente, você encontrará um Universo de talentos.
      Abraços.

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  5. Sabe aquela música: "Mulher brasileira em primeiro lugar.."
    Então é o seguinte, PALMAS E O TOCANTINS INTEIRO para esse post!
    Por motivos de: dar visibilidade a mulher, e não qualque mulher: A BRASILEIRA!

    Ah, esse blog tá cada dia mais divino :D

    Um beio :*
    SofiaPiassi.com

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    1. Muitíssimo obrigada pelo carinho e colaboração!
      Abraços.

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  6. Olá Érika,

    Tem ótimos livro que li escritos por mulheres esse preconceito é ridículo, pessoas com a mente pequena, ótimos post parabéns....abraço.

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  7. Oi, tudo bem?
    Fazendo um trabalho para a faculdade sobre o histórico da educação tive uma visão mais ampla de como as mulheres eram tratadas.
    Admiro muito essas mulheres que se arriscaram e lutaram em uma época em que eram tão perseguidas e proibidas de tudo.
    Bjs

    A. Libri

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  8. Este é um tema que sempre trago em meus pensamentos. Injustiça achar que as mulheres são frágeis e que por isso produziriam menos que os homens. Enquanto lia teu artigo pensava sobre um seriado que vi ainda menina sobre a Chiquinha Gonzaga. Na história ela também escrevia muitas coisas, mas tinha que se conter em assinar com um nome masculino. E sarcasticamente era venerada pelos homens que a liam.

    Prova de que a diferença está no que a sociedade quer enxergar e não no que realmente a sociedade produz.

    Bela reflexão Erika. Um prazer poder te ler.
    Lilian, abraços pra ti! <3

    www.pensamentosvalemouro.com.br

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    1. Obrigada!!!
      É muito bom provocar essas reflexões.
      Abraços.

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  9. Não só na literatura, infelizmente, as mulheres ainda estão em um papel considerado secundário. Elas ainda têm salários menored, são minoria no corpo diretivo da maioria das empresas e ainda tem de ouvor aquelas piadinhas do dia a dia.
    Há um loooongo caminho até que seja uma igualdade de fato, por isso temos que comemorar cada conquista.

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    1. E esse caminho fica mais leve com a nossa reflexão e debate.
      Cheiro.

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  10. Oi Erika! Muito legal você abordar esse assunto, porque o gênero feminino foi responsável por produções brilhantes e, ainda assim, precisavam se esconder ou se calar. Um contradição infinita quando pensamos no sucesso que elas fizeram sob pseudônimo masculino, não é? Confesso não ter tido oportunidade de conferir obras das grandes mulheres citadas por você no post, mas fico feliz em pensar em tantos outros nomes femininos da literatura brasileira atual. Na verdade, hoje, creio que somos maioria, mas essa não é a questão, apenas que há mais reconhecimento e é uma coisa linda de se ver. <3

    Beijos, Lis.
    umareescrita.com.br
    facebook.com/umarescrita

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    1. Obrigada pela contribuição importante!!!
      Abraços!

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  11. Olá! Achei o post muito profundo, o que nos faz refletir mais sobre o passado literário em relação às mulheres, que eram opimidas só pelo fato de serem mulheres. É triste um passado assim, mas estamos caminha para um futuro (se não já estamos vivendo esse futuro) em que tanto mulheres como homens serão tratados como iguais, não só na literatura, mas em todas as áreas da sociedade. Beijos!

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    1. Obrigada pela importante contribuição.
      Abraços.

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  12. Muito válido o texto, e reflexivo.
    Espero que mais pessoas possam lê-lo e refletir sobre ele,
    se questionar e quem sabe até mudar.
    Pois já andamos bastante, mais ainda há um longo caminho para se percorrer.

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    1. A reflexão e o debate são fundamentais. Abraços.

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  13. Oi Erika, sua linda, tudo bem?
    Recentemente eu participei de um evento que teve justamente esse título. Mesmo assim, você me surpreendeu, eu não sabia que elas tinham que deixar irmãos e maridos assinarem suas obras e nem sobre o conceito de poetisa e poeta dado pela época. É triste saber que as mulheres tiveram que lutar tanto aos longo da história para terem direito a expor suas vozes e mais triste ainda, saber que ainda precisamos evoluir, tivemos grandes conquistas, mas ainda não vencemos.
    Adorei sua postagem.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  14. Olá!
    Achei o texto muito interessante pelo seu teor histórico, uma vez que as mulheres não tinham muita presença no mercado editorial antigamente e, hoje em dia, as mulheres estão cada vez mais presentes em catálogos literários. Parabéns pelo texto!

    http://loucurasaovento.blogspot.com.br/

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  15. Realmente e infelizmente a literatura ainda é uma área bastante machista. Talentos femininos são desprezados e esquecidos no meio de obras de homens autores. E isso até me fez lembrar da história de J. K. Rowling. A editora sugeriu que ela omitisse seus dois primeiros nomes (Joanne Kathleen) para que seus livros fossem consumidos também por leitores homens e sendo assim vendesse mais. Como se um livro escrito por mulher não merecesse a atenção é de se indignar né? Mas graças a Deus que essa realidade está mudando. ;)

    http://livrosseriesecitacoes.blogspot.com

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    1. Precisamos refletir e discutir sempre sobre essas temáticas.

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  16. Após ler seu texto , parei para pensar e realmente são poucas autoras que tem o mercedio destaque, há muito mais espaço para autores, o que é uma injustiça enorme. Tenho talentos maravilhosos de autoras sem contar a sensibilidade que a autora consegue colocar nos livros. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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    1. Muito preconceito ainda precisa ser derrubado.
      Beijos

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  17. Oláá
    Caramba, que texto ótimo e realmente são poucas a com destaques, se pararmos para pensar e tal, adorei a premissa do post e a ideia que ele nos passou.

    http://realityofbooks.blogspot.com.br/
    Catharina
    Beijos

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  18. Erika-flor,
    Postagem genial! Adorei. De modo simples e direto, você conseguiu transmitir quão dificultoso era assumir-se uma escritora em nossa história. Que triste saber que a cultura pouco valorizava e pouco dava espaço ao talento feminino na literatura. Senti-me orgulhosa de quem enfrentou tais obstáculos e nos ajudou a chegar onde chegamos. :) Parabéns pelo post.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  19. Infelizmente o machismo persiste até hoje em todos os setores, e com certeza no século XIX e antes disso deveria ser muito pior pois as mulheres praticamente não tinha voz para opinar sobre nada.
    Espero que a nossa sociedade possa transpôr essas barreiras e que todos tenham o mesmo espaço.

    Abraço,
    Diego de França
    http://www.leitorsagaz.com.br

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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