Cartas sensíveis e sentimentais




30 maio 2015

 Jorge Miguel Marinho*
Tanta verdade tristonha 
Ou mentira risonha 
Uma carta nos traz.
Aldo Cabral e Cícero Nunes

Como canta a epígrafe, a sensível motivação das cartas pessoais registra sempre emoções de dor e de alegria e, ainda que buscando ocultar as emoções, tem um único destino: a caligrafia das palavras sentimentais.
Quando André Comte-Sponville confessa que “Numa carta só atingimos o outro ficando mais próximos de nós”, entendemos melhor o que já sabemos e sentimos: escrever cartas é diálogo bem de perto com o outro, tentativa de comungar os sentidos de quem escreve e de quem lê, necessidade tão humana de partilhar com o mundo o nosso Eu, a nossa história mais íntima, o nosso modo de ser.
Ideias, emoções, sonhos são palavras que pulsam em cada um de nós e buscam, no trajeto feliz ou infeliz de uma correspondência, um sentido para a experiência única de viver e existir.
Um remetente e um destinatário nos extremos de uma página, um local e uma data na margem esquerda, o corpo da mensagem com vocativos, reticências e exclamações, a despedida provisória ou definitiva, a assinatura sem sobrenome lembrando o nome de quem remete e o nome de quem vai receber. Depois a missão do correio na breve ou longa viagem para o encontro de corações.


Cartas têm uma presença das mais tocantes na vida e na arte que acolhe o seu imaginário intimista e faz delas uma fonte de inspiração. Num momento em que vivemos a velocidade e soberania dos dígitos, as cartas manuscritas ou datilografadas preservam as digitais amorosas e celebram o trabalho das mãos. Seus cúmplices são o cinema, o teatro, a música, a pintura e particularmente a Literatura, que, buscando eco na correspondência, se envaidece de jogar com letras e papel. Nessas diversas expressões artísticas, a subjetividade aflora e todos os apelos são sensíveis e sentimentais: amor, ódio, saudade, rancor, vingança, ternura, urgência, medo, traição, ironia, paixão e compaixão.
O filme Nunca te vi, sempre te amei, dirigido por David Hugh Jones, constrói toda a sua sensível narrativa na troca de cartas entre um funcionário de uma loja de livros em Londres e uma escritora norte-americana. A existência invisível do correio aproxima os dois no tempo e no espaço, à medida que o sentimento de amizade e amor transcende a geografia dos países e conquista uma dimensão universal. Eles nunca se veem e simbolicamente vão se amar para além da vida e da morte pela natureza tão humana da correspondência de pessoa para pessoa. E mais: pela permanência das palavras na memória afetiva que, ao menos como promessa de encontro, se oferece como uma história sem fim.


O tom introspectivo e autocentrado das cartas encontra na música um tom afinado e vai fazer um percurso melódico da confissão melancólica à ironia debochada e informal. Nesse fluxo emotivo tão familiar à Jovem Guarda, Lilian Knapp e Renato Barros cantam a desilusão amorosa no lamento rasgado das cartas:
Rasgue as minhas cartas 
E não me procure mais 
Assim será melhor 
Meu bem! 


Chico Buarque e Francis Hime travam um bate-papo saudoso e descontraído para dar voz à ironia e fazer a denúncia de tempos de opressão:
Meu caro amigo, me perdoe, por favor 
Se eu não lhe faço uma visita 
Mas como apareceu um portador 
Mando notícias nessa fita 
[...] 
Mas o que eu quero é lhe dizer 
Que a coisa aqui está preta.

Assim, há uma harmoniosa ressonância entre as cartas e as artes de modo geral, mas é na Literatura que acontece o melhor encontro de expressões. São incontáveis os escritores obsessivos e frenéticos da arte epistolar. Ao acaso, apenas algumas passagens que se revelam como uma correspondência de vozes com o timbre da paixão.
Sóror Mariana Alcoforado, num convento português no século XVII, escreve para o seu amado distante, um oficial francês, cartas de amor no limite da paixão e do ressentimento, subvertendo o hábito religioso com o grito erótico de dor e abandono de uma simples mulher:
Que será de mim?... e que queres que eu faça? E como é possível, com tanto amor, eu não ter podido fazer-te venturoso?



As mulheres parecem ter uma enseada particular no mundo das cartas e Rosa Luxemburgo, correspondente compulsiva e ativista política das mais radicais, extrai desse tipo de comunicação prosaica e afetiva um modo de falar aos companheiros de luta, numa época em que o telefone quase não tinha lugar. É poética e de um vigor existencialista a sua voz nas cartas revelando, por vezes, uma sensível sintonia com a passagem do tempo e a certeza de um tempo maior, absoluto e sem duração:
Oh, por favor, prestem atenção a este dia maravilhoso! [...] este dia não voltará nunca, nunca mais!

Sensível a esta atmosfera grave e ao mesmo tempo enternecida das cartas, Ana Cristina Cesar tem no diário íntimo e na correspondência confessional o modelo exemplar para a expressão de uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Ela sabe das cartas:
Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?
Muitos escritores escrevem seus livros na forma de cartas – basta lembrar Tomás Antônio Gonzaga comCartas Chilenas, Johann Wolfgang von Goethe com Os sofrimentos do jovem Werther, Julio Cortázar comCarta a uma senhorita em Paris, Pierre Abélard (ou autor desconhecido) com A correspondência de Abelardo e Heloísa, Rainer Maria Rilke com Cartas a um jovem poeta, e tantos outros. Este também é o caso de Caio Fernando Abreu, escritor que tratou das inquietações e sonhos da geração pós-anos 60 como nenhum outro. Deixando por um momento a irreverência, o sentimento de autodevassa, a carência de ser amado não só como escritor, apelos muito presentes na sua obra, é na nudez das cartas pessoais que ele acaricia o pai:
Querido pai, ficou na minha cabeça uma frase que o senhor disse logo ao voltar daquela viagem a Santiago, algo como "Eu morri e não sei." Ô pai, que é isso?
São muitos os escritores que buscaram nas cartas o seu modo de interlocução tão sensível e humano com o mundo, com especial destaque para Mário de Andrade, possivelmente o correspondente mais contumaz e solidário da Literatura brasileira. Escrevia diariamente e nunca deixou um remetente sem resposta, pouco importando se fosse Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral ou um poeta anônimo do extremo norte do Brasil. Para finalizar provisoriamente esse breve correio afetivo, segue uma passagem de uma carta que ele escreveu para um destinatário específico mas, pelo horizonte poético e uma tocante afeição pelo outro, tem como destino todos nós:
Escrevo esta carta por saudade de ver você, adormecer no seu silêncio que qualquer dia desses explode feito um coral. Como se fosse a primeira hora de Deus.

* Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor. Entre suas obras estão O menino e o fantasma do meninoUma história, mais outra e mais outra e Lis no peito, esta última premiada em 2006 com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Prêmio Jabuti de melhor livro juvenil e o White Ravens. Suas histórias são marcadas por uma atmosfera em que sonho e realidade se misturam no cotidiano das personagens.

13 comentários:

  1. Olá!
    Eu sou péssima em escrever cartas, mas gostava tanto da época que não existia toda essa tecnologia e a modinha do wpp. As pessoas se afastaram muito desde que largaram as coisas simples da vida. Adorei seu texto <3

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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  2. que post perfeito... :o
    sou apaixonada por romances epistolares, um que não foi citado na matéria foi Dracula <3
    Cartas a um jovem poeta é muito bom, adorei terem citado meu amado Caio no texto...
    Cartas são quentes, calorosas, e num mundo modernizado e tecnologicamente desenvolvido como o que estamos vivendo hoje, ainda não foram [nem serão] capazes de reproduzir afeto por meio de palavras escritas em e-mails, o calor que as cartas trocadas nos passam...

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  3. Gente, que publicação apaixonante!
    Sempre quis que os costumes de trocas de cartas voltassem, pois queria muito fazer parte dessa época. Nunca tive a chance de escrever ou receber uma carta, mas tenho certeza de que são fortes os sentimentos por trás de cada palavra. Independentemente de época, um ia ainda passarei por isso. ❤

    Beijos,
    Goulart, F.
    Império Imaginário
    http://imperio-imaginario.blogspot.com/

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  4. Olha tenho que confessar que quando eu era mais nova eu sempre trocava cartas com pessoas da internet mesmo. Eu nem tinha email. Adorava escrever e sempre recebia cartinhas que sinceramente adorava, pois vinha sempre com algum mimo sabe? Mas infelizmente o email substituiu isso de alguma maneira, embora ainda as pessoas façam, mas já é algo mais prático e mais rápido né? Mas mesmo assim achei a sua postagem linda e adorei. Sério...Agora só escrevo cartas mesmo para minhas colaboradoras quando vou mandar algum livro hehehehe

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-centelha.html

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  5. Oláá
    Adorei o post pois sou suspeita por amar receber e escrever cartas, acho uma coisa super diferente e legal, tocante sabe?

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  6. Gente, esse blog é muito amor!
    Que postagem ficou muito linda. Parabéns ao Jorge! Em época de sociedade liquida, as cartas são vintage. Ela têm o que de amores nostálgicos, quando os corações batiam em ritmos mais suaves. Concordo que é na literatura que as cartas encontraram a simbiose perfeita.

    Beijos!

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  7. Que reflexão maravilhosa! Quando criança amava trocar cartas e meu primeiro namoradeiro trocávamos carta...., esperava o carteiro todos os dias para ver se havia alguma carrinha...nhoque em dia as pessoas seneswuecersm das coisas boas,
    Mais uma vez amei demais,
    Bjus

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  8. Oi Liliam, que lindas palavras sobre as cartas, gosto das músicas também. Troquei muitas cartas na minha vida e hoje em dia o e-mail é tudo de bom, mais as cartas guardam um toque bucólico e que deixa saudade. De vez em quando envio cartas para amigas queridas e você acabou me dando uma boa ideia para o dia dos namorados...Preciso ler alguns livros sobre cartas, gostei desse Os sofrimentos do jovem Werther e tenho aqui e não li ainda!
    Suas palavras tem bastante profundidade.
    Beijos
    http://scraplivros.blogspot.com.br/

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  9. Eu tenho uma paixão particular por cartas, e achei essa publicação simplesmente encantadora. Eu acho que eu não assisti o filme que você mencionou na publicação, mas com certeza eu vou procurar.

    http://laoliphant.com.br/

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  10. Oi, tudo bem?
    Adorei a postagem! Acho lindo quem ainda se comunica ou procura expressar alguma coisa por meio de cartas e sempre que posso eu tento fazer isso!
    Realmente hoje em dia as pessoas não tem mais esse hábito de enviar cartas, preferem a facilidade e rapidez de um teclado, mas para marcar momentos especiais eu sempre faço a opção por uma carta :).

    Beijo :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  11. Oi Lilian,
    Se tem uma coisa que eu amo é escrever/receber cartas! Acho uma coisa tão incrível, porque é uma coisa tão pessoal, tão única. E pra mim uma carta sempre vem carregada de sentimentos. Uma pena que hoje em dia esse costume vem se perdendo em meio a tanta tecnologia, e isso só faz aumentar o valor de uma carta escrita a mão. Espero que a gente não perca esse costume e continuemos escrevendo cartas nem que sejam de duas ou três linhas.
    Beijos
    Carol
    www.sobrevicioselivros.com

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  12. Lindo seu post!
    Amo receber cartinhas. Quando meus amigos se dignam a me escrever fico feliz da vida. Acho uma forma maravilhosa de comunicação. Acredito que entendemos e nos relacionamos melhor assim, por meio da escrita. Já falei que amei o post? haha <3
    Beijos
    http://umaleitoravoraz.blogspot.com.br/

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  13. Oi Lilian,
    E que postagem hein?!
    Caramba, só gente de renome. Achei super interessante.
    Obrigada por mais esse banho de cultura.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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