O leitor que eu imagino




16 maio 2015



Jorge Miguel Marinho*
O leitor que eu imagino sente e sabe que a leitura é um modo de ser feliz. Ele sempre termina a leitura de um livro com o sentimento, calmo e inquieto, de recomeço.

O leitor que eu imagino é como o escritor que faz de cada livro a promessa do livro posterior. Ele também nunca lê querendo apenas entender ou decifrar o que o livro quer dizer – ele recria o que o livro é capaz de sugerir. 

O leitor que eu imagino é criativo quando pergunta e criativo quando responde – para ele o livro é uma eterna indagação. Ele não tem o menor interesse de saber quantos livros leu na vida porque cada livro são muitos livros dentro de um livro só. 

O leitor que eu imagino quer que o livro seja ele, o próprio leitor, e escreve nas beiradas da página, grifa as palavras, rabisca o livro para poder assim ficar e existir dentro do livro. 

O leitor que eu imagino lê nos livros as situações mais conhecidas ou desconhecidas por ele, sempre com olhos de primeira vez – por isso mesmo ele chama o livro de “lugar de revelações”. 

O leitor que eu imagino lê em silêncio e silenciosamente conversa com o mundo, trocando palavras e imagens num diálogo sem fim. 

O leitor que eu imagino sabe que a literatura faz existir o que ainda não existe. Ele, o leitor que eu imagino, acolhe e hospeda cada vez mais personagens dentro de si e igualmente se torna cada vez mais “solidário” com a vida depois de cada livro que lê. 

Ele interrompe a leitura, mesmo quando ela é inadiável, pelo prazer de fingir que o livro não existe por um momento e, de repente, poder lembrar que o livro é de verdade e voltar a ser feliz. 

O leitor que eu imagino nunca é capaz de saber o momento exato em que abriu e iniciou a leitura de qualquer livro – ele precede e pressupõe a história de um livro antes de começar a ler. 

Ao menos muitas vezes ou quase sempre na vida do leitor que eu imagino, ele pede, compra, empresta e até rouba livros sabendo muito bem que não vai ter tempo o bastante para ler todos os livros que tem. 

Esse leitor sabe como ninguém que, se ler não salva, não ler salva menos ainda, às vezes não salva nunca. 

É preciso saber atribuir sentidos às palavras, criar sentidos ou até mesmo inventar os sentidos de um livro para ser o leitor que eu imagino. 

É destino e missão do leitor que eu imagino aprender a escutar as palavras e as ideias e os silêncios de um livro, sem que ele, o livro, se imponha para ser lido – o livro apenas é. 

O leitor que eu imagino, antes de buscar o conhecimento utilitário ou pragmático dos livros, vive a experiência da leitura como puro devaneio. 

Para cada leitor que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que esse encontro viva somente no imaginário de quem lê como quem ama e de quem ama como quem lê.

* Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor. Entre suas obras estão O menino e o fantasma do menino, Uma história, mais outra e mais outra e Lis no peito: um livro que pede perdão, esta última premiada em 2006 com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Prêmio Jabuti de melhor livro juvenil e o White Ravens. Suas histórias são marcadas por uma atmosfera em que sonho e realidade se misturam no cotidiano das personagens. 

11 comentários:

  1. Que lindo acredito que todos os leitores identificarão com as palavras da poesia acima.
    Gostei Bastante ^^
    Beijos
    Eu e meu vício chamado Leitura

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  2. Nossa que bacana.. tomara que eu seja também uma leitora assim :D adorei o texto! Beijos

    Mutações Faíscantes da Porto

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  3. que texto lindo *--*
    Me identifiquei em várias dessas situações descritas :D

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  4. Que texto perfeito! =D Lia como se estivesse conversando com o autor. Coisa mais linda de sentir!!! Senti uma poesia viva nas palavras dele, muito grata por compartilhar este lindo texto!

    www.pensamentosvalemouro.com.br

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  5. Oiii!

    Que lindoooo. Eu me vi neste texto, quero ele para mim.

    "O leitor que eu imagino sente e sabe que a leitura é um modo de ser feliz. Ele sempre termina a leitura de um livro com o sentimento, calmo e inquieto, de recomeço."

    "O leitor que eu imagino quer que o livro seja ele, o próprio leitor, e escreve nas beiradas da página, grifa as palavras, rabisca o livro para poder assim ficar e existir dentro do livro. "

    Maravilhoso este texto, descreveu meus momentos de leitura. Eu sou a leitora que você imagina. <3 Apaixonada.

    Parabéns, Jorge Miguel Marinho! Fiquei encantada com o texto...

    bjos, Lilian.

    http://livrosfilmeseencantos.blogspot.com.br/

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  6. Concordo com tudo que ele disse sobre um leitor, sou assim, so nao roubaria um livro e nem o rabiscaria jamais :3 , de resto me identifiquei demais.

    Amei o texto, e lindo :) .

    Bjs

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  7. Nossa tenho que dar os parabéns pelo texto, porque adorei.
    Descreveu muito bem nós leitores. Eu sinceramente fiquei apaixonada
    e quem sabe eu peço permissão pra pessoa para posta-lo em meu blog também para que os leitores possam ler e conhecer. Achei muito belo. PARABÉNS =]

    Acho que esse senhor que escreveu deveria escrever um livro sobre leitor, porque ele manda bem !

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-sol-e-tormenta.html

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  8. Olaaa
    Adorei o post e o texto, muito legal e bem interessante haha quero ser esse leitor.

    Beijos
    Reality of Books

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  9. Oiee ^^
    Também não conhecia o autor, mas adorei o texto. O leitor que ele imagina é o leitor que muitos de nós somos, adorei a última frase: "ainda que esse encontro viva somente no imaginário de quem lê como quem ama e de quem ama como quem lê."
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  10. Como leitor eu sou exatamente como sou em tudo que faço: fiel e apaixonado. Se não for pra fazer com amor, eu nem faço. Quando encontro o livro eu aprecio sua prosa, delicio-me nas curvas de suas letras e mergulho no portal que ele me convida. Alguns autores e livros eu devoro, outros me devoram. Já devo ter falado milhões de vezes quem é meu autor favorito ( Roberto Drummond), quando leio os livros dele, onde as historias se passam muitas vezes em locais de Belo Horizonte que eu conheço bem, eu imagino que vou sair nas ruas e encontrar os personagens dele, que vou poder comer pastel e tomar caldo de cana com eles, que vou entrar num carro e rumar em alta velocidade ou que vou ver um lobisomem apaixonado por uma moça cuja beleza faz os homens se ajoelharem e rezarem.

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  11. Existem vários tipos de leitores, achei o texto bem legal!! Pude me encaixar em alguns tipos aí, hehe *-*

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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