Escrever para alguém




25 junho 2015

Jorge Miguel Marinho*

Escrever para alguém é quase sempre 
uma necessidade tão humana de aproximar
a mão que escreve dos olhos de quem lê.

Mário de Andrade confessa: “Ninguém escreve para si, a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve para ser amado, para atrair, para encantar”.


E Anatol Rosenfeld humaniza: “Em todo verdadeiro ato de comunicação, enquanto permaneço eu, preciso assumir o papel do outro, pressentindo o que o outro espera de mim e vivendo a intensidade do seu sofrimento e da sua alegria. Só através desse ato de empatia é possível o verdadeiro diálogo com o outro”.

E Clarice Lispector revela: “Escrever é um ato solitário de um outro modo de solidão. Escrevo com amor e atenção e ternura e dor, e queria de volta, como mínimo, uma atenção e um interesse”.

Entre essas três expressivas considerações dos escritores, motivadas pela subjetividade de cada um e pela pulsação literária, há uma visível ressonância: o ato de escrever se mostra e se define, por natureza, como busca de uma interlocução com o outro. E é desse sentido de comunhão entre aquele que escreve e aquele que lê que essa comunicação se oferece como uma experiência marcadamente humanizadora. Escrever é também se ver no outro, real ou imaginário, e motivação para uma convivência com o outro no sentido de criar uma comunidade de palavras e de pessoas.

Em uma oficina de criação literária, lugar onde as palavras se inventam e se oferecem como matéria de uma experiência individual e coletiva, essa dinâmica de trocas que se impõem e se cumpliciam é o componente mais relevante: sem esta empatia, como diz Anatol Rosenfeld, é impossível o diálogo e sem o diálogo não acontece trabalho criativo.

Portanto, quando se fala em oficina de criação literária e na experiência imperdível de trabalhar as palavras com arte, o que se torna marcante é a oportunidade que cada um dos possíveis escritores tem de partilhar com os outros a singularidade do seu texto, a sua caligrafia emocional, a sua escrita pessoal em permanente estado de busca, enfim a sua visão poética do mundo. Este desejo do escritor de se ver sendo visto pelo outro é reiterado por diversos escritores em depoimentos sobre o processo criativo, como os citados na abertura desse texto. Por ser muito revelador entender a natureza da literatura e o ato criador nas palavras dos escritores, é iluminadora a confissão de Georges Simenon quando aponta para a identificação entre as pessoas, por conta da força humanizadora da palavra: “Sei que existem muitos homens que possuem mais ou menos os mesmos problemas que eu, com maior ou menor intensidade, e que ficarão felizes em ler o livro e encontrar a resposta – se é que ela pode ser encontrada”.

Tudo isso significa que o exercício de escrever literariamente só se completa com os olhos do outro e, nesse caso, numa oficina de criação a participação presencial dos interessados parece condição imprescindível, porque da solidão da escrita se espera a solidariedade da leitura, como insiste Clarice Lispector, iniciando este breve relato.

Em síntese, uma oficina de criação literária origina e compõe uma comunidade de vozes que vai construindo uma tribo de iguais que, respeitadas as diferenças de ser e escrever, clama por uma possível emoção e sobretudo pela opinião crítica de todos os interessados para se revelar na aventura sempre tão inventiva de viver a experiência de criar.

Esse diálogo – motivado pela sensibilidade de quem coordena uma oficina e igualmente pelos possíveis escritores que dela participam – resulta num exercício extenuante e ao mesmo tempo tão prazeroso de descoberta daquela melhor palavra – consciência de linguagem e percepção aguçada dos sentidos da realidade, principalmente da condição humana. É de se lembrar que essa experiência, a qual casa prazer com conhecimento, por conta da presença decisiva do trabalho lúdico, é naturalmente norteada por um movimento de constante procura que solicita paixão e paciência.

E por que esse trajeto? Porque em literatura um bom texto é aquele que termina só provisoriamente, levando-se em conta que um poema, um romance, um conto, uma novela e que tais já trazem em si a inquietação enquanto promessa do próximo texto que, como pulsação expressiva, está no ponto de se fazer palavra e se revelar.

Sobre essa busca obstinada de tornar a experiência pessoal matéria coletiva e a inquietação diante da palavra que, quanto mais se procura, mais se quer expressar, também muitos escritores já se confessaram. Entre eles Octavio Paz, que vê no ofício de escrever uma forma de se entender no fluxo da história pessoal e um modo de ser na realidade de fato e no universo sensível da imaginação: “Escrevemos para ser o que somos, ou aquilo que não somos. Em um ou em outro caso, nos buscamos a nós mesmos, eternos desconhecidos”.

Por essas e por outras, uma oficina de criação literária é um lugar de sensíveis descobertas e revelações motivadas pela vocação inventiva das palavras – um modo de ser.

* Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, roteirista, ator e escritor. É, também, coordenador de oficinas de criação literária e professor do curso de pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE Vera Cruz), em São Paulo (SP). Entre suas obras estão O menino e o fantasma do menino, Uma história, mais outra e mais outra e Lis no peito: um livro que pede perdão, esta última premiada em 2006 com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Prêmio Jabuti de melhor livro juvenil e o White Ravens. Suas histórias são marcadas por uma atmosfera em que sonho e realidade se misturam no cotidiano das personagens.

13 comentários:

  1. Que post bonito. Escrever realmente é algo que nos deixa em contato com a pessoa que lê as nossas palavras, é algo como um revelar-se da alma...
    Sinto uma sintonia maravilhosa quando leio meus autores preferidos, por vezes sinto como se a essência deles estivesse comigo durante a leitura...

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  2. Lilian, cada vez que entro no seu blog eu entro em um universo paralelo, porque seus posts sempre são marcantes e tocantes! você sempre me dá literalmente aulas e eu amo demais, sempre aprendo um pouquinho,
    bjus

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  3. Bom dia!!

    Muito bonito esse texto, acho que muitos devem ler, escrever e ler é necessário e para mim obrigatório, abre a mente e muita das vezes o coração...abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  4. Amei o post!
    Acho que esse contato que a leitura nos proporciona é incrível, tanto para quem escreve, quanto para quem lê. É um momento de comunhão, de emoção e de troca.

    Um grande beijo!
    www.cheirodelivronacional.com.br

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  5. Que coisa linda de ler!
    Eu não me sinto muito boa em escrever as vezes. Não consigo expressar tudo que eu estou pensando naquele momento em palavras, mas por diversas vezes eu tento!
    Adorei o post!
    Super beijo
    Gio - Clube das 6
    www.clubedas6.com.br

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  6. Olaaa
    Amei o post e eu adoro escrever, sempre troco cartas com minha melhor amiga e olha que a gente se vê sempre, acho isso muito gostos conecta mais as pessoas.

    Beijos
    Reality of Books

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  7. Com certeza a escrita é um encontro com muitos. O leitor é um coautor. Mas acho que vários escritores não estão preparado para os significados que os leitores põem em sues textos e, por isso, ficam ofendidos com as significados colocados em seus textos.

    Beijos!

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  8. Achei muito interessante a reflexão proposta no texto. Acho que muitos autores iniciantes estão precisando lê-lo para entender melhor o que estão se propondo a fazer.
    Particularmente, gostei muito da ideia de "escrever para se encontrar".

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  9. Eu sempre quis fazer uma oficina de criação literária, principalmente depois que eu simplesmente larguei a escrita. Eu tenho muito dessa coisa de escrever para outra pessoa, como uma forma tentar expressar com mais clareza o que eu sinto.

    http://laoliphant.com.br/

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  10. Eu gosto de escrever para outras pessoas. As vezes eu vejo alguma situação com outra pessoa e escrevo sobre isso rs. É tão gostoso. Libertador até.
    www.belapsicose.com

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  11. Oi, tudo bem?
    Realmente, a escrita é sempre para outrem, e tem o poder de afetar seu criador e aquele que faz as leituras. Infelizmente nem todos estão preparados para lidar com críticas, mas elas são importantes no processo de formação de escritores. E achei legal sabe rum pouco sobre a importância das oficinas de criação
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  12. Hey,

    Gostei muito da reflexão e não poderia ser mais verdadeira, ao meu ver. A escrita tem um poder enorme e não só para quem é leitor, o escritor muitas vezes coloca muito de si ali ou então busca muito de si própria ao escrever, então há uma importância enorme para as duas vias. As oficinas de criação colocam em evidência e ajudam e muito nesse processo.

    Beijos,
    Dois Dedos de Prosa

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  13. Olá que post lindo!!
    Escrever é maravilhoso sem sombra de dúvidas, eu adoro escrever, sempre que posso faço isso, mas o meu problema é a timidez, sempre me breco em algum momento e nunca mostro para ninguém as minhas escritas.

    beijos
    http://livrosetalgroup.blogspot.com.br

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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