A ficção é realidade




12 julho 2015


Por - Jorge Miguel Marinho*
“A vida é sonho”, considerava Calderón de La Barca, numa peça para teatro com o mesmo nome, anunciando uma espécie de alquimia simbólica que buscava instaurar a transmutação de fantasia em realidade e de realidade em fantasia. Muitos reconheceram nessa visão de mundo nuances significativas, intencionais ou não, do pensamento hindu, da mística persa e da filosofia budista. Os limites entre real e sonho se apagam e viver é percorrer o trajeto poético da ficção.
Jorge Luis Borges, que se achava mais leitor do que escritor, nos seus expressivos e singulares achados sobre leitura, insistia “que a realidade é ilusão e que a ficção é o real”.
Borges não parece estar jogando com palavras ou buscando imagens literárias quando afirma que viver é uma ilusão e que, vivendo, fazemos da ficção a realidade. Mais do que um alerta de natureza literária, trata-se de uma afirmativa de ordem filosófica que acabou por iluminar a estreita relação entre sonho e real, a ponto de o primeiro suplantar o segundo.

De algum modo e acreditando nos mistérios que regem os encontros de escritores, é bem possível que Fernando Pessoa tenha escutado, no silêncio do seu quarto solitário em Portugal, o eco das palavras de La Barca e Borges remetidas da Espanha e Argentina e tenha dado o retorno com dois versos que nasceram na Roma Antiga, passaram para as mãos dos navegadores portugueses e chegaram à voz de Caetano Veloso pela mensagem lúdica que eles contêm:
Navegar é preciso 
Viver não é preciso 
O que se faz “preciso” nesse aviso poético é que o sonho, a fantasia e a aventura vividos na arte de viajar nas águas dos mares e dos rios correm e escorrem sempre para as águas da imaginação.
De fato, a ficção é realidade, não apenas por fazer parte das nossas fantasias e sonhos, mas por estar muito presente na narrativa ou na história de vida de cada um de nós. Desse modo, a ficção literária é profundamente humanizadora porque ela só se interessa pela condição humana e pelo sentido da existência coletiva. A ficção nas mais diferentes formas de expressão artística, com especial destaque para a Literatura, sempre se pergunta “o que é a vida” e acorda as eternas perguntas que estão dentro de todos nós: “de onde vim?, para onde vou?, quem sou eu?, o que faço aqui?, quem são os outros?, qual é o sentido da existência?”.
Pela expressividade da arte literária, seu poder de representação, seus lances de inquietação, descoberta e revelação, não é exagero dizer que a ficção parece mais real do que a própria realidade.
Por tais razões, não é nada desejável, em todo o território brasileiro e no universo sem fim, dizer que uma realidade literária, vivida ou imaginada e por mais absurda que seja, “não é verdade, é mera ficção”. Chamadas desse tipo ainda fazem parte do repertório de leitura de muitas pessoas e especialmente dos alunos que, mal orientados ou lendo livros que não tocam as suas emoções, consideram a Literatura como um universo paralelo, distante e afastado da realidade de fato, poemas e narrativas totalmente sem vínculos com o real.


Muitos escritores escreveram, sem a preocupação de convencer os menos avisados, apenas como tributo à ficção presente na arte, frases iluminadoras que esclarecem e implodem este mal-entendido:
A literatura torna o mundo real, dando-lhe forma e permanência. – Fernando Pessoa.
O que há de mais real para mim são as ilusões que crio com a minha pintura. – Eugène Delacroix.

E eu, como leitor entusiasmado, não perco a oportunidade e a alegria de dizer:
Só me sinto real na ilusão literária.
Como a palavra contém na raiz o seu universo de significação, ficção – do latim fictionem/fingo/fingere – quer dizer tocar com a mão, modelar na argila, fazer. O poeta, portanto, é aquele que toca, que modela, que faz, que cria a realidade com o trabalho das mãos. Apenas para lembrar simbolicamente o ato da criação, é do barro que Deus extrai a matéria para dar forma e substância ao homem. Se essa narrativa é verdadeira ou não, tal juízo não tem lugar aqui – o que importa é que, sendo ficção ou realidade, o acontecimento de fato está no imaginário de todos nós.
E, por falar em fazer, façamos um pouco de ficção da vida e façamos um pouco mais de vida da ficção.

* Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor. Entre suas obras estão O menino e o fantasma do meninoUma história, mais outra e mais outra e Lis no peito, esta última premiada em 2006 com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Prêmio Jabuti de melhor livro juvenil e o White Ravens. Suas histórias são marcadas por uma atmosfera em que sonho e realidade se misturam no cotidiano das personagens.

19 comentários:

  1. Adorei o post e me identifiquei demais com ele, concordo em gênero, número e grau. Bjs

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  2. É engraçado, mas já aprendi muita coisa nos ditos "ilusões literárias". Tem livros que são tão bem escritos e desenvolvidos, que mesmo sabendo que não são obras reais, me pego depois da leitura fazendo pesquisas para ver o que de verdade tem no enredo, e acabo me surpreendendo. Acho isso muito positivo e me faz gostar ainda mais da leitura. Onde começa a ficção e termina a realidade? Para mim que estou lendo, vai depender para onde o autor que me levar.
    Bjs, Rose.

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  3. Oie, tudo bem!?
    Que texto bom pra pensar um pouco, não é?!
    No começo fiquei meio confusa, mas depois fui entendendo o que o autor queria passar e concordo com ele. Gostei muito sobre o que ele disse sobre a literatura e vira e mexe, me pergunto as mesmas coisas.
    Parabéns pelo texto!!
    Beijos

    LuMartinho | Face

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  4. A vida é sonho e os sonhos... sonhos são.

    De fato o ensino de literatura nas escolas é deprimente, os alunos são convidados a odiar a arte e se tornarem serem de mente vazia e consequentemente sem a mínima empatia :'(

    http://tedioescritor.blogspot.com.br/

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  5. Olaaa
    Seu post esta simplesmente sensacional e inspirador, muito legal e gostoso, liiindo textp.

    Beijos
    Reality of Books

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  6. Ficção pra mim sempre foi viver a vida que se quer viver. E por que essa vida imaginada tem que ser menos real? Embora ela não exista nos padrões do tempo e espaço, ela voa livre na nossa imaginação e é passível de mudança, uma ficção-metamorfose-ambulante.
    Que texto gostoso de se ler! "Só me sinto real na ilusão literária", nossa! Essa frase definiu minha vida de leitora.

    Até o próximo post
    Blog da Also

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  7. Oi, tudo bem?

    Achei o post incrível. Como escritora, penso muito na realidade versus ficção. As pessoas acreditam que, se é ficção, não precisa ter o mínimo de verossimilhança, por exemplo. Eu, ao contrário, me sinto muito irritada quando a ficção é inverossímil demais, pois não me convence. Gosto da realidade inserida nela. Li um texto semestre passado, que criticava os autores justamente nesse ponto: alegava que eles só "raspavam" na realidade, não a escreviam de fato. Acredito que, se não há realidade em uma história, dificilmente alguém se identificará com ela. Excelente post, sinceramente. Parabéns! Fico feliz pelo tema ser debatido aqui!

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  8. Olá!
    Adoro seus textos reflexivos. Naturalmente, me pego pensando em detalhes da literatura, mas nunca pensei nessa questão da ilusão.

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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  9. Olá, tudo bem?
    "Só me sinto real na ilusão literária". Só eu que achei que essa frase faz todo sentido do mundo? Acho que todos nós, leitores, já nos sentimos assim alguma vez, ao ler uma obra.
    Imagine que alguém proibisse você de ler. Você sairia da realidade. Dá pra entender?
    Amei o texto. <3

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  10. Adorei seu post, ele é simplesmente sensacional. Me encontrei no texto em vários momentos.
    Bjos...

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  11. Adorei o texto, refleti bastante e penso que também me sinto um pouco real na ilusão literária, e é tão bom isso, deixar-se levar pela ficção, fazer parte daquele mundo...
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  12. Oie, tudo bem? Gostei muito do texto, bem escrito. Essa mistura de ficção com realidade acaba fazendo parte do nosso dia a dia, ainda mais pra nós leitores assíduos, concorda? Quem nunca se imaginou desejando viver dentro de um livro? Ou que aquela história se tornasse realidade? Beijos, Érika

    *www.queroseralice.com.br*

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  13. Como Dumbledore disse, claro que está acontecendo na sua mente, mas isso não significa que não seja real.
    Nós nos perdemos na ficção, porque isso nos encanta e faz com que tenhamos sonhos de algo bom e melhor.
    A leitura estimula toda e qualquer pessoa que quer algo na vida, e esta reflexão mostra exatamente isso.
    Que podemos ter os dois mundos sem preconceito, mas aceitação de cada um.
    http://k-secretmagic.blogspot.com.br
    Xoxo

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  14. Boa tarde,

    Muito bom o texto, muito reflexivo, como diz a letra do U2: o fato é ficção e a tv realidade....abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  15. Belíssimo texto, suas postagens estão cada vez mais inspiradoras. Sempre bom passar por aqui.

    http://umreinomuitodistante.blogspot.com.br/

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  16. Esse texto é bem tocante, me fez refletir bastante e sem dúvidas é algo inspirador.
    Fiquei encantado com esse trecho:
    "O que se faz “preciso” nesse aviso poético é que o sonho, a fantasia e a aventura vividos na arte de viajar nas águas dos mares e dos rios correm e escorrem sempre para as águas da imaginação."

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  17. Legal mesmo o texto.
    Na verdade está contando o que nós leitores assíduos vivemos, as vezes é nossa fuga de uma realidade as vezes tão ilusória....

    Gostei Muito, Parabéns!

    Bjus

    http://devoreumlivroeoufilme.blogspot.com.br/

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  18. Achei.seu texto.muito bem escrito e desenvolvido, em relação a ilusão, eu sempre me pego imaginando história que sei que são ficcionais, porém sua realidade é tão expressiva que me pego a imaginando e pesquisando sobre tal. Bom, volto a dizer, seu texto está muito bem escrito! Parabéns!

    Abraços e até!

    http://lendoferozmente.blogspot.com.br/

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  19. O pior é que as coisas mais impactantes que lemos raramente são só ficção.
    Fiquei meio perdida no início, mas curti seu post. É ótimo para refletir.

    Beeeijinhos ;*
    Andressa - Mais que Livros

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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