O Berço da Palavra, por Marcio Cotrim




11 julho 2015


Você já parou para pensar na história das palavras ou termos que usamos diariamente? Como surgem? Qual o motivo? Toda a história que essas palavras carregam? 
Pensando nisso, o autor Marcio Cotrim fez um ótimo estudo para nos brindar com o berço das palavras. 

CAIR A FICHA

A expressão ainda é bastante popular, mas já não faz sentido, pela simples razão de que não se usa mais ficha para falar em telefone público. Agora é cartão. 

Vale a pena contar um pouco de história. Desde 1930, os telefones públicos funcionavam com moedas de 400 réis. Veio a inflação, e galopante, o que fez com que, a partir dos anos 70, o governo preferisse a utilização de fichas. Só com elas seria possível acionar os chamados orelhões, equipamento urbano que virou figurinha fácil nas cidades brasileiras, embora vândalos e cafajestes, sem motivo algum, destruíssem boa parte deles, verdadeira estupidez. 

Esse tipo de ficha só caía após ser completada a ligação, o que fez nascer a expressão cair a ficha, ou seja, o momento em que conseguimos entender alguma coisa. As fichas desapareceram em 1992 e deram lugar aos cartões, até hoje em vigor, mas a expressão continua sendo lugar comum em nosso quotidiano. 

DE MEIA-TIGELA

Na linguagem popular, é coisa de pouco valor. A origem da expressão nos leva aos tempos da monarquia portuguesa. Nela, as pessoas que prestavam serviço à Corte – camareiros, pajens, criados em geral – obedeciam a uma hierarquia, com obrigações maiores ou menores, dependendo do posto de cada um.

Alimentavam-se no próprio local de trabalho e recebiam quantidade de comida proporcional à importância do serviço prestado. Assim, alguns comiam em tigela inteira, outros em meia-tigela, critério definido pelo Livro da Cozinha del Rey e rigorosamente observado pelo funcionário do palácio conhecido como veador, o comprador ou dispenseiro, aquele que supervisionava as iguarias que chegavam à mesa real – na verdade, o grande fiscal da comilança palaciana.

Hoje, essa odiosa discriminação deixou de existir, mas ficou o sentido figurado da expressão, que continua designando coisas ou pessoas irrelevantes no seu meio social, agora razoavelmente alimentadas pelo vale-refeição, tão em moda entre nós . . .

DÓ RÉ MI

Fá, sol, lá, si, eis as notas musicais. Por assim dizer, os insumos básicos para a composição de qualquer melodia.

Seu berço nos leva ao monge beneditino Guido D’Arezzo, que viveu de 995 a 1050. Mestre do coro da catedral de Arezzo, na Itália, ele deu nome às primeiras seis notas. Para isso, utilizou as sílabas iniciais dos versos de um hino latino a São João Batista que dizia assim: “Ut queant laxis/ Resonare fibris/ Mira gestorum/ Famuli tuorum/ Solve polluti/ Labii reatum./ Sancte Iohnnes.” Em português: “Ó São João, purifica os nossos lábios maculados a fim de que possamos celebrar, plenamente, os teus feitos maravilhosos”.

A história desse hino é curiosa. Seu autor, o italiano Paolo Diacono, depois de pegar um bruto resfriado e ficar afônico, implorou a São João que lhe fizesse voltar a voz e o pedido virou hino! 

Os nomes das notas mantiveram sua forma primitiva até o século 17, quando foi acrescentada a sétima, si, pela junção das iniciais de Sancte Iohnnes. No século 18, a primeira mudou de ut para dó, mais sonora para ser cantada. 

Por falar em música, lembremos o grande Artur da Távola: “Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”. . .

FAZER BOCA-DE-SIRI

Vamos por partes, como diria o esquartejador. Boca vem do latim bucca e siri, esse crustáceo decápode, vem do tupi si’ri’, que significa correr, deslizar, andar para trás, segundo mestre Antenor Nascentes.

A expressão é empregada para designar aqueles que se mantêm discretos e reservados em relação a determinado assunto, que conseguem guardar segredo. Gente conhecida como moita. 

Mas por que se diz que essa pessoa tão prudente faz boca-de-siri? É porque a boca do bicho dificilmente se abre, ele fica no mocó. Só não resiste ao puçá, a rede em formato cônico que o captura. Depois, vira saborosa iguaria e ninguém mais percebe, no prato, onde foi parar sua boca fechada...

OS DIAS DA SEMANA

No Império Romano septimana era a semana, ou seja, as sete manhãs, de origem babilônica. Os nomes dos dias aludiam aos deuses e a corpos celestes. O dia do Sol, dies Solis, o dia de Saturno, dies Saturni e os demais dedicados à Lua, dies Lunae, (segunda), a Marte, dies Martis, (terça), a Mercúrio, dies Mercurii, (quarta), a Júpiter, dies Iovis, (quinta) e a Vênus, dies Veneris, (sexta).

Com o tempo, a Igreja baniu os nomes pagãos dos dias, e oficializou as feiras. O domingo passou a ser dedicado a Deus, o dies Dominicus, dia do Senhor, e o sábado manteve o nome de sabbatum, derivado do hebraico shabbath, descanso, último dia da semana, consagrado pelo Velho Testamento. Mas por que as feiras, de segunda a sexta? É que nesses dias, no adro das igrejas, os agricultores medievais realizavam suas feiras e fechavam negócios.

O idioma português acompanhou o latim. Domingo é o primeiro dia da semana, segunda-feira o segundo, e assim por diante, até a sexta-feira.

Deuses, planetas e outros corpos celestes permaneceram designando os dias da semana em outros idiomas. Em inglês, domingo é o dia do Sol, Sunday, (sun, Sol) segunda é o da Lua, Monday (moon, Lua), mas os demais se originam da mitologia nórdica: a terça, Tuesday, day of Tiu, o dia de Tiu, deus da guerra; a quarta, Wednesday, day of Woden, dia de Woden, ou Odin, o deus correspondente a Mercúrio; a quinta, Thursday, day of Thor, o deus do trovão; e sexta, Friday, day of Frigg, a esposa de Woden.

Em francês e espanhol temos, respectivamente: a segunda, lundi e lunes, relativa à Lua; a terça, mardi e martes, relativa a Marte; a quarta, mercredi e miércoles, relativa a Mercúrio; a quinta, jeudi e jueves, relativa a Júpiter; e a sexta, vendredi e viernes, relativa a Vênus. 

Isso, sem falar na nomenclatura dos dias e dos meses instituída pela Revolução Francesa, de que falaremos proximamente. Seja como for, homenageando o firmamento, as divindades, os agricultores ou as forças da Natureza, enquanto o mundo gira e os homens se engalfinham, o Sol continua criando vida e a Lua inspirando o amor . . .

RISO AMARELO

É o sorriso forçado, meio sem jeito, constrangido. O sentido da expressão tem, evidentemente, a ver com a origem da cor amarela, que vem do latim amarus, amargo, acre, difícil, com derivação para o hispânico amarellu, pálido. Em tempos idos e vividos, o vocábulo se aplicava aos doentes de icterícia, que ficam amarelos devido a alterações na bílis, secreção amarga produzida pelo fígado.

Mas o amarelo também simboliza coisas muito boas, a partir de sua afinidade cromática com o próprio Sol, fonte de vida. Antigamente, representava a cor atribuída aos deuses e ao poder dos reis, príncipes e imperadores, então considerados de origem divina. Em certas pinturas medievais, é a tonalidade de fundo para simbolizar a santidade dos retratados.

Segundo Goethe, “o amarelo é uma cor alegre, graciosa e terna”. Acrescentava, porém: “mas a mais leve mistura desvirtua-a e a torna desagradável”.

Quem exibe um riso amarelo nem de longe está pensando nesses aspectos históricos positivos, e muito menos pode ser considerado doente de icterícia. Quase sempre só abre a boca num meio sorriso por questão de educação porque no fundo, no fundo, está é pensando em chupar a carótida de seu interlocutor . . .

TEMPO DO RONCA

A expressão correta é do tempo do onça, não conheço registro para esse ronca. E quem era o onça? Era o governador da cidade do Rio de Janeiro Luís Vahia Monteiro, militar português que lá chegou em 1725. Muito ranzinza e severíssimo, ganhou esse apelido de onça do povão, que o odiava. Destituído do cargo 7 anos depois, sumiu das terras cariocas deixando um rastro de profunda antipatia e a lembrança de um tempo ruim, o tempo do onça . . .

COLOCAR NO PREGO

A origem dessa expressão vem do fato de que nas antigas casas comerciais – tabernas, empórios, farmácias – existia um prego onde o comerciante espetava as contas de quem pedia para pagar depois. Quando o freguês retornava para quitar a dívida, o dono tirava os papéis do prego, somava os valores e cobrava. Quer dizer: colocar no prego é colocar no prego mesmo.

O famoso pindura, comprar fiado, pagar depois. Ainda hoje alguns comerciantes, que não gostam disso, exibem um cartaz bem visível que avisa: “Fiado só amanhã”. 

Pendurar a conta é um costume dos alunos de Direito, que o praticam em algum restaurante sempre no dia 11 de agosto, sabe por quê? Porque foi no dia 11 de agosto de 1827 que D. Pedro I instituiu os primeiros cursos de Direito no Brasil – em Olinda, e em São Paulo, no Largo de São Francisco. Os estudantes eram endinheirados, tipo “mauricinhos”, e os donos de restaurantes, talvez para bajulá-los, não lhes cobravam as refeições. 

O hábito virou rotina e algumas tradições devem ser respeitadas nesse dia, como o discurso feito por um dos estudantes declarando o pindura. Além disso, eles só pagam 10% da conta, a gorjeta do garçom – motivo pelo qual, fique sabendo, 11 de agosto é o Dia do Garçom!


'Márcio Cotrim "brinca" com as palavras, fazendo fluir seu texto numa leitura leve e saborosa. Outras expressões do Berço da Palavra você pode encontrar nos livros "O Pulo do Gato" e "O Pulo do Gato 2". '

16 comentários:

  1. Bom, eu estudei um pouco da origem das palavras na faculdade e linguisticamente era bem chato.
    Mas da maneira que o Márcio Cotrim mostra é bem mais interessante e divertida de se aprender.
    Adorei a ideia do livro e já quero ler.

    Lisossomos

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    1. Né? Tudo depende da abordagem. Adorei a maneira como o autor trouxe algo significativo, mas que por vezes, poder massante.

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  2. Nossa e pensar que há historia atrás de palavras ou frases que usamos como sentido figurado ou coisa assim....kkkkk

    Gostei!!!

    Parabéns pelo Post.

    Bjus
    http://devoreumlivroeoufilme.blogspot.com.br/

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  3. Que tema interessante, gostei do modo de Márcio Cotrim, faz algo chato ficar divertido rs
    Não o conhecia ainda, mais irei procurar saber mais sobre ele e seus livros!
    Beijos ^^
    Cantinho da Bruna

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  4. poxa, alguns aí eu não fazia ideia do significado, embora use em meu vocabulário vezemquando... Amei esse post, e tbm não faço ideia de onde saiu o ''ronca' hahaahah

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  5. Então falamos errado quando falamos Tempo do ronca? kkkk Minha mãe vive falando isso.
    Os dias da semana eu já sabia, na escola aprendi com meu professor de Português e nunca mais esqueci :D
    Amei o post, é muito bom saber de onde veio essas palavras que falamos sem saber de fato sua origem.
    Bjs

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  6. Olá
    em primeiro lugar quero dizer que o post ficou muito bom, esse cara tem um poder de escrita interativa muito bom, espero ver mais textos dele, kk, adorie de mais
    Bjks
    Passa Lá - http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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  7. Que resenha top, muito boa mesmo. Muito curioso o post parabéns <3

    ATÉ <3
    Victor do Blog Gatos e Vagalumes
    GatosEVagalumes.blogspot.com

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  8. Muito interessante esse estudo do autor. Adorei saber a história dessas palavras, expressões e hábitos, muito bom! E seu post ficou ótimo, adoro esse estilo mais informativo.
    Beijos

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  9. Oie, tudo bom?!
    Eu não conhecia o Tempo de Ronca, pra mim sempre foi do tempo da onça '-' E gostei muito de conhecer de onde vem essa frase!
    Sou do tempo do telefone com ficha, então sempre fez sentido pra mim (entregando minha idade). Os dias da semana eu tinha uma vaga lembrança, mas não conhecia tão detalhadamente assim!
    Adorei o post, muito legal aprender essas coisas!
    BEijos

    LuMartinho | Face

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  10. eu achei a postagem muito interessante. ainda mais pq as vezes nós falamos as coisas e nem sabemos de onde vem de fato.
    achei muito legal a história dos dias da semana.
    Seguindo o Coelho Branco

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  11. Olá!
    Adorei esse estudo, eu sempre falei tempo do ronca, não sabia dessa onça aí hahaha
    Achei bem legal o post, e o estudo é bem criativo!
    Legal a história com os dias da semana também!
    Beijão!

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  12. Eu nunca parei para pensar na origem das palavras. Já andei pesquisando algumas coisas na internet quando tenho curiosidade, mas realmente nunca dei muito foco pra isso. Achei bem interessante esse estudo.

    http://laoliphant.com.br/

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  13. Olaaa
    Eu aprendi um pouco e acho muito interessante apesar de complexo e cansativo, muito legal de saber.

    Beijo
    Reality of Vooks

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  14. Boa tarde,

    Muito legal esse post, gosto demais de saber a origem das palavras, muitas eu não sabia e acho super interessante saber algumas, ótimo post....abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  15. Achei muito interessante esse post! Nunca pesquisei sobre a origem das palavras e nem de expressões! Gostei bastante como o autor explicou essas origens! :)

    Abraços e até!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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