Resenha - O Sol é Para Todos




03 agosto 2015


A nova edição de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana moderna. Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça.

Olá, leitores:
O Sol é Para Todos, de Happer Lee, 364 páginas, Editora Record, é um romance que narra a historia de uma tradicional família Sul Americana.  Eles viviam na pacata cidade de Maycomb em uma casa construída as margens do rio Alabama. Mais especificamente, o livro fala do cotidiano de um ramo dessa família, Atticus Finck, 50 anos, viúvo e pai de dois filhos. Atticus é advogado e conta com a ajuda da reta senhora Calpúrnia, uma mulher negra que cuida de sua casa e cumpre o papel de mãe das crianças.


Scout com idade próxima de sete anos e Jem em torno de 11 anos. Apesar de serem educadas sobre rígidos princípios de ética e valores vigentes na sociedade local, as crianças tinham liberdade para brincar e se aventurar vivendo a infância de forma bastante tranquila e saudável.  Subiam em árvores, encenavam peças de teatro com base nas historias lidas em livros ou, simplesmente, inventavam suas histórias, usando fatos locais, conforme entendiam com o olhar infantil e curioso delas.
Uma das primeiras coisas que me chamou atenção nessa narrativa, foi quando no primeiro parágrafo do segundo capitulo, me deparei com a seguinte frase; “ [...] fiquei péssima sem ele até que me lembrei que as aulas começariam em uma semana”.  Somente nesse ponto, notei que Scout, nossa narradora, era uma menina; visto eu não ter lido sinopse e a forma como o pai criava os filhos sem privilégios de gênero não me deu nenhuma pista desse detalhe. Retomei à leitura e confirmei que nada antes disso, na escrita da autora deixava transparecer que Scout era uma menina. As crianças tinham direitos iguais, vestiam-se como queriam, comandavam as brincadeiras, selavam acordos com apertos de mãos e cusparadas, o que deixavam as damas de cabelos em pé enquanto afirmavam categoricamente que Atticus Flinck estava estragando a filha, criando-a feito a um moleque selvagem.
Todas pequenas tramas que a autora apresenta, no cotidiano da pequena dupla de irmãos, são oportunas e congruentes com a construção da problemática central, que a autora pretende alavancar na parte dois do livro. Enquanto na parte um do livro as aventuras das crianças ocupam o plano central da história como suas dúvidas, anseios e desafios a serem enfrentados. Também as relações das crianças com seus pares, com os adultos da família e de fora dela e a convivência escolar, tudo se tornando uma descoberta diária.
Na segunda parte, estando os personagens e o leitor contextualizados naquele universo tão peculiar, a narrativa então se foca de fato na questão do racismo e preconceito em si, quando o senhor Atticus Finck resolve ir contra a opinião da maioria dos moradores da cidade e atua enquanto advogado de defesa de um jovem negro acusado de estuprar uma jovem mulher branca.
Ora, se pensarmos que esse romance retrata uma sociedade do início do século XX, década de 30, e essas pessoas eram frutos de uma região onde a resistência aos direitos civis dos negros norte-americanos foi muito maior que em outras partes do pais; podemos avaliar o peso descomunal da obra para toda a sociedade e entender o motivo de o livro até hoje ser aclamado pela critica e estudiosos do meio literário.
A autora trabalha o tempo inteiro mostrando ao leitor diferenças entre o que é nato e o que é socialmente construído como tabus, preconceitos, relações de gênero, estruturas familiar e social. Happer Lee marca diferenças, mostra singularidades, desconstrói estereótipos, porém, ao mesmo tempo, não consegue sair de outros rótulos e estigmas.  Talvez pela época em que foi escrita a obra ou quem sabe propositalmente a autora se deixa cair em algumas armadilhas ao tratar de racismo e preconceito racial.
Tendo dito isso, apontarei alguns destes, porém, a meu ver, torna-se a maior, única e imperdoável falha da obra.  Simplesmente as personagens que estão a margem da sociedade não têm voz no livro, elas se colocam quando indagadas pelas autoridades, patrões, vizinhos, donos de boteco, quitandeiro.... BRANCOS.  Esse não é um livro que fala dos negros é um livro que fala sobre e pelos negros.  



A obra apresenta de maneira ampla três tipos de pessoas brancos, o atrasado e preconceituoso que trata a pessoa negra como inferior a ela pelo simples fato de ser negra incutindo a ela todo tipo de erro e falha tratando os desiguais com hipocrisia, os brancos bons que compreendem que todos os homens e mulheres são supostamente iguais perante “a lei de Deus e dos homens”, podendo errar ou acertar como todo e qualquer ser humano e o branco marginal, pobre, desempregado, escoria social que mesmo sendo desprezados pelos outros cidadãos ainda eram considerados em uma escala superior ao negro.
Em momento algum, no livro, vi o povo negro representado e eu considero impossível discutir algo que aflige diretamente a alguém sem convidar a este alguém para que se expresse sendo assim oque vi, volto a firmar: foi impressões de pessoas brancas sobre o que pensariam ou gostariam as pessoas negras.  Um advogado branco se levanta para defender um acusado negro, que no desenrolar da historia mesmo sendo o pivô da trama não obteve destaque, não aprumou os ombros, não ergueu a vista e mal abriu a boca.
Sobre esta obra de Happer Lee no site da Livraria Saraiva encontramos o seguinte:

 “O sol é para todos, com seu texto forte, melodramático, sutil, cômico (The New Yorker) se tornou um clássico para todas as idades e gerações. Com nova tradução e projeto gráfico, este clássico moderno volta à cena, justamente quando a autora lança uma continuação dele, causando euforia no mercado. Desde o anúncio de sua sequência, O sol é para todos é um dos livros mais buscados e acessados no site do Grupo Editorial Record.  Já vendeu mais de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos e, no último ano, ganhou a recomendação do presidente Barack Obama, que proferiu o seguinte elogio: “Este é o melhor livro contra todas as formas de racismo”. Vencedor do Prêmio Pulitzer. Escolhido pelo Library Journal o melhor romance do século XX. Eleito pelos leitores de Modern Library um dos 100 melhores romances em língua inglesa. Filme homônimo venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado”.


Sem mais... Abraços Poéticos,


15 comentários:

  1. Já escutei falar bastante desse livro e nunca me deu vontade de ler e isso que curto esse tipo de gênero! Hoje em dia os autores estão sabendo muito bem falar dos preconceitos e deixando uma mensagem no ar.

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  2. Olá!
    Vejo tantos bons comentários sobre esse livro que me sinto na obrigação de tirar um tempo para fazer essa leitura.
    Acho essa temática importante e com toda certeza pretendo ler esse livro.
    Sua resenha tá fantástica!
    Beijos!

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  3. Que belíssima resenha! Não sabia que a autora não dava pistas sobre o gênero da personagem (rs). Interessante que até mesmo isso foi analisado por você segundo o contexto da época e o modo como o pai educava os filhos. Eu gostei muito da crítica social presente na obra e, claro, pretendo investir nessa leitura – e nessa edição maravilhosa!

    Beijos, flor!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  4. Ai, esse livro = ♥
    Esse livro é maravilhoso! Creio que deveria ser leitura obrigatória para todos porque, olha, que livro, gente, que livro!

    E essa nova edição, então? MELDELS, ESTOU APAIXONADA, hahahaha

    Beijo! ;*

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  5. Olá! Que bela resenha temos aqui! Não conhecia a obra e pela sinopse já me instigou. Livros que abordam temas da sociedade em muito me interessam. Principalmente aqueles que fazem criticas sociais. Parabéns pela resenha ;)

    Academia Literária-DF

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  6. Olá
    eu adorie saber que o livro ia ganhar uma nova edição, e depois que vi a nova caap eu me apaixonei de mais, ainda não tenho essa edição, mas eu já providenciei o meu, que ainda não chegou, o livro é maravilhoso
    Bjks
    Passa Lá - http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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  7. Oii, eu vi MUITA gente falando sobre esse livro e nunca tinha lido nenhuma resenha sobre ele, agora que eu li quero esse livro pra ontem haha.

    Abraços!
    Oii, dos lançamentos eu só me interessei por Distopia.

    Bjs
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  8. Oii, eu vi MUITA gente falar desse livro só que eu nunca tinha lido nada sobre ele, agora que eu li me interessei muito!!!

    Bjs!
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  9. Oie!!
    Já vi e ouvi falarem muito desse livro mas, está ai um que nunca tive vontade de ler.
    E apesar da sua resenha ter sido positiva e bastante explicativa ainda não despertou em mim curiosidade sobre a história.
    :**

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  10. Oi Ruth, tudo bem?
    Este livro tem uma premissa maravilhosa, mas confesso que não estou no momento certo para lê-lo.
    Bjs

    A. Libri

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  11. Essa capa ficou incrível, amo esse tom de laranja <3
    Já tinha ouvido falar demais desse livro e dos personagens inesquecíveis, mas ainda não tinha lido nenhuma resenha, e agora que pude fazer isso, simplesmente adorei e fiquei ainda mais curiosa para conferir essa história, principalmente por você ter citado que o livro não fala dos negros e sim, sobre e pelos negros. Fantástico!
    Bjs Ruty!

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  12. Ruth, no início eu não tinha muita curiosidade em ler esse livro, nem sei porque, mas agora tenho muita curiosidade.
    Achei a premissa muito interessante e concordei com o seu ponto de vista sobre a maior falha do livro.

    Lisossomos

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  13. Olá, sabe que sou louca para ler esse livro, até hoje não vi ninguém falar que não tenha gostado da obra, e a premissa dela chama muito minha atenção. Espero ter a oportunidade de ler um dia desses!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  14. Oi!
    Já vi varias pessoas falarem sobre esse livro e sempre tive muito curiosidade para ler mas acabou que não tive oportunidade de ler mas essa e uma leitura que esta na minha lista para começar esse ano !!!

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  15. Oiii Ruht, nunca tinha realmente parado pra pensar no que este livro realmente deve transmitir. Quando você apontou que ele é um livro que fala sobre e pelos negros, fiquei mais decidida a ler esse livro. Deve ser interessantíssimo, já que livros que tem esse embasamento, se posso dizer assim, geralmente trazem um enredo e uma história incrível.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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