“Literaturas Da Guiné-Bissau, Cantando Os Escritos Da História”




05 setembro 2015


Literaturas da Guiné-Bissau, cantando os escritos da história tem como organizadores Margarida Calafate Ribeiro e Odete Costa Semedo (Edições Afrontamento, 2011). Apresenta-se como um contributo para leituras de obras de autores guineenses que seguem as mais diversas direcções e dicções, temos aqui uma paleta de escritores que questionam a invenção/ existência da nação guineense e problematizam a fala dessa identidade, isto para já não referir um excurso literário que nasceu a evocar a épica da libertação e hoje esconjura os políticos tiranetes e os caminhos insidiosos do neocolonialismo.

 A estrutura da obra garante a apreensão do transcurso político-cultural da literatura guineense: o peso das lacunas sobre o passado anterior à chegada dos portugueses; a abundante literatura de viagens desses portugueses que se confinaram às posições mercantis na costa; a emergência de uma literatura colonial onde veio desembocar a poesia exaltadora da libertação em que se distinguiram Amílcar Cabral e Vasco Cabral. A partir daí desenvolve-se a literatura pré independência e, a partir de 1974, assistimos a dois ciclos distintos: a glorificação do país livre e o profundo desencanto devido à inconsistência do Estado-Nação, que parece arrastar-se à beira do abismo.
Após dois ensaios introdutórios que dão a panorâmica deste conjunto de tensões que de algum modo facilitam a compreensão como a literatura da Guiné-Bissau é um dos mais ilustres desconhecidos da lusofonia, vemos como há sinais da extrema vivacidade desta literatura confrontada com a sua língua de expressão: como é que o português, a língua dos colonialistas, pode exprimir as expectativas de um povo livre, genuinamente africano e possuído de um mosaico étnico e linguístico tão singular? A resposta que as novas gerações dão é o uso descomplexado do crioulo dentro do português, fazendo um casamento perfeito entre as temáticas sociais e as líricas e sempre num respeito tocante pela oralidade dos valores culturais multifacetados. Uma estudiosa dá mesmo conta, com base no exemplo do fogo, como este elemento natural sempre constante no passado histórico, nas fábulas da tradição oral guineense continuam a ter um papel central na literatura da Guiné independente.
Um acontecimento com um peso transcendente como foi o conflito político-militar de 1998-1999 afetou profundamente, pelo sofrimento provocado, o evoluir estético, sobretudo no romance, na poesia e no teatro, impuseram-se nomes como os de Odete Costa Semedo e
Abdulai Silá. Em 2010, surgiu uma publicação que mostra o revigoramento da escrita guineense Traços no tempo, uma antologia poética com a participação de 23 poetas e onde abundam as temáticas de uma juventude marcada pela dor de um país desencontrado, desenraizado, forçado à imigração e à perda de indicadores de desenvolvimento humano.
Abdulai Silá é um romancista considerado como profundamente original e responsável por uma trilogia romanesca que abraça o período colonial, a libertação e o período de sucessivas tomadas do poder, o autor ainda não perdeu o sentido da utopia nesta Guiné-Bissau em derrisão. Abdulai Silá usa com enorme talento o pensamento de Amílcar Cabral e o seu legado, procede a um tratamento por vezes brutal dos códigos do período colonial, imisquindo representações da violência colonial com imagens do animismo e da feitiçaria. Mais adiante, e face aos múltiplos fracassos vividos depois da independência, o romancista não para de criticar as novas classes dirigentes e as instâncias neocoloniais, suspende-se, em amargura, na falta de sentido de identidade em que se afundou o país. Na mesma linha de orientação, podemos considerar a expressão crítica de Carlos Lopes, hoje subsecretário-geral das Nações Unidas, as organizadoras escolheram um texto que capta exemplarmente o cansaço em que se fala da sordidez da política, a chamada roupa suja que faz crescer a indiferença das populações que engrossam o partido dos surdos: “Eu já não posso mais. Esta família passa a vida a discutir heranças, falam da casa e bens com tal paixão e ódio que nem parecem irmãos do mesmo sangue. São capazes de discutir penicos, travessas, almofadas e qualquer dia até os restos do frigorífico, como se as suas vidas dependessem completamente destes bens deixados (…) digam-me só meus caros como é que julgam esta família? Acham um exagero eu estar a dizer que sinto vergonha que ninguém respeita a memória daqueles que lutaram para que fossemos gente? (…) Não se pode aceitar que quase 10 anos depois de os pobres estarem debaixo da terra ainda se revolva mais do que o estrume das suas vidas: o pai devia ter feito isto… a mãe devia ter feito aquilo… se eles tivessem dividido tudo não era preciso esta confusão… Mas falando disso se calhar a questão não é a divisão, porque eles, verdade seja dita, não fizeram mais do que pensar no presente sem nunca imaginar que não nos íamos entender à volta dos bocados deixados”.
Diferentes estudos pronunciam-se pelos elementos literários de tratamento inovador no contexto africano: o fogo, metáfora da destruição, mas também do entusiasmo, e a elevada plasticidade em que o crioulo reaviva o português, emprestando-lhe uma nova dimensão, temos, por fim, a carta aberta de uma bidera abstencionista aos que querem mandar na Guiné, da autoria de Fafali Koudawo, reitor da primeira universidade guineense, investigador emérito. Depois de se apresentar como bidera de peixe, propõe-se dizer algumas verdades aos dois candidatos presidenciais, quer falar em nome dos filhos, antes que seja tarde demais e diz desabridamente: “Neste momento, a maioria das pessoas que falam conosco dizem que o país vai de mal a pior. Eles pensam que os políticos não dizem a verdade e não pensam no povo. Eu penso como eles. Pois, vivo o retrocesso do país diariamente. Por exemplo, quando comecei a escola em Bor, havia salas de aulas e mesmo uma residência para alguns professores. Agora, a maior parte da escola está feita de kirintin. É a maior escola de barracas da capital, a poucos quilómetros do centro da cidade (...) Como posso ir votar se ninguém me convence que vai realmente mudar a minha vida e dar esperança aos meus filhos? Em 2000, eu votei em Koumba Yalá porque acreditava que, finda a guerra, o país iria ter uma alternativa. Em 2004, eu escolhi Cadogo porque eu tinha visto o descalabro que levou as pessoas a não receberem os seus ordenados durante quase um ano, em 2002-2003. Em 2005, votei em Nino Vieira porque ele representava a autoridade que devia acabar com o deslize para a anarquia. Em 2008, votei no PRID, cujos candidatos nos disseram que iriam ajudar Nino a reconstruir o país. Hoje, tenho muitas dúvidas sobre a seriedade da fala dos políticos. Hoje, estou com medo porque a violência é a linguagem que mais se ouve no país”.
Para quem pretende aprofundar conhecimentos sobre o que se passa com a literatura da Guiné-Bissau, não há que hesitar, este livro é abrangente sobre as formas de inovação e o sofrimento que atravessa todo o discurso literário guineense.
 - Olinda Beja (2011, 30 Novembro), “Literaturas da Guiné-Bissau: Uma grande surpresa da lusofonia”.


Olinda Beja nasceu em Guadalupe, S. Tomé e Príncipe, em 1946. Criança ainda deixou as ilhas e passou a viver do outro lado do mar, em terras frias da Beira Alta. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos de Português-Francês, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui o Diploma Superior de Hautes Études da Alliance Française. Para além de escritora, Olinda Beja é professora do ensino secundário, bolseira do Centro Nacional de Cultura, Comendadora dos Países Irmãos Brasil-S.Tomé e Príncipe; contadora de estórias, dinamizadora cultural. Atualmente é professora de Língua e Cultura Portuguesa em Lausanne (Suiça) onde reside.

1 comentários:

  1. olha, confesso que olhando assim de cara, não daria muita coisa pelo livro, mas pelo jeito ele traz um conteúdo riquíssimo... fiquei bem interessada em fazer a leitura dele, Lili ^^

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