escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de
vertigem
que me enche o coração de ausência
pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me
lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e
me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para
responder e desligar
depois caminhei como uma fera
enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e
não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer.
(Al Berto, 1948 - 1997,
pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, foi um poeta português.)

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