segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Acho que não sei escrever poemas / de Vera L. A.

 



Nunca soube escrever poemas.

Versos me escapam, rimas me constrangem, metáforas às vezes me pedem licença demais.

Mas a poesia, essa danada, não se incomoda com minhas limitações.

Ela entra sem bater.

Às vezes vem em forma de envelope: um exame médico com resultado melhor do que o esperado. Abro devagar, como quem abre um presente que tem medo de quebrar. O coração desacelera. A alma respira. Aquilo, descubro depois, era poesia.

Outras vezes chega correndo pela casa, rindo alto. Tem a voz dos meus netos, o tropeço da brincadeira, o riso que escapa sem pedir permissão. Não rima, não mede sílabas, mas me lava por dentro como água benta.

Há dias em que a poesia aparece na tela do celular. Alguém escreveu: “Li o seu texto. Gostei demais.”

E pronto. Fico com os olhos marejados, como se tivesse sido abraçada à distância.

Talvez eu não escreva poemas.

Mas reconheço poesia quando ela me toca.

E isso, suspeito, já é uma forma de escrevê-la.

 

Sobre a autora:

Vera L. A. está aposentada há oito anos. Tentou crochê, como as vovós de antigamente, mas logo percebeu que não nasceu para contar pontos — prefere contar histórias. Aos 72 anos, é escritora iniciante por escolha e convicção, e gosta de escrever histórias “de verdade”, daquelas que nascem da vida e voltam para o coração.

@veraluciadeathayde


Um comentário:

  1. Que lindo, me vi neste conto. A poesia mora nos detalhes mesmo.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

Instagram: @poesianaalmabr