Acho que não sei escrever poemas / de Vera L. A.
Nunca
soube escrever poemas.
Versos
me escapam, rimas me constrangem, metáforas às vezes me pedem licença demais.
Mas
a poesia, essa danada, não se incomoda com minhas limitações.
Ela
entra sem bater.
Às
vezes vem em forma de envelope: um exame médico com resultado melhor do que o
esperado. Abro devagar, como quem abre um presente que tem medo de quebrar. O
coração desacelera. A alma respira. Aquilo, descubro depois, era poesia.
Outras
vezes chega correndo pela casa, rindo alto. Tem a voz dos meus netos, o tropeço
da brincadeira, o riso que escapa sem pedir permissão. Não rima, não mede
sílabas, mas me lava por dentro como água benta.
Há
dias em que a poesia aparece na tela do celular. Alguém escreveu: “Li o seu
texto. Gostei demais.”
E
pronto. Fico com os olhos marejados, como se tivesse sido abraçada à distância.
Talvez
eu não escreva poemas.
Mas
reconheço poesia quando ela me toca.
E
isso, suspeito, já é uma forma de escrevê-la.
Sobre a autora:
Vera L. A. está aposentada há oito anos. Tentou crochê, como as vovós de antigamente, mas logo percebeu que não nasceu para contar pontos — prefere contar histórias. Aos 72 anos, é escritora iniciante por escolha e convicção, e gosta de escrever histórias “de verdade”, daquelas que nascem da vida e voltam para o coração.
@veraluciadeathayde



Que lindo, me vi neste conto. A poesia mora nos detalhes mesmo.
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