segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Ainda não cheguei onde queria / por S. G. Ramos

 


I. amor

numa conversa com amigos

alguns já altos

outros cansados

falamos sobre amor

 

uns disseram que aprisiona

o apaixonado disse que liberta

o mais radical disse que não existe

que é coisa de gente besta

 

não tinha um poeta por ali,

com exceção de mim,

que logo pensei nas rimas

flor, cor, dor

 

então me calei

pois percebi que na roda de quem fala

poeta sou eu

solitário

a conversar comigo

a ajuntar as palavras

 

noutro dia mudei de grupo

dos poetas anônimos

e falamos de dor

que da vida tira a cor

e que quem cura

é o amor

 

II. 23

ainda não cheguei onde queria

mas, olhando agora,

acho que cheguei longe, até

tanto tempo se passou

desde a última vez em que pensei

que seria a última vez

 

ainda bem que não desisti

 

tanta coisa aconteceu

tantos pores solares incríveis

luas nasceres

estrelas brilhares

tantos sorrisos sorrires

 

se tudo fosse realmente excelente

não haveria dia mal pra recordar

as pequenas coisas boas

que fazem ronronar

 

ainda bem que não desisti

 

tem tanta coisa pra ver, ainda

porque o mundo é redondo

cada banda é uma surpresa

e em algum lugar tudo é festa

 

acho que entendi que ainda há muito

que se fazer agora, por hora

não dá pra parar, mesmo

 

porque eu já cheguei longe, até

não lembro o caminho de volta

e não sei onde esse caminho bifurca

mas quero saber, enfim

no que tudo isso vai dar

 

ainda

bem

que

não

desisti

(quando quis, quando pude)

 

ainda bem

é um novo dia, afinal

 

III. salto

eu dei voz ao diabo

fiz com que fosse escutado

 

me disse que eu podia pular

daquele alto lugar

que alguém, santos e anjos,

viria me salvar

e me por a flutuar

como uma pena a voar

 

me lancei com tudo do abismo

e caí no fundo do poço sem aviso

me esborrachei como um pássaro na janela

que vem com pressa, achando que está aberta

 

ora,

o diabo mente sempre

e criei que dessa vez seria diferente

 

mas não foi

e eu morri

sem que ele pusesse

as mãos em mim

 

Sobre a autora:

S. G. Ramos é vítima da poesia e das palavras desde que se entende por gente. Fascinada por linguagem, formou-se em Letras – Inglês e atualmente cursa Letras – Português. Escreve poesia sobre os dias fáceis e os impossíveis de sobreviver. Publicou um livro e, vez ou outra, se arrisca como contista ou romancista.

@fugaespacial

 


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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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