I. amor
numa conversa com amigos
alguns já altos
outros cansados
falamos sobre amor
uns disseram que
aprisiona
o apaixonado disse que
liberta
o mais radical disse que
não existe
que é coisa de gente
besta
não tinha um poeta por
ali,
com exceção de mim,
que logo pensei nas rimas
flor, cor, dor
então me calei
pois percebi que na roda
de quem fala
poeta sou eu
solitário
a conversar comigo
a ajuntar as palavras
noutro dia mudei de grupo
dos poetas anônimos
e falamos de dor
que da vida tira a cor
e que quem cura
é o amor
II. 23
ainda não cheguei onde
queria
mas, olhando agora,
acho que cheguei longe,
até
tanto tempo se passou
desde a última vez em que
pensei
que seria a última vez
ainda bem que não desisti
tanta coisa aconteceu
tantos pores solares
incríveis
luas nasceres
estrelas brilhares
tantos sorrisos sorrires
se tudo fosse realmente
excelente
não haveria dia mal pra
recordar
as pequenas coisas boas
que fazem ronronar
ainda bem que não desisti
tem tanta coisa pra ver,
ainda
porque o mundo é redondo
cada banda é uma surpresa
e em algum lugar tudo é
festa
acho que entendi que
ainda há muito
que se fazer agora, por
hora
não dá pra parar, mesmo
porque eu já cheguei
longe, até
não lembro o caminho de
volta
e não sei onde esse
caminho bifurca
mas quero saber, enfim
no que tudo isso vai dar
ainda
bem
que
não
desisti
(quando quis, quando
pude)
ainda bem
é um novo dia, afinal
III. salto
eu dei voz ao diabo
fiz com que fosse
escutado
me disse que eu podia
pular
daquele alto lugar
que alguém, santos e
anjos,
viria me salvar
e me por a flutuar
como uma pena a voar
me lancei com tudo do
abismo
e caí no fundo do poço
sem aviso
me esborrachei como um
pássaro na janela
que vem com pressa,
achando que está aberta
ora,
o diabo mente sempre
e criei que dessa vez seria
diferente
mas não foi
e eu morri
sem que ele pusesse
as mãos em mim
Sobre a autora:
S.
G. Ramos é vítima da poesia e das palavras desde que se
entende por gente. Fascinada por linguagem, formou-se em Letras – Inglês e
atualmente cursa Letras – Português. Escreve poesia sobre os dias fáceis e os
impossíveis de sobreviver. Publicou um livro e, vez ou outra, se arrisca como
contista ou romancista.
@fugaespacial

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.
Instagram: @poesianaalmabr