Alpiste Contemporâneo / de Virna Sabayo
Aos 40+, Hebe descobriu que oficialmente havia virado um pássaro de cativeiro que se alimenta de sementes de abóbora, girassol, linhaça, chia, gergelim. Um coquetel de alpiste premium. Gourmet, claro. Porque decadência também vem com ajuste de inflação. Uma calopsita da zona norte. Talvez.
Mas nada chamava mais atenção do ele: o pó. O bendito pó superfaturado de psyllium com beterraba: um pigmento rosa-encarnado que prometia desintoxicar tudo, menos os delírios do reflexo. “É pra sua idade”, disseram. Como se passar dos 40 fosse roteiro trash-Helena Ramos. Metade Zé do Caixão, metade pornochanchada.
Hebe
misturou tudo em casa. Viu a gosma levantar uma aura mística de MDF hidratado e
pensou: podia ao menos vir com trilha sonora de seita punk. Também não custava
nada ter uns grãos alucinógenos.
Bebeu.
Arrependimento
imediato.
Era
como mastigar areia emocional.
Era como revelar um filme da Kodak todo queimado.
Mas seguiu. Porque todas as outras mulheres também seguiam. E existir em 40+ às vezes era isso: a coreografia coletiva do desespero estético. Colágeno, protetor na alma e cupons de Botox promocional.
No dia seguinte, entrou na farmácia pós-moderna. Farmácia grande. Farmácia tipo catedral. Aquela que parece shopping, templo e aeroporto ao mesmo tempo. Perfumes infinitos, vitaminas em degradê iluminadas por LEDs como jóias. Quase a reconfiguração da campanha do chocolate Baton: Compre colágeno. Compre colágeno. A estética da coisa era hipnotizante. Quase uma preliminar encenada no elevador.
Nada de cannabis em gotas. Nada de cogumelos mágicos. Mas lotada de embalagens que prometiam tudo e entregavam nada. Hebe adorava. Fazia coleção de latas ilustradas só pra guardar seus vazios. E suas notas fiscais apagadas.
Ficou ali. Parada diante da prateleira que tinha a voz do mestre dos magos. Porque ela sabia: cada item era um episódio da Caverna do Dragão. Não interessava o caminho. Sempre dava no mesmo engano. No mesmo reflexo.
Respirou
fundo. Abraçou a Biotina. O Ômega-3. E a bisnaga que custava todos os almoços
do mês. Foi em direção ao altar da nova era: o caixa. Ali, tudo se fundia: fé,
grana, carne.
–
Boa noite. Clube de vantagens, senhora?
–
Sim, filhinha. Tô levando todos. Boa noite.
Parcelou
em três atos e foi pra casa com a ilusão de que sementes, pó rosa e cápsulas
gelatinosas são mockup do futuro de ontem. Mas sem alucinógenos.
Sobre a autora:
Virna Sabayo é publicitária e artesã das palavras. Escreve entre metáforas, mitos, mídia e erotismo. Autora de Parir Flores em Solo Árido (Editora Toma Aí Um Poema), com textos publicados em antologias, revistas e páginas literárias independentes no Brasil e no exterior. Habita onde o texto pulsa.



Parabéns pelo texto!! 👏🏽👏🏽
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