Resenha – Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil




06 dezembro 2017
By imagem - Resenha por: Maurício Silva 



*Resenha por: Maurício Silva 

Deve parecer, ‘no mínimo’, curioso a muitos leitores um livro que trata da produção literária indígena no Brasil, já que, para muitos interessados na expressão literária nacional - mesmo aqueles especialistas em crítica e historiografia literárias -, a existência de uma literatura indígena brasileira deve soar como algo, ‘no máximo’, hipotético. Isso pode ser tanto mais estranho, ao pensarmos não apenas numa literatura brasileira indígena, mas ainda numa literatura ‘contemporânea’ e que pode ser discutida na perspectiva de seus ‘contrapontos’...


É exatamente isso que faz a pesquisadora e professora universitária de origem indígena Graça Graúna, em seu mais recente livro: “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil”. A autora começa definindo a literatura indígena contemporânea nos seguintes termos: 

“[...] a literatura indígena contemporânea é um lugar utópico (de sobrevivência), uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas), ao longo dos mais de 500 anos de colonização. Enraizada nas origens, a literatura indígena contemporânea vem se preservando na auto-história de seus autores e autoras e na recepção de um público-leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones” (GRAÚNA, 2013, p. 15). 

Desse modo, a autora se propõe a estudar um conjunto de obras de autores da literatura indígena contemporânea de língua portuguesa, com base nos estudos culturais, propondo uma ‘leitura das diferenças’. Assim, sua abordagem não apenas confronta a atual produção literária indígena no Brasil com a produção não indígena, mas também busca discutir a relação daquela com conceitos como os de identidade, auto-história, deslocamento, alteridade e outros, numa perspectiva que se assenta na ‘transversalidade’. 

Para Graça Graúna, a literatura indígena no Brasil continua sendo negada, da mesma forma que os próprios povos indígenas, apesar da luta em favor deles, desde a década de 1970, pela União das Nações Indígenas (UNI); da inclusão dos direitos dos índios na Constituição de 1988; do surgimento, nos anos 1990, do Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib) etc.  Lembrando que:
 
“[...] o estudo da representação do negro e do índio na literatura requer uma abordagem específica [...] A expressão artística do ameríndio e do africano sugere uma leitura das diferenças, pois o ato de conhecer o outro implica o ato de interiorizar a história, a auto-história, as nossas raízes” (GRAÚNA, 2013, p. 47)

A autora faz ainda uma revisão sucinta da influência e da representação do índio na literatura ocidental, em particular na brasileira, até chegar na literatura indígena contemporânea, que exprimem, entre outras coisas, um sentido de resistência e de sobrevivência, o direito à palavra oral ou escrita, a denúncia do neocolonialismo e da opressão linguística e cultural etc. Procura estudar, nesse sentido, com mais profundidade, a produção literária de Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Saterê Yamã, Olívio Jekupé e Renê Kithãulu.

Concluindo, a autora afirma

“Reconhecer a propriedade intelectual indígena implica respeitar as várias faces de sua manifestação. Isso quer dizer que a noção de coletivo não está dissociada do livro individual de autoria indígena; nunca esteve, muito menos agora com a força do pensamento indígena configurando diferenciadas(os) estantes e instantes da palavra. Ao tomar o rumo da escrita no formato de livro, os mitos de origem não perdem a função nem o sentido, pois continuam sendo transmitidos de geração em geração, em variados caminhos: no porantim, no traçado das esteiras e dos cestos, na feitura do barro, na pintura corporal, nas contas de um colar, na poesia, na contação de histórias e outros fazeres identitários que os Filhos e as Filhas da Terra utilizam como legítimas expressões artísticas, ligando-as também ao sagrado” (GRAÚNA, 2013, p. 172).

Mobilizando um vasto cabedal de teorias e perspectivas metodológicas, que vão da antropologia (Clifford, Mindlin, Clastres) aos estudos culturais (Hall, Bhabha, Canclini), passando ainda pela teoria literária, pela filosofia e pela história, Graça Graúna nos oferece um estudo perspicaz e inteligente de um assunto ainda pouco explorado pela academia, mas que merece não apenas ser mais pesquisado, mas principalmente mais conhecido e respeitado pelos leitores e pesquisadores de nossa cultura. E seu livro constitui um importante passo nessa direção.

*Resenha por: Maurício Silva 
Universidade Nove de Julho, Avenida Francisco Matarazzo, 612, 05001-000, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: maurisil@gmail.com

References

GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013.

Apenas R$35,00 diretamente com a autora.
entre em contato pelo email: grauna3@gmail.com
Saiba mais sobre a autora clicando aqui

11 comentários:

  1. Querida Lilian: rritero que avgentikeza não saiu da validade. Dizer obrigada é muito pouco diante do muito que você está fazendo ao divulgar meus escritos. Para mim, a sua generosidade é também sinônimo de um mundo melhor. Gratidão pela alma linda que você tem e compartilha com todos(as) nós. Saudações indígenas, Graça Graúna

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  2. Aprendizado nunca é de mais, ainda mais se tratando de assuntos que nos diz respeito. Esse tipo de leitura é enriquecedora, sempre nos agrega repertório e entendimento a muitos fatos que ainda acontecem no país.
    Um tipo de literatura nada valorizado e muita das vezes desconhecido, nos prendemos ao que vemos na escola (folclore) e fica nisso mesmo.
    Gostei muito de conhecer a obra e a resenha está ótima, parabéns Maurício Silva.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Menina que aprendizado mais incrível, sou apaixonada pela literatura indígena e sempre quando possou estou lendo algum livrinho relacionado ao mesmo, sua resenha ficou fantástica e me atreveria a ler com toda certeza.
    Beijinhos

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  4. Olá, tudo bem?

    Temos que dar valor para todas as nossas riquezas, seja a literatura ou cultura.

    Não conhecia a obra, anotei a dica! Esse é o tipo de livro que tem que ser mostrado! Sua resenha está fantástica.

    Beijos

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  5. Olá, tudo bem? Ainda não conhecia esta obra, porém achei bastante interessante ao ler tua resenha. Adorei a resenha e fiquei curiosa pra ler o livro!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  6. É impressionante como deixamos de lado tudo o que se refere ao nosso país. É muito mais fácil sabermos sobre outras culturas do que a nossa própria. Obrigada por apresentar o livro.
    Bjs, Rose.

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  7. Olá, tudo bem?
    Eu não fazia ideia da existência desse livro mas agora posso dizer que adoraria ler. Gostei muito da sua resenha, aprendizado nunca é demais.
    Beijos

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  8. Oiie
    Adorei saber que existe um livro assim, acredito que ele contribui os leitores com ensinamentos a respeito da cultura do nosso país. Adorei, dica anotada.
    Bjos, Bia! 💋

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  9. Oiieee

    Infelizmente como vc bem pontuou até hoje vários direitos ainda são negados aos povos indigenas, até mesmo coisas simples, como por exemplo o reconhecimento da literatura indigena especifica. Acho legal saber que também retrata temas contemporaneos, é toda uma descoberta pra mim porque admito que não sei quase nada sobre o tema. Muito interessante mesmo descobrir esse livro, agregar mais conhecimento é sempre bom.

    Beijos

    aliceandthebooks.blogspot.com

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  10. Ola
    que livro incrível, sempre gostei da literatura indígena, e sempre aprendi sobre ela na escola, e sempre começava com o nome da minha cidade que quer dizer Terra das Garças Brancas, mas hoje em dia está tão esquecido e tudo tão americanizado, que nós mesmo não damos o devido valor ao que é nosso. Já vou indicar para todos que eu conheço.Bjus
    Jis Rocha
    Blog Cá Entre Nós

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  11. Gratidão a Lilian pela divulgação do meu livro e a todos(a) que gostaram da resenham e que expressam curiosidade de conhecer meus escritos. Saudações indígenas, Graça Graúna

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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