Poesia aos Orixás




04 dezembro 2017
Alejandro Casazi (Castaño Isaza), “Iansã” from Orixás Series



É possível que muita gente tenha ouvido e até cantado alguma vez na vida o Canto Ao Pescador. ‘É dois de fevereiro/ É dia de Iemanjá /Levo-te oferendas / para lhe ofertar’. Apesar da beleza e reconhecimento dessa e outras músicas, não é comum encontrar uma diversidade de manifestações artísticas quando se trata da Mitologia Africana e Afro-brasileira. Existe uma produção na música, no cinema, novela, pintura, literatura, etc., no entanto, a visão eurocêntrica e cristã ainda é a mais valorizada e respeitada socialmente. Em um país como o Brasil, é pouco que ‘apenas Jorge Amado’ tenha destaque nas prateleiras das grandes livrarias. Há vasta produção, bem como existe em proporção maior silenciamento ou ataque a essa produção. Então, destacamos dez poesias aos Orixás. E como nem só da palavra vive a poesia, quem desejar conhecer mais o trabalho de Roger Cipó, clique aqui


NEGRITUDE

 Foto: Roger Cipó


“É o grito de quem vive”

Negritude,
Consciência histórica
Na busca constante
Da identidade cultural,
É a luta pela sobrevivência,
Denunciando a violência
Social, racial e de gênero.

Negritude,
Ideologia do oprimido
Que foi arrancado a ferro e fogo
Da poeira de seu chão,
Do seio de sua mãe África,
É o grito de quem vive
Nos guetos, nas favelas e nos becos
Disputando, com ratos e urubus,
“O alimento”.

Negritude,
É a liberdade conquistada
Com sangue, suor e raça
E sob a proteção dos Orixás.
É Xangô, é Iançã
É Ogum, é Iemanjá.
Deuses transformados em homens e mulheres.
Vivendo aqui e agora
A grande QUIZOMBA.

(Amaro, Antonio. Passos surdos / Antonio Amaro.
João Pessoa: Manufatura, 2002. 72 p.)


A COR DA NOITE
Foto: Roger Cipó


“A noite chegou / Joga as oferendas no mar.”

Toca tambor
Toca tambor
Na terra da tribo Iorubá
Dos homens de cor.

Toca tambor
Toca tambor
A noite chegou
Joga as oferendas no mar.

Toca tambor
Toca tambor
Um canto de dor
De quem é escravo
Em além-mar.

Toca tambor
Toca tambor
Não para de gritar
Dança capoeira
É hora de lutar.

Toca tambor
Canta tambor
Liberdade raiou
O amor vai chegar
Os homens da cor da noite
Já vão QUILOMBAR.

(Amaro, Antonio. Passos surdos / Antonio Amaro.
João Pessoa: Manufatura, 2002. 72 p.)


EXU

Foto google

No Cu
De Exu
A Luz.

(MOTTA, Waldo. Bundo e outros poemas.
Campinas, SP: UNICAMP, 1996.)


OYÁ

Foto: Roger Cipó

“um vento que vinha talvez das poderosas saias de Iansã.”


No começo da madrugada de uma noite calma e estrelada,
Assim, do nada, começa a soprar forte, furioso, um aparente
[sudoeste.
Redemoinhal alvoroça-se, ora todo para o lado da folhagem,
ora parecendo chuva,
ora batendo janelas e portas,
parecendo até que era mau...

Mistério.

Um vento diferente visitou a madrugada.
Tinha bafo quente.
Um esplendor de mãe e irmã,
um vento que vinha talvez das poderosas saias de Iansã.
A mulher admirável
Com búfalos épicos
A cruzar castelos e prados.
Vem ela com seus raios iluminando o céu da lua vã.
O bafo quente vinha da rodada da saia mágica de Iansã.

(LUCINDA, Elisa. Vozes Guardadas/ Elisa Lucinda.
 – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2016.)


FORÇA DO RUMPI

 Foto: Roger Cipó

“Poder do orixá, / Acumulada nos terreiros”

O Rumpi que transpõe as cercas,
Que rompe as mordaças do ignorar,
Que o axé,
Poder do orixá,
Acumulada nos terreiros,
Difundidas por alabês
Na celebração/saudação.

Só com a força do Rumpi,
Os homenageados podem dançar.
Ouvindo e sentindo o axé dos Rumpis, Batas, Tan-tans e Cotôs.
Me envolve na profunda Magia do momento.
E fui encontrar na África
A benção e o louvor
De meus inquices.

(Elque Santos. Força Do Rumpi, in Vozes Literárias
de Escritoras Negras. Editora UFRB)


AO SOM DOS ATABAQUES



“A luta não acabou,
A luta que nos invade, [...]
É preciso ter coragem
E lutar!”

Eu estava ali e em pé,
sob o sol quente
De um dia claro de verão.
Comecei a escutar ao longe,
Vozes e sons de atabaques,
Fechei os olhos para ver
De onde vinham....
Vinham de longe, [...]
Ouvi vozes que se uniam
Aos toques dos atabaques,
E vinham subindo a ladeira.
E dentro daquele canto,
Meus parentes,
Meus avós,
Um idioma esquecido,
Lembranças revisitadas,
Companheiros que partiram,
Saudades de quem não vi,
Relembranças de tantas histórias...
Cheiros de tantas comidas...
Comensais, batuques, senzalas...
Panos de tantas costas... [...]
Ifás, cantos, profecias...
E o som dos atabaques,
Dos alabês, maestria
E a voz firme e guerreira
Da mulher que conclamava [...]
É preciso ter coragem
Para lutar [...]
Enquanto a mulher cantava [...]
É preciso ter coragem,
E lutar [...]
É preciso ter coragem
E lutar.
E eu estava ali
De pé, [...]
De olhos abertos
Bem abertos,
Relembrando os que já
Foram,
Comovidos os sentidos,
Zumbis, Cruz e Sousa, Patrocínios,
Aos que virão,
Sê Bem vindo, [...]
A luta não acabou,
A luta que nos invade, [...]
É preciso ter coragem
E lutar!

(Fátima Trinchão. Ao som dos atabaques,
in Vozes Literárias de Escritoras Negras. Editora UFRB)


VENTANIA BRISA

Foto: Roger Cipó

“Iansã guerreou por mim, me ensinou a Ventar...”

Quando se pensa improvável: ela chega!
Quando parece que ela está: já se foi...
Oyá, como ventania levou pra longe minha dor.
Iansã cuidou de mim, curou minha lepra!
Quando ninguém me queria, Oyá me tomou nos
braços...
Por Iansã dobro meus joelhos, me calo!
venci batalhas...
Pra Iansã, TUDO!
Pelas mãos de Oyá, conheci meu Zumbi,
OMOLÚ!
Oyá é ventania que espalha
Oyá é vento que junta!
Oyá, como minuano, soprou sobre mim seu dom
do Balé.
Pra Iansã tudo!
Iansã guerreou por mim, me ensinou a Ventar...
Com a espada de Oyá dei conta das demandas,
Oyá me ensinou o Opanijé.
Oyá me ensinou a virar o jogo.
Lalú, abre caminho que lá vem Oyá.
Huntó, Ilú pra Oyá!

(Urânia Munzanzu. Ventania brisa, in
Vozes Literárias de Escritoras Negras. Editora UFRB)


ORIKI DE EXU



“que seja suave minha sina
neste mundo tão contrariado”

Lagunã corrige o corcunda.
Faz crescer a lepra do leproso.
Põe pimenta no cu do curioso.

Legbá ensina cobra a cantar.
Entorta aquilo que é reto,
endireita aquilo que é curvo.

Exu Melekê — o desordeiro
faz a noite virar dia e o dia
virar noite. Surra com açoite

o colunista da revista. Cega
o olho grande do tucano —
e zomba do piolho caolho.

Ibarabô vai-vem-revém.
Quente quente é a aguardente
do delinquente. Elegbará

com seu porrete potente
quebra todos os dentes
do entreguista privatista.

Bará tem falo de elefante.
É o farsante dos farsantes:
fode a mulher do deputado

hoje – e faz o filho ontem.
Agbô confunde o viajante
e o faz perder a sua rota.

Bará Melekê compra azeite
no mercado — levando peneira
volta sem derramar uma gota.

Larôye Exu! O desalmado
soma pedras e perdas na sina
do condenado. Sete Caveiras:

que seja suave minha sina
neste mundo tão contrariado.
Que seja suave – Larôye Exu!

(Claudio Daniel)


ORIKI DE ORUNMILÁ



filho de olorum,
ibá olodumaré.

senhor do ifá,
sabe nomes
e caminhos.

ibá orunmilá
sabe todos
os destinos.

eliri ipin
cuida de mim

em meus
descaminhos.

orunmilá iboru
orunmilá iboya
orunmilá ibosheshe

(Claudio Daniel)


IGNUM



O presidente do afoxé falou, com voz alta:
- Que esta febre apareça sempre em cada um de nós – e com
a voz embaraçada de emoção, gritou: - Oxum! Oxum! Banhe
a terra com suas águas abençoadas e todos os nossos cânticos
traduzam nossas homenagens ao planeta Ignum. Cantem!
Arranquem de suas almas os cânticos e brindemos a Salópia,
Deusa de Ignum.
E o afoxé cantou:
As águas de Oxalá
Vão lavar minha cabeça
Os filhos da África
Já vêm me buscar.
Eu vou, eu vou, na África dançar
Pra meu pai Oxalá!

(Aline França. Ignum, in Vozes Literárias

de Escritoras Negras. Editora UFRB)

13 comentários:

  1. Ignum foi a poesia que mais gostei com toda certeza Lilian, gostei de ver a quantidade e ótimas escolhas que fizestes, gosto muito desse tema e o povo não é tão valorizado como deveria.
    Beijinhos

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  2. Minha nossa, que post lindo.
    Dia 4 foi dia de Iansã ♥ Ela é minha protetora. E amo a história dela. Gostei A Cor da Noite.
    Aliás, os negros tem uma cultura belíssima que as pessoas precisam dar mais valor.

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  3. Oi Lilian, é incrível mesmo em um país como o Brasil obras deste gênero sejam tão pouco conhecidas e mesmo difundidas. Não conhecia nenhum deste poemas, e além de ter gostado, te parabenizo pela postagem.
    Bjs, Rose

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  4. Num país como o Brasil, chega a ser vergonhosa a pouca atenção dada à cultura negra. As poesias são lindas, não as conhecia.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  5. Ola
    Amo poemas e esse post foi o mais lindo que ja vi . Não conhecia a escrita mas simplesmente fiquei encantada. Parabéns .

    Jis Rocha
    Blog Cá Entre Nós

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  6. Confesso não conhecer muito sobre essa mitologia. Li um livro que tratava do assunto, mas por ser escrito por um líder cristão acredito que a escrita não foi nem um pouco parcial, tendo a ser até pretensiosa para a religião do autor.
    Os poemas são bonitos, mas com pouco sentido para mim que não conheço a cultura, vou procurar conhecer mais.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  7. Olá!
    Confesso que conheço bem pouco de Mitologia Africana e Afro brasileira, mas tenho muita curiosidade.
    Agradeço por ter escrito esse post e ter possibilitado que eu conhecesse um pouquinho mais. Tive certeza de que há muito mais para conhecer e fiquei ainda mais curiosa.
    Gostei muito de Ao som dos atabaques, achei incrível.
    Ótimo post.
    Beijos.

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  8. Olá, Lilian! Tudo bem?

    Eu confesso que pouco sei sobre a mitologia africana, não sei o motivo, mas nunca me senti atraído em saber a fundo, contudo a sua publicação mudou um pouco a minha visão e posicionamento. Gostei das poesias e Ignum foi a que eu mais curti!
    Beijos

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  9. Ola,
    Infelizmente não sou fã de poesias mas achei interessante trazer o tema para o blog principalmente por se tratar de uma mitologia que não é tão falada.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    http://leiturakriativa.blogspot.com.br

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  10. Oi Lilian, tudo bem?

    Conheço pouquíssimo sobre Mitologia Africana e Afro brasileira, e confesso que nunca fui muito curiosa em saber mais.
    Os poemos são muito bem colocados e acho que no país em que vivemos, deveríamos falar mais sobre a cultura e não a criticar ou discriminar.

    Bjs
    Blog Tell Me a Book

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  11. Olá, obrigada por me apresentar à essas poesias. Acho muito importante dar mais visibilidade há outras culturas sem o preconceito criado pela visão eurocêntrica.

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  12. A cultura africana contribuiu muito para a construção da nossa identidade nacional (bem como a cultura indígena), mas o preconceito faz com que ela seja mal vista e mal interpretada. A religião é campo de muitas discussões e as descendentes africanas são ainda as mais hostilizadas. Achei muito importante a sua postagem e gostei de poder ver essas indicações por aqui.

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  13. Oie
    uau que maravilhosa as poesias e que bom ver um blog onde tras esse tipo de assunto que apesar de tão em alta ainda é um tabu, adorei e com certeza vou compartilhar com varias pessoas

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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