Mulheres na produção literária




30 novembro 2015


A aclamada autora Conceição Evaristo faz aniversário dia 30 de novembro e nós, do Poesia na alma, não poderíamos deixar de prestar nossa singela homenagem a uma das mais importantes vozes da literatura produzida por mulheres e da poesia nacional.

Nascida em 1946, em Belo Horizonte, carrega a memória das contações de histórias, aquelas que são contadas pelos adultos para as crianças. Sua mãe, Dona Joana, era lavadeira, depois do trabalho, ainda contava história aos filhos e era exigente e preocupada com os estudos. Ela, a mãe, mantinha um caderno onde escrevia todas as história, que Conceição guarda até hoje...
Apesar disso, a vida de Conceição não foi fácil, pois ela queria estudar, no entanto precisava trabalha como cozinheira e lavadeira e seus patrões não concordavam que ela tivesse esse direitos:

Enquanto trabalhava como doméstica e após concluir o Curso Normal, eu sonhava em dar aula em Belo Horizonte. Mas aí entra uma questão seríssima. Em 1971, não havia concurso para o magistério e, para ser contratada como professora, era necessário apadrinhamento. E as famílias tradicionais para quem nós trabalhávamos não me indicariam e nunca indicaram; não imaginavam e não queriam para mim um outro lugar a não ser aquele que "naturalmente" haviam me reservado. Houve mesmo uma patroa de minha tia, numa casa em que eu ainda menina e já mocinha ia fazer limpeza, lavar fraldas de bebês, ajudar nas festas, entregar roupas limpas e buscar as sujas, que fez a seguinte observação: "Maria, não sei porquê você esforça tanto para a Preta estudar!

Hoje, Conceição Evaristo é Mestre em Literatura Brasileira pela PUC Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Estreou na literatura em 1990, na série Cadernos Negros, antologia editada anualmente pelo Quilombhoje, de São Paulo, grupo de escritores afro-brasileiros reunidos, desde 1978. Dentre várias antologias lançadas no Brasil, a autora participa do livro Contos Afros, organizado por Marcio Barbosa (Quilombhoje), patrocinado pela Prefeitura de Belo Horizonte; no livro Contos do mar sem fim, da Editora Pallas, Rio de Janeiro e na Antologia Questão de Pele, da Editora Língua Geral, Rio de Janeiro, e vem mantendo uma constante publicação de poemas e contos, em Cadernos Negros. A escritora participa também de publicações, em antologias, na Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e em Angola. É autora dos romances Ponciá Vicêncio e Becos da memória (Mazza Edições). O primeiro foi um dos livros indicados para o vestibular da UFMG, para o CEFET/MG e mais quatro faculdades de Minas Gerais em 2007, sendo ainda indicado como uma das obras do vestibular de 2008 e 2009 da Universidade Estadual de Londrina. A obra Ponciá Vicêncio foi traduzida para o inglês, pela Host Publications, Texas, nos Estados Unidos, em 2007. Em 2008, Conceição Evaristo lançou a antologia Poemas da Recordação e outros movimentos, (Nandyala Editora), obra que se classificou entre os 50 finalistas concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom, no ano de 2009. A produção de Conceição Evaristo é ampla, abarcando o campo da poesia, da prosa e do ensaio literário. Como escritora, ela tem sido convidada para participar de eventos acadêmicos e literários no Brasil e no exterior e tem marcado também presença nos movimentos sociais, notadamente, nos que se relacionam com a luta dos afro-descendentes. (Skoob)

"Homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos de minha favela"  (Evaristo)

Seus textos dão voz aos excluídos sociais e seu cotidiano. De contramão com o mercado literário que usa do sensacionalismo para retratar determinados grupos, a autora retrata com realismo a realidade do morro, porém rompendo com o 'mercado-enlatado-literário’, afim de fazer uma literatura livre e limpa.

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue

e
fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas. [...]

Conceição Evaristo é uma autora para ser lida todos os dias, comemorada todos os dias, e homenageada em vida... Se você ainda não a conhece, segue aqui suas publicações. 


Becos da memória nos conta várias histórias de personagens verossímeis, moradores de uma favela que está para acabar. A convivência com os tratores dos supostos donos se mistura com as mudanças das famílias carregadas de saudosismo, indignação e receio do que a vida se transformará após o desfavelamento. Nesse cenário conhecemos bonitas histórias como a de Vó Rita, parteira e mulher respeitada por sua sabedoria e experiência, que agora cuida da misteriosa personagem Outra, que não recebe nome, mas é muito citada na narrativa da menina Maria Nova, curiosa adolescente negra que adora ouvir histórias e expressar sua curiosidade. Personagens como Bondade, Tio Totó, Maria Velha e Ditinha vão surgindo da memória de Maria Nova e preenchendo o leitor de narrativas sutis e ao mesmo tempo violentas e reais.


A antologia Insubmissas lágrimas de mulheres é composta de 13 contos, cujas histórias têm como protagonistas mulheres negras. De dentro da cena, vozes-mulheres explicitam suas dores, anseios, temores, mas, antes de tudo revelam a imensa capacidade de se retirem do lugar do sofrimento e inventarem modos de resistência. Uma intima fusão entre as personagens, a voz ficcional de quem apresenta essas personagens e a autora, marca o processo criativo dos textos e afirma o projeto literário de Conceição Evaristo, o de traçar uma escrevivência.


A antologia Insubmissas lágrimas de mulheres é composta de 13 contos, cujas histórias têm como protagonistas mulheres negras. De dentro da cena, vozes-mulheres explicitam suas dores, anseios, temores, mas, antes de tudo revelam a imensa capacidade de se retirem do lugar do sofrimento e inventarem modos de resistência. Uma intima fusão entre as personagens, a voz ficcional de quem apresenta essas personagens e a autora, marca o processo criativo dos textos e afirma o projeto literário de Conceição Evaristo, o de traçar uma escrevivência.


Exemplo de romance afro-brasileiro, falando da identidade negra, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, vai de encontro à tese segundo a qual a escrita dos descendentes de escravos estaria restrita ao conto e à poesia.
Além de estabelecer um saudável contraponto com o abolicionismo branco do século XIX e com o negrismo modernista de um Jorge Amado, um José Lins do Rego ou Josué Montello, Ponciá Vicêncio remete ao Isaías Caminha, de Lima Barreto; em menor escala, ao Brás Cubas, de Machado de Assis; e, com certeza, ao memorialismo de Carolina Maria de Jesus e ao Ai de vós, de Francisca Souza da Silva, entre outros.
Em todo o romance percebe-se a prosa recheada de linguagem poética. A obra nos narra pequenos acontecimentos do cotidiano, mas o seu olhar transcende o automatismo viciado com que se observam as coisas do dia-a-dia para olhar com essência a poesia da vida.
O texto de Ponciá Vicêncio destaca-se também pelo território feminino de onde emana um olhar outro e uma discursividade específica. É desse lugar marcado pela etnicidade que provém a voz e as vozes-ecos das correntes arrastadas.
Vê-se que no romance fala um sujeito étnico, com as marcas da exclusão inscritas na pele, a percorrer nosso passado em contraponto com a história dos vencedores e seus mitos de cordialidade e democracia racial. Mas, também, fala um sujeito gendrado (travestismo feminino - subalternidade), tocado pela condição de ser mulher e negra num país que faz dela vítima de olhares e ofensas nascidas do preconceito. Esse ser construído pelas relações de gênero se inscreve de forma indelével no romance de Conceição Evaristo, que, sem descartar a necessidade histórica do testemunho, supera-o para torná-lo perene na ficção.

Fonte:

Revista Estudos Feministas: http://zip.net/bjsss0
Blogueiras Feministas: http://zip.net/bxstvd
"Escrevivência" em Becos da memória, de Conceição Evaristo: http://zip.net/bbssnS



19 comentários:

  1. Parabéns para Conceição Evaristo, uma mulher que tem na alma a força e a coragem para seguir em frente!
    Gostei e pretendo ler os livros dela.
    E que mãe exemplar dona Conceição teve, gostei de saber da sua história de vida!

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  2. Gente que mulher divina.
    E tem tanta estrada caminhada já. Parabéns para ela ♥ E por você por ter me feito conhece-la.

    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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  3. Parabéns para Conceição Evaristo. Essa mulher é uma guerreira a qual eu sempre busco minhas inspirações nela. Já li todos esse livros dela, são ótimas poesias.


    - Garotinha adolescente

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  4. Oee, não conhecia ela e mds... mulher top!!! Parabéns Conceição!!

    Abraços!
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  5. incrível que eu não sabia da existência dessa mulher xD sequer ouvi falar de sua obra mas fiquei muito interessada. Adorei a poesia dela, e creio que começaria por ai... Ela foi um exemplo de superação na trajetória de sua vida. Lembrei um pouco da vida sofrida da minha mãe...

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  6. Oi, tudo bem?
    É tão bom quando vemos alguém vencer assim na vida e tudo por mérito próprio, mesmo com tudo conspirando contra.
    Ela é um exemplo de que com perseverança podemos alcançar nossos sonhos!

    Beijos :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  7. Que bela homenagem! Eu não conhecia ela, mas é muito bom conhecer vencedoras. :)

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  8. Homenagem repleta de reconhecimento e cultura! Adorei. Eu tenho vergonha em dizer que não conheço o talento dessa autora, mas senti enorme admiração pela sua história e por ter se tornado uma autora de merecido prestigio. Com certeza, quero ler Ponciá Vicêncio. Já anotei a dica.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  9. Não pude deixar de relacionar a nome e a poesia de Conceição Evaristo com a outra escritora, também Conceição, Conceição Lima, poetiza de São Tomé e Príncipe, África.

    Pelo seu texto, vejo que as duas tem um trabalho que se inscreve na temática de resgate do passado seu e, do seu povo.

    Parabéns pela homenagem!

    Beijos!

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  10. Gostei bastante da homenagem e quero ler os livros dela *--*

    Beijos
    http://albumdeleitura.blogspot.com.br/

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  11. Own, Que coisa mais linda de se ler. Que história de vida maravilhosa. Mulher, poderosa. Amei, pois não conhecia, e fiquei encantada com a história e com a poesia. Simplesmente linda a homenagem do blog, parabéns. <3

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  12. i,

    Não conhecia a autora, mas fiquei encantada com a história de vida dela e com a obra. Mais do que colocada na lista de desejos.

    Beijos
    Juci Pauda
    jusemfrescura.blogspot.com.br

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  13. Amei!
    Estudei sobre ela na faculdade. Foi só uma aula, mas deu pra ver a importância dela na literatura nacional.
    Acho interessante a forma como as mulheres se colocam dentro da literatura. Tornam a coisa toda mais leve e contemporânea.
    Amei a postagem e a homenagem.

    Beijocas,
    http://www.segredosentreamigas.com.br/

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  14. Olá, não conhecia a autora, mas adorei conhecer um pouco mais sobre a sua historia e seus livros que já entraram na minha listinha de futuras leituras.

    Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

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  15. Oi, tudo bem?
    Não conhecia a autora, mas adorei saber sobre ela e seus livros. A sua postagem está maravilhosa e, com certeza, uma bela homenagem para essa escritora tão fantástica.

    Beijos
    Leitora Sempre

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  16. Olá! Adorei conhecer mais sobre a Conceição Evaristo, havia ouvido falar sobre seus livros, mas não sobre a história de vida dela.

    http://umreinomuitodistante.blogspot.com.br/

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  17. Que bacana a homenagem a autora, adorei conhecer um pouco mais sobre ela e seu ytrabalho ^^

    www.gordinhaassumida.com.br

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  18. Olá! Adorei a homenagem à autora. Eu não a conhecia, porém fiquei com enorme curiosidade de ler suas obras e conhecer sua vida e seu trabalho. Quem nasce nessa época só vê as catástrofes que estão acontecendo ultimamente. Muitas vezes nem se interessa pelo que ocorreu com as vidas de tempos passados. Eu acho lindas essas histórias de superação, onde as pessoas passam firmes e fortes por cima de um passado conturbado. Algumas mulheres dessa época, e de outras épocas também, sofreram bastante, mas se ergueram e acho mais que digna a homenagem que você prestou a uma dessas mulheres. Parabéns. ♥

    Beijos,
    Fernanda F. Goulart,
    Império Imaginário.

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  19. Olaa
    Que belo post e homenagem, muito legal e é sempre bom para conhecermos bem sobre a autora.

    Beijos
    Reality of Books

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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