Eu sei, mas não devia - de Marina Colasanti




24 fevereiro 2017
The Sharpest Knife by Nickie Zimov




Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Sobre a autora

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


(O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.)


Fonte  - Releituras

17 comentários:

  1. Eu venho acompanhando o blog e sempre me surpreendo com as poesias e poemas que você traz.
    Desta vez, a mensagem foi tão direta e tão verdadeira, que me obriguei a seguir o blog de uma vez.
    Sério, eu devorei essa texto e me senti dentro dele, vivendo essa vida - isso se já não estiver vivendo.
    Parabéns!

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  2. Nossa tão verdade e tão atual na nossa vida cotidiana. É mais que se acomodar é se acostumar sem para parar refletir e reflexão foi o que ela fez ao escrever essa crônica e é o que está fazendo comigo rs

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  3. Linda a mensagem! Devemos aprender a valorizar nossos dias e as oportunidades que com eles vem!

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  4. Uau! Que leitura gostosa e ao mesmo tempo aflitiva de tão verdadeira. Eu ainda não me acostumei com muita coisa e acredito que vai ser difícil me acostumar. Amo Marina Colassanti. Vou mostrar esse texto a um amigo que também vai lê-lo com grande sensibilidade. Amei muita coisa o seu blog! Parabéns!

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  5. Olá! Lindo texto! Algumas vezes vamos nos acostumando e deixamos a vida passar. É normal ficarmos nesse marasmo, mas é legal sacudi um pouco, sempre questionar. Beijos!

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  6. Olá, não conhecia a autora e nem seu livro, mas adorei esse trecho que você trouxe ele tem uma reflexão profunda sobre tudo que acabamos tendo como "normal" e nos acostumamos.

    Meu Mundo, Meu Estilo

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  7. Olá !!! Muito bonito seu texto e a forma de abordar esses assuntos.
    Muitas vezes convivemos com situações no cotidiano e nem nos damos conta.
    As vezes é preciso um momento para refletir e ver o que realmente é preciso mudar !!!
    sucesso, bjooooo

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  8. Que texto. Reflete muito a realidade de muitos que não vivem, mas se acostuma. Adorei demais e não conhecia o livro, nem o texto. Fiquei bem curiosa para ler mais da autora. Adorei!
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com.br

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  9. Que texto maravilhoso! Muitas vezes o fato de se acomodar é por ser mais fácil do que querer mudar ou o fato de mudar cause um certo medo em algumas pessoas (quase todas). Adorei esse trecho do livro.

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  10. Eu simplesmente amei esse texto. Ele é tão verdadeiro e tão atual que é impossível não se identificar. Acho que o mundo precisa ler isso e deixar de lado todo esse costume e começar a tentar viver algo diferente todos os dias.
    Obrigada por me apresentar esse texto maravilhoso.

    Beijos

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  11. Olá,
    Adorei o texto. Realmente vivemos muito acomodados, nos acostumando a tudo e aprendendo a não reclamar do que nos incomoda porque "vamos nos acostumar". O texto é muito atual e reflete bem o que vivemos hoje, infelizmente. Dá pra refletir sobre muitas coisas ao lê-lo.
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

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  12. estava aqui pensando que já conhecia algumas partes desse texto, mas não conseguia lembrar de onde - e acabei achando que deveria ter lido algo parecido e tal. Quando vi a referencia no final, devo ter lido esse texto mesmo em algum outro momento e mesmo assim, ele ainda continua mexendo comigo e ainda continua tão verdadeiro, tão atual...
    A gente se acostuma com tudo tão facilmente, né?
    Mesmo sabendo que não deveria...
    Beijinhos,
    Lica

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  13. Oie tudo bem? Esse texto é maravilhoso mesmo. Eu li apenas um livro da autora, além desse texto, e adorei vale muito a pena. A escrita dela é uma delícia!

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  14. Que texto maravilhoso!!! Nos faz repensar em porque aceitamos tudo isso, mesmo que praticamente estejam gritando serem coisas ruins.

    O que faz com que a gente perca tempo demais vivendo o que não deveria

    Beijos

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  15. Olá...que texto incrível! Adorei a forma como a autora expressa nossas ações...nos acostumamos a coisas ridículas que são impostas pela sociedades e não percebemos o quanto isso é ruim.

    Abraços

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  16. Um dos textos mais poderosos que li nos últimos meses. Vou compartilhar. Adorei a forma como ela mostra a crueldade do mundo, sem deixar claro, mas com um tom bem crítico.

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  17. Bom dia,

    Só tenho uma coisa a dizer, simplesmente demais, que texto é esse....show, ótima dica...compartilhando agora!!!

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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