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Dez poemas de Nídia Heringer

 



OLHAR CACHOEIRA

 

Olhar cachoeira,

congelado de lunações.

Poema móvel,

reticências apimentadas.

 

Socos de fragilidade no esôfago.

Quando a palavra fecha a garganta,

é hora chegada.

 

Borbulha nas têmporas

a ansiedade do tempo que não escorre.

Mãos. Pés.

 

Que vão e ficam.

Coreografias flutuantes.

Tu sabes ler silêncios?

 

ECOS

 

Energia boa,

riso manso e doido.

Mãos que rebatem o enroladinho do cabelo.

 

Palavras ansiosas,

Palavras robustas,

Palavras quase doces, vez ou outra.

 

Profusão de perguntas na voz.

Indagações no olhar.

(essas inquietam a alma de quem as ousa perceber)

 

A interlocução:

silêncio das palavras não ditas

que estão diluídas aqui na garganta.

O café as coa, agora.

 

A memória

Ouve, vê, revê...

E sorri para um sono antigo,

Contemplado ao lado.

 

A NUDEZ DAS PALAVRAS

 

Aprender a desvestir palavras.

Carece de ler, reler,

ouvir de ouvido e de memória.

Carece de derrotar o orgulho.

Carece permitir a dor de saber.

Carece fazer, da dor de saber, aprendizado.

 

Aprender a desvestir palavras

Exigiu encarar a nudez individual do corpo.

Exigiu ver o corpo com a lupa do cérebro.

Exigiu ver o cérebro sucumbir ao corpo.

 

Ser capaz de desvestir palavras

Faz palavras simples serem erosão fecunda.

Proferir palavras é “Escolhas”.

Eu sei. Você sabe.

“Obrigada, anjo” – duas palavras que despi.

Nuas, sei mais de cisão,

de sentir, de olhar e ver.

Despir palavras é escolha crua.

Despidas: elas e eu.

 

MAPEANDO ESTRELAS

 

Na janela do avião,

nuvens, algodão?

Toques de seda,

vestindo o mundo.

 

Sorriso teu, atrasado,

nos meus olhos fechados de memória.

Voos reais.

Voos antigos.

Quase pingos de liberdade.

Chuva lá.

Lua aqui.

Horário de verão.

 

Meu relógio biológico,

piradinho,

mapeando estrelas,

madrugada afora.

 

NO PALCO

 

Quando o que era corpo encontra a alma,

a pele é palco de desejo e meiguice.

Quando a língua é fogo e doçura,

há sexo, mas soa mais, bem mais.

Momentos inteiros, intensos,

convulsão de sentir você,

em sonetos boêmios de nós.

Calma de cérebro e epiderme.

Tensão de não tocar e sentir mesmo assim.

Um estar feliz sem entender.

Um estar saudade que é susto.

 

MOMENTOS BRAILLE

 

Pontos, pontos, pontos.

Relevos?

Dedos leves desenham palavras,

imagens e sons.

Epiderme eriçada.

Poema em Braille.

Eu, poema.

Você, leitor.

 

 

SUSTO DAS HORAS

 

A nudez daquele dia

inundou a tarde,

solveu a luz em riso.

O aroma do café forte,

coado na pele.

O sabor da música,

feito dança nos olhos,

trovejou no abraço.

Poema da vida.

Noite escura.

 

PALAVRAS EPITELIAIS

 

Silêncio.

A boca, voraz,

inteira em você.

A voz,

represada.

Lábios nus escreviam na pele.

Receitas para experimentar.

 

 

DOR

 

Essa dor,

provocada no outro,

Deixa o sangramento em nós, se amor.

 

 

O QUE NUNCA FIZ

 

É tanto o que nunca fiz.

E fica sempre parleando comigo, o que não fiz.

O que não fiz, em certos dias,

É uma sombra querendo sol.

Esquisito, mas o nunca feito

Também é memória.

Antiguidades de mim.

 

(Nídia Heringer, in Umbigos e Cotovelos. Dialética da Causação não Anatômica. Editora: Buqui, 2014)


Sobre a autora:

Possui Doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2007) e também Mestrado em Letras pela PUCRS. Cursou a Graduação em Letras - Português Inglês e Respectivas Literaturas- na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões. É Docente do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Farroupilha. Desde 2012 é Pró-Reitora de Desenvolvimento Institucional do IFFar. Coordenou o Fórum de Desenvolvimento Institucional da Rede Federal de EPCT/CONIF - Gestões 2014 e 2015. Principais interesses de pesquisa: Educação; Gestão Educacional; Ensino; Metodologias de Ensino, Criação literária, Teoria da literatura, Narrativas contemporâneas em Língua Portuguesa.

 


3 comentários:

  1. Olá,
    Para mim ainda é bem dificil entender os poemas, mas gostei das comparações e de serem curtinhos.

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  2. Olá, tudo bem?
    Confesso que ainda não conhecia a autora, mas gostei dos poemas que você trouxe. Gostei principalmente último, achei muito sensível e reflexivo.
    Beijos

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  3. Não conhecia a autora. Interessante cómo ela fez uso de poucas palavras em curtos versos pra exprimir sentimientos tão profundos...

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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