Todo dia ela faz tudo sempre igual / por Antonio Sodré
Cotidiano*
*Inspirado
livremente na música homônima de Chico Buarque.
Todo dia ela faz tudo
sempre igual. Dorme agarrada ao meu pescoço, quase me sufocando de pavor. Às
seis da manhã, com um sorriso no rosto, morde minha orelha, arranha meu peito,
beija meu pescoço e entrelaça suas pernas nas minhas. Tento escapar. Ela
insiste. Roça seu corpo no meu. Resisto, me desvencilho e levanto. Cansado, arqueio
as sobrancelhas, franzindo minha testa. Ela ri da minha cara enquanto me abraça
com força. Luto para chegar até o banheiro. Tomo banho, visto minha roupa de
trabalho, vou até a mesa e tomo café. Na cadeira, ela senta no meu colo e me
beija. Gosto de hortelã. Pego-a no colo e jogo-a para cima para abrir espaço.
Ela se arrepia de prazer. Abro a porta de casa e ela me faz jurar que irei
tomar cuidado na construção. Ela me quer por inteiro quando voltar para o
jantar. Já na calçada, ela pula nas minhas costas. Seguro em suas coxas, ela me
abraça pelo pescoço e ando mais um pouco. Paro e, como uma enguia, ela
escorrega das minhas costas para a minha frente sem me largar. Beija-me com
gosto de café.
Já chego cansado ao
canteiro de obras. Misturo cimento, areia e água e levo até o patamar. Jogo a
argamassa cinza, coloco o tijolo terracota. Repito os movimentos. A argamassa
cinza e o tijolo terracota. A parede cresce com preguiça. Quero mesmo é fugir.
Dizer não. Chega! Vou comprar um caminhão e sair dirigindo país afora. Minha
cabeça dói com o barulho da obra e do trânsito. Estou sujo de cimento. Compro a
marmita e paro para almoçar. Carne de panela, arroz, farofa e feijão no
alumínio descartável. Como com uma colher de plástico. Paro de pensar bobagens.
Minha vida é feita de cimento, areia e água. Meu dia tem gosto de feijão.
Calo-me, pois não nasci para falar. Nasci para levantar parede.
Volto para casa no pôr do
sol. Ela está sempre lá, no portão. Abraça-me, espremendo meu peito com sua
cabeça. Ela me olha nos olhos e coloca seus pés sobre os meus. Tento andar e
ela ri. Beija-me longamente com a boca de paixão. Tira minha roupa e me leva
para o quarto. Enfia-me dentro dela até não poder mais. Nus, a cabeça dela pesa
no meu peito. Quero fugir, mas o peso daquele pequeno corpo não me deixa. Ela
se levanta. Serve a janta para mim. Fica em pé, me olhando comer, com os olhos
de admiração.
Ela sempre nota meu
desespero. Ajoelha-se e implora para eu não me afastar. Ameaça tirar a própria
vida. Chora. Saio de casa para tomar um ar. Como a minha vida foi parar aqui:
ela, hortelã, café, cimento, areia, água, feijão, janta e choro? Volto para
dentro e ela finge que não quer conversa comigo. Vamos dormir. Ela me acorda à
meia-noite. Jura eterno amor. Dorme agarrada ao meu pescoço, quase me sufocando
de pavor.
Sobre o autor:
Antonio Sodré
é formado em Administração Pública e atua na área de ensino superior. Gosta de
transformar histórias em contos. Já foi publicado por diversas revistas
literárias, antologias e por meio de concursos literários. Instagram: @acasodre



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