Filas - R.S.Merces




07 maio 2012

Acho que sabem muito bem como são as filas de espera, seja ela qual for, você sempre encontra com quem conversar e trocas experiências. As filas muitas vezes se restringe a grupo social ou um determinado apanhado de pessoas com um mesmo objetivo. Eis que me foi presente estar na fila de uma consulta para admissão de trabalho e conto que por ali aguardavam umas oito ou mais pessoas. Devo admitir que meu interesse maior estava nas páginas de um livro que lia no momento e não posso afirmar um número exato. Não existia silêncio, mesmo que uma placa indicasse a atitude como moral do ambiente, porém era ético a cada um, derramar seus conflitos diários. Quando pus o livro de lado para atender ao olhar de uma garota, deparei com um ser humano sedento por ouvir o som da própria voz. Ela me contou o que fazia ali, como se eu não soubesse, reclamou da carga horária que estava prestes a encarar e do salário baixo que levaria para as despesas da casa. Fiquei, então, informado de seu casamento precoce, seu desespero para reunir e atualizar todos os documentos necessários para a vaga, sua vida pacata na cidade e seus diversos empregos temporários no último ano. Ela disse que também quereria ter trago um livro para se distrair, porém acredito não ser a leitura de seu hábito e só o mencionou no extinguir de suas confissões. Quis saber que cargo eu aguardava e disse tão solenemente:
       “— Auxiliar de biblioteca.”
       Ela era Técnica em Edificações e ali havia mais seis Técnicos, entre edificações e enfermagem. Por assim contar, eu era o auxiliar de biblioteca e por fim um aspirante ao cargo de médico, sentado sozinho folheando um jornal. Não posso afirmar que lia as notícias e muito certamente a edição não era do dia, pois estava em um amontado de revistas velhas no saguão da clínica. Em minhas conclusões, fugia dos olhares das garotas desesperadas por sua atenção. É do ser humano julgar e elas certamente o julgavam com o partido perfeito para dividirem a cama e posso ressaltar enxergar o brilho nos olhos quando o olhavam folhear o jornal.
       A Técnica detentora de uma comunicação cansativa começara, então, a tentar a atenção do médico com assuntos medicinais. Ela dissera que dormia um mês sim e no outro sofria de insônia. É engraçado contar isso, mas na hora ultrapassou os limites da estupidez. Ela esperava uma resposta dele e foi capaz ainda de acrescentar à história estudos das universidades americanas para explicar o fenômeno. Uma enfermeira presente receitou a ela uma receita caseira de um chá indispensável para insônia. Não duvido nada que ela preferia ouvir uma cantada idiota do médico do tipo:
       “— Gata, comigo não teria essa problema.”
       Pronto, estaria consumado o ápice de seu dia e quando chegasse em casa recusaria deitar com o marido para deixar-se flutuar nos sonhos da cura de sua insônia.
       O médico assim como entrou no saguão o deixou, em silêncio. Não respondeu a nenhum flerte e nem mesmo revelou qualquer detalhe sórdido que pudesse fantasiar a mente das garotas apaixonadas. Eu também não as veria mais, mas poderia as imaginar correndo pelos postos de saúde para uma consulta. Só vou deixar para os meus preceitos as dores que seriam capazes de alegar.
       Espero que para a decepção delas ele não seja pediatra.

3 comentários:

  1. Que máximo! Adorei adorei adorei!
    Sucesso sempre pra você, e eu espero que o médico não seja pediatra ahaushuahsua
    beijoos

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  2. Putz Renam, essa é realmente a tua área!

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  3. Gostei demais!! Muito bom, como sempre Renan...

    Abraços sucesso!

    Atenciosamente,
    David.H.S

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