O caso da cidade que mudou após o SAMU




05 junho 2012
Tratava-se de uma cidadezinha no interior de Minas Gerais. Por ali viviam certa de 45 mil habitante, um número alto, entretanto era vista como uma qualquer na vastidão do território brasileiro. A principal fonte de renda era o minério e quando se completava idade ou iria trabalhar nas mineradoras ou no comércio, claro que uma parcela encarava o serviço público e ainda tinham aqueles que preferiam perambular pelas ruas em busca de dignidade. A vida de grande parte da população resumia-se a isso, casa, emprego, casa e a rotina só mudava aos sábados e domingos. O final de semana era um tanto quanto movimentado (confesso estar sendo irônico). Os jovens perderam a animação dos anos 70 e o único Clube de Dança fora fechado, restando somente o som de um forró para a meia-idade.
Nos últimos meses, sim, a cidade tem passado por transformações e o que antes poderia chamar de pacato tornou-se um lugar temido. Com a migração de trabalhos de diversas regiões do Brasil, a polícia e o jornal da cidade vizinha viram o número de assassinatos aumentar. Não que um desses trabalhadores seja um serial killer espreitando mulheres em cantos escuros (Bom, seria provável que este merecesse admiração da população e ganharia fama internacional), mas desde que alguns moradores tiveram contato com os de fora acabaram sendo influenciados. As 12 horas escutando roda de viola na rádio foram substituídas por um radialista tremendamente irritante relatando as mortes locais. Ora são acidentais, ora são violentas e capazes de fazer os pais trancarem seus filhos em casa.
O que não esperavam era a chegada de um reforço anti-morte. Assim fora chamado nos primeiros dias quando as sirenes alertaram logo sendo as vizinhanças para o perigo. Muito foi dito sobre ele.
“Um absurdo! Precisam ligar para a central em Conselheiro Lafaiete para depois atender uma emergência.”
“São educados e até conversaram comigo para não perder a consciência. Possuem aparelhos de última tecnologia.”
“Tem tantas maquinas que mesmo quando me liberaram na porta de casa, achei que ainda estava bêbado com tantas luzes ao meu redor.”
“De nada presta. É trabalho da polícia evitar esses acidentes.”
“O SAMU é para uso da população – dissera o prefeito.”
Em toda a cidade ouvia-se as sirenes cortando de um canto ao outro. Raro passar alguns minutos sem presenciar um arrepio e uma curiosidade por saber o que acontecera e com quem. A população levou tão a sério as palavras do prefeito e bastava um simples tropeçar na calçada para acionar a emergência. Os casos duplicaram, triplicaram... até não ser possível atender a todos.
Seu último grande dia na cidade foi marcado pelo acidente de uma senhora. Ela escorregara por conta do sapato com sola deslizante e esfolara o bunda no asfalto. Sangue preenchera a rua e seria provável encontrar alguém filmando para colocar em um desses sites famosos da Internet. Contudo quando o carro chegou e a senhora suplicou por ajuda entre um choro falso, o motor soltou um grunhido e começou a pegar fogo. Tiveram de chamar os bombeiros para socorrer o SAMU e na nota do programa de rádio fora dito o seguinte:
“O carro do SAMU passa por manutenções não sabendo quando sairá do repouso. E AS NOTÍCIAS DE HOJE SÃO: JOVEM ASSASSINATO...”


R.S.Merces

1 comentários:

  1. Tudo isso é decorrência da falta de Gestão Publica qualificada, além da falta de interesse publico. Na real o cidadão e seus familiares estão a merce do Nada!

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