Resenha - Cartas na rua, Charles Bukowski (+18)




28 setembro 2013


"Tudo começou como um erro."

Os Correios nos últimos anos tornou-se um segmento quase exclusivo para uso de grandes empresas, para o comércio online e dos bancos com suas cobranças. Porcarias de contas que chegam aos montes. Onde estão as cartas? Ou o hábito de compô-las, por corações apaixonados ou sentimentos de mais pura saudade? Bom, raramente vê-se alguém remeter uma correspondência e tão pouco se recebe. As comunicações giram em torno da agilidade dos e-mails e bate-papo nas redes sociais. Esperar quinze dias para a chegada e outros quinze para receber a resposta se pode interagir em questão de segundos.

Pois houve um tempo em que era muito comum se enviar cartas e receber cobranças também. Porém não é esse o assunto de hoje. E sim, sobre um homem que vive embriagado, adora fuder e ama as mulheres. Parece um homem comum e não seria estranho se não tivesse passado anos trabalhando no Correios, uma relação um tanto quanto perturbada.

Chinaski é o personagem principal do primeiro romance de Charles Bukowski. Com fortes referências autobiográficas, “Cartas na rua” representa todos os anos que o autor trabalhou para o Correios a fim de se sustentar.

Henry Chinaski acha que esta cometendo um erro ao dar o primeiro passo para um possível emprego. Contudo em pouco tempo vaga pelas ruas com um saco nos ombros entregando cartas. E como tudo na vida tem suas dualidades, ele achou que poderia tirar proveito das mulheres sozinhas em casa, e tirou, em transas rápidas que o tomavam o horário do almoço. Continuava a embriagar-se com a esposa, a fudê-la durante a noite e amanhecia de ressaca.

Como um sistema, o Correios também tinha sua cadeia hierárquica e Chinaski não engolia o supervisor Jonstone, um sádico que escolhia as piores rotas a quem não tinha empatia. Na sua primeira experiência na empresa, o protagonista vive diversas situações escrita em breves passagens. Tempos depois de pedir demissão, Chinaski ainda volta a trabalhar como carteiro onde fica por doze anos.

Bukowski em seu senso de humor faz crítica ao sistema que não dá direitos e só explora o trabalhador. Uma passagem que poderíamos citar seria quando Chinaski encontra um dos melhores carteiros chorando e impossibilitado de exercer sua função, depois de comunicar ao supervisor nunca mais vê o amigo.  A pouca abertura do sistema impossibilita ao funcionário uma vida prazerosa com horas absurdas de trabalho.

Henry em suas aventuras pervertidas vezes bate de frente às normas e ao Código de Ética. Faltava por dias sem avisar, fingia estar doente para ficar em casa entre outras coisas que se você é um trabalhador vai se assemelhar.

O romance não foge à marca do autor e apresenta descrições com palavras chulas que aos olhos e mente mais puritano pode parecer estranho. Narrado em primeira pessoa, a linguagem só tem a acrescentar na criação da personagem dentro do enredo. Ah, vamos lá. Quem nunca chamou o supervisor de filho da puta, sádicos entre nomes piores? (Nem que seja pelas costas).


O autor entrega um romance de leitura fluida. Os capítulos curtos e vezes hilários não torna o livro enfadonho, possibilitando ao leitor ler ao bel prazer. Com edição nova pela L&PM Pocket, 185 páginas e tradução de Pedro Gonzaga, o volume cumpre bem seu formato de bolso e deveria passar dias e mais dias em apreciação. 

4 Estrelas.

Por R.S.Merces

15 comentários:

  1. Ola, amei a resenha e ja entrou pra minha listinha hahahahhah

    http://www.corujaleitora.com/

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  2. Bom dia Lilian,

    Esse é mais um livro que fico conhecendo aqui no seu blog, achei interessante e a capa é bem criativa....boa dica...abraços.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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    1. O Renam sempre nos apresenta belas pérolas!

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  3. Como não li o livro, fica complicado avaliar a resenha em relação à crítica específica a essa obra, mas está muito bem escrita e bem desenvolvida. Dá pra se ter uma noção da atmosfera do livro e, pra quem já leu Bukowski, a gente reconhece de cara essa atmosfera ao mesmo tempo suja e crítica, marginal e universal. Bukowski é insuportavelmente humano. Às vezes, claro, também se repete, o que não curto muito, já que, pra mim, a literatura vai além de uma representação fiel da realidade, sempre repetitiva. Mas Bukowski, com suas sacadas e senso de humor cruel, é ótimo em vários outros aspectos. Quanto à resenha, ela é insuportavelmente bukowskiana. E aí que mora a ironia: assim como o velho safado, é o insuportável com sabor de quero mais.

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    1. Mas pela própria resenha, dá uma vontade danada de ler o livro... ao menos foi o que senti! :D

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    2. Ah, mas isso com certeza. Já vou procurar o livro pra ler, haha

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    3. Muito bom ler suas opiniões a respeito de minhas opiniões (risos). "Cartas na rua" é só o primeiro livro de Bukowski e mesmo ainda não tendo encontrado tanto da dita genialidade e citações famosas do autor é uma boa indicação literária.

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    4. Bukoski é gênio quando pincelado. No todo da obra, tem muita coisa que ainda não me desce. Mas reconheço a força do autor. Mulheres e O Amor é um cão dos diabos que já li dele e são livros bons, apesar de alguns detalhes...

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  4. Sou suspeita para comentar qualquer resenha do R.S Merces, já que sou fã incondicional das coisas que ele escreve. Porém, não poderia deixar passar essa em especial. Confesso que o autor não está na minha lista de favoritos, incomoda-me um pouco a linguagem chula e o realismo extremo. Respeito quem goste, sei que há muitos adeptos de sua escrita. Voltando a resenha, ao término da leitura confesso que me interessei em estudar e tentar compreender o mundo de Bukowski pois, a forma como foi caracterizado me soou, no mínimo, de forma intrigante, deixando com aquele "gostinho de quero mais."
    A resenha foi muito bem escrita, de maneira simples e explicativa. Com certeza já é uma de minhas favoritas.

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  5. Sou suspeita em comentar resenhas do R.S Merces, já que sou sua fã incondicional de sua escrita. Confesso que o autor do livro não está na minha lista de favoritos, incomoda-me um pouco sua linguagem chula e realismo extremo, porém, relevo a quantidade imensa de seus admiradores e os respeito. Voltando a resenha, sua maneira simples e explicativa despertaram-me certa curiosidade em conhecer o universo de Bukowski e, quem sabe entender melhor sua maneira de escrever. A resenha nos deixa curiosos e com aquele "gostinho de quero mais" irresistível para uma nova leitura. Merces nos apresenta uma linguagem muito clara em sua resenha e, com certeza já foi para minha lista de favoritas.

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    1. Fico muito feliz em ler suas palavras, Mirele. O universo de Bukowski é com certeza muito extenso, porém do pouco que já conheço e li sobre ele, em "Cartas na rua" fica claro suas narrativas com passagens de embriaguez, auto teor sexual entre outros temas.

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  6. Parece um livro bem fora do que costumo ler normalmente.
    Talvez seja legal ler algo diferente as vezes. Quero conhecer a vida do Charles :)

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  7. Meninaa, esse Henry é um safado viu?! Mas não é que eu fiquei com vontade de saber as loucuras dele?!

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  8. nosasa não co nhecia esse livro, mas parece ser super diferente e prende a leitura quero muito ler ele logo logo

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  9. essa resenha fico otima, me deixou super intusiasmada com essa leitura

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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