Um teto todo seu, Virginia Woolf




16 julho 2014


por R.S. Merces

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu; tradução de Bia Nunes de Souza, Glauco Mattoso. 1º ed. – São Paulo: Tordesilhas, 2014.


“Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção.” p.12

Essa é uma das primeiras marcantes frases que Virginia nos escreve nesse ensaio ficcional sobre as mulheres na ficção, principalmente na produção literária.

No decorrer da leitura, não pude deixar de relacionar as experiências vividas pela personagem do ensaio com as da autora J.K.Rowling. Grande nome da literatura infanto-juvenil, Rowling não conquistou rapidamente seu posto de autora conhecida e muitas de suas dificuldades foram enfrentadas por escritoras no século XIX e XX. Na biografia escrita por Sean Smith, ele relata que a obra Harry Potter era escrita em um cyber café nos dias de verão, pois Rowling não tinha ar-condicionado em casa e estava com a filha ainda bebê. Era preciso conciliar todos os papeis, de mãe, profissional e escritora.

“De fato, era uma delícia ler a escrita de um homem de novo. Era tão direta, tão franca, em comparação à escrita das mulheres... Indicava tanta liberdade de pensamento, tanta liberdade de personalidade, tanta confiança em si mesmo...” p. 140

Virginia questiona até quando a mulher tem sua liberdade de escrever com todos os afazeres que culturalmente foi lhe imposto. Busca entender a confiança masculina que lhe possibilita um texto tão liberto de personalidade. Ela cita o exemplo da escritora Jane Austen que sentada na sala escrevendo ficava atenta a qualquer suspeita de visita, alguém que pudesse denunciar sua arte ali produzida. E Rowling escrevia em um ambiente de constante barulho, cuidando da filha e talvez receosa ao futuro. É surpreendente pensar como conseguiu.

Em um salto no nosso caminho, mas um dos primeiros passos de Virginia, podemos elencar a questão da publicação e do mercado na aceitação dessas mulheres. Woolf não encontra muitas referências de escritoras do século XIX nas bibliotecas, as prateleiras estão completamente vazias. Hoje, quando entramos em uma livraria ainda temos uma supremacia de textos masculinos, entretanto as mulheres já avançaram na produção literária. Escrevem sobre suas experiências em diversas áreas, a exemplo de Martha Medeiros com seu confessar quase intimo, Cassandra Rios e Lilian Farias com um relato do amor sem medo da repressão, Thalita Rebouças com narrativas sobre as descobertas no universo juvenil... poderíamos citar muitas.

A aceitação nem sempre foi e ainda não é um mar de rosas. Rowling quando enviou seu exemplar num envelope pardo não imaginava ser aceita. Viu Harry Potter e a pedra filosofal ser publicado e seu nome ofuscado pelo mercado editorial. Joanne "Jo”, transformou-se em algo sem sexo definido, tanto que a própria conta ter recebido cartas que a consideravam um homem. Claro que não podemos somente atribuir o sucesso de Rowling a isso, mas aqui serve como um exemplo atual sobre os escritos de Woolf.

Virginia tenta entender e busca referências no seu constante fluxo de consciência, o leitor se perde, encontra novamente o caminho proposto por ela e acaba num grande emaranhado. O ensaio é escrito com todo o lirismo de Woolf.

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende de liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não só por duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres gozam de menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não tiveram a mais remota chance de escrever poesia. É por isso que dei tanta ênfase ao dinheiro e ao espaço próprio. No entanto, graças à labuta das mulheres obscuras do passado, de quem eu gostaria de saber mais, graças, curiosamente, a duas guerras – a da Crimeia, que permitiu que Florence Nightingale saísse de casa, e a Europeia, que abriu portas para a mulher comum cerca de sessenta anos mais tarde –, esses males estão prestes a ser corrigidos.” p. 151 e 152

Como terminar essa resenha? Não encontrei um norte pelo qual seguir e muito menos poderia impor ao leitor leigo de textos escritos por mulheres para que parasse tudo que estiver fazendo para apreciar o encantamento que elas podem proporcionar na literatura. Leio, constantemente, Woolf, Lessing, Munro entre outras e posso dizer que sim, sinto que estão se não libertas muito perto da liberdade intelectual.

4 comentários:

  1. Resenha impecavel, gostei dos trechos que você separou.. uma obra muito boa

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    1. Bárbara, a resenha é tão boa quanto o livro!!!!

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  2. Olá :)
    Você escreve tão bem *--* a sua resenha ficou ótima, eu concordo com tudo que você escreveu.
    Nunca tinha visto esse livro, fiquei com vontade de ler algum dia, pois deve ser muito bom. :)
    bjus...

    http://my-stories-wonderful-books.blogspot.com.br/

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  3. gostei demais da resenha, realmente parece ser brilhante

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