A Arte de Gilka Machado, por Ruth Campos




31 março 2015

A Arte de Gilka Machado e a Expressão da Sensualidade da Mulher do Inicio do Século XX – Parte I

Sempre me chamou a atenção a forma como até bem pouco tempo a arte era a única forma de expressão e voz da mulher. A meu ver, a arte, mais especificamente neste caso: a poesia se tornava um modo legitimado destas, de poderem gritar aquilo que lhes atravessava a alma e a razão, de dizer a sociedade e especialmente aos homens que elas, que nós mulheres somos tão capazes quanto qualquer outro ser e bem mais que isso, que somos dotadas de desejos e peculiaridades só nossas.
Ao conhecer um pouco da história e obra da poetisa Gilka da Costa Mello Machado, imediatamente me encantei por ela e pela sua escrita que mesmo sendo sofisticada e rebuscada pelo seu caráter histórico, também é simples, corriqueiras e pertencentes ao universo de todos nós e isso dando um colorido todo especial a suas obras.
A poetisa, que ficou conhecida apenas por Gilka Machado, nasceu no Rio de Janeiro em 1893, carregava em seu DNA o amor e o gosto pela arte. Sua mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de teatro e de rádio-teatro. Na família havia vários poetas e músicos.
Ainda bem criança, Gilka começa a escrever seus poemas e com apenas treze anos de idade ela ganha três dos primeiros prêmios oferecidos pelo concurso realizado pelo jornal A Imprensa, usando seu nome e pseudônimo Regina de Alencar onde ela expressa toda a sua insatisfação com a sus condição de mulher privada do direito a sua legitima sensualidade.
Em 1910, a poetisa se casa com o crítico de artes, jornalista e poeta Rodolfo Machado e cinco anos depois, aos 22 anos de idade, Gilka publica seu primeiro livro de poesias Cristais Partidos.
O livro tem um total de 123 paginas e é iniciado com o seguinte poema, que vai dar a tônica do livro.

Em sua obra, Gilka explora o universo do simbólico, dos aromas, perfumes de flores, incensos, fazendo analogias e jogos de palavras com as sensações, os sentimentos e a sensualidade do ser mulher.   A poetisa chama logo a atenção por romper com aquilo que vinha sendo apresentado até então por outras mulheres na literatura, no lugar de uma escrita sofrida e adocicada, Gilka mostrava um estilo livre dos pudores predominantes na época causando desconforto e estranhamento na sociedade por se tratar de uma mulher casada e “mãe de família”.
Senti com Gilka a angustia de ser mulher e ter que muitas vezes provar a minha capacidade ou mesmo existir segundo ideais alheios a minha vontade.
Ser mulher..*
[...]Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideaes...
Ser mulher, e, oh! atroz, tantalica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, preza
nos pezados grilhões dos preceitos sociaes!

A poetisa continua compondo e, em 1916, participa de uma conferencia onde apresenta uma coletânea chamada A Revelação dos Perfumes, onde chama muito a atenção pela forma como seus versos remetem a sexualidade e sensualidade da mulher, eis um trecho da obra:

[...]O perfume é um vaporoso pincel que ás vezes
vem traçar na tela da nossa memória os factos apagados
pela esponja do tempo.
Mas... caminhemos a noute. A Lua como uma
flor exótica da treva, nos ethereos jardins, abre a corolla
fria. Dormem as cousas, dormem as creaturas.
Ha por tudo a expressão intima do silencio. O luar,
qual um frouxel largo e longo, se desprende do céo
e tomba pelo solo.[...]

Em 1917, lança seu segundo livro intitulado Estados da Alma, cujo poema abaixo faz a abertura do livro, carrega seu titulo e concede seu tom.

[...] Quero me vêr no verso, intimamente,
em-sensações de gôso ou de pezer,
pois, occultar aqui Io que se sente,
é o próprio sentimento condemnar.
Que do meu sonho o branco véo se esgarce
e mostre núa, totalmente núa,
na plena graça da simpleza sua,[...]

Gilka Machado firmava-se como uma mulher a frente de seu tempo, que, por meio de seus poemas, lutava pelos direitos da mulher no campo politico social e também o seu livre acesso as representações do prazer erótico na poesia brasileira.  Identifico nessa mulher os ecos do que hoje conhecemos como movimento social feminista, que envolvia as mulheres no início do século, numa dor pungente e que como fios de uma teia invisível às impulsionava todas para o mesmo lugar passando por vias distintas deixando um grito escutado até os dias atuais e pela nova geração de mulheres como nos mostra o vídeo abaixo:


Ao conhecer um pouco mais da história de vida e da obra dessa mulher, me senti extremante tocada e imbuída do desejo de compartilhar com vocês, leitoras, um pouco do universo de Gilka Machado, mulher que além de poetisa estava à frente de seu tempo e ainda enfrentou o preconceito e o ostracismo social no qual as mulheres eram deixadas não se vergando frente aos ataques e críticas sofridas.
Até a próxima edição da coluna quando daremos sequencia a este tema. Sendo assim deixo a todos um grande abraço poético.

Sobre a colunista


Sou a Ruth Campos, tenho 46 anos, sou mãe, libriana, tenho uma cadela chamada Lady Maria da Penha, leio por que me disseram que eu conheceria o mundo inteiro nas páginas dos livros, escrevo para tirar de dentro as coisas que sinto, gosto de estar sozinha, mas não de me sentir solitária, gosto de mar mas não de praia. Curto series, filmes, música e fazer amizades.

33 comentários:

  1. Oi.
    Adorei o post.
    É muito legal conhecer uma personalidade feminina tão forte para uma época que não as aceitava. Quando leio sobre pessoas assim, sinto mais orgulho de ser mulher.
    E que belas palavras, frases fortes e com significados profundos, simplesmente adorei.

    Beijos
    Carolina
    http://aventurandosenoslivros.blogspot.com.br/

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    1. Olá Carolina, eu também sinto este orgulho ao olhar e ler Gilka, grata queria pelo carinho. :)

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  2. É tão bom ler sobre mulheres fortes assim, gratificante.

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  3. É tão bom ler sobre mulheres fortes assim, gratificante.

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  4. Bem bacana quando conhecemos personagens femininas que desde antes já lutavam por direitos e igualdade, ainda mais de uma forma tão bonita, poesia ♥ Adorei o post!

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    1. Fico feliz que tenha gostado Van, ;) a luta é grande e está apenas começando bjss

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  5. Oiii Ruth!
    Eu ADOREI seu texto!
    Ela realmente foi uma mulher brilhante!
    Um beijão

    Blog Cheiro de Livro Nacional

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    1. Oiee Daiane grata linda pelo carinho, sim ela é incrível bjss

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  6. Eu como escritora e poetisa acredito que a poesia é a porta da alma, livros de poemas são os meus favoritos, eles gritam nossos segredos para quem sabe compreende-los, belíssimo post, adorei.
    beijos

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  7. Olá.

    Que legal, adorei o post. Não conhecia, mas fiquei encantada com a forma dela ver a vida. Adoro mulheres fortes e suas poesia são maravilhosas.

    beijinhos

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    1. Olá Ana eu também gosto muito, são faróis que me guiam bjss

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  8. U.u historias com lições de vidas sempre superam, as paginas deixam algo marcante em vocês...Esse pareceu bem especial do jeito que você falou, esse assunto chama muito atenção principalmente as mulheres que vão ter exemplos de vida para superar sempre.
    Amei o post.
    Beijossss

    http://proximapagina-pp.blogspot.com.br

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    1. Gratidão Camila, Gilka não apenas soube enfrentar a sociedade mas tambem conciliar os diversos papéis a ela entregue para viver, não aceitou abrir mão de nada ... bjss

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  9. Adorei conhecer um pouco da vida dela, ela parece ser uma mulher interessante. E adorei os trechos das obras dela, e seu blog e lindo *-*

    http://geekcorderosa.blogspot.com.br/2015/03/torchwood-uma-serie-derivada-de-doctor.html

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    1. Eu agradeço o elogio ao post e ao blog em nome da Lilian Farias, espero que vc goste também das próximas edições da coluna bjss

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  10. Lilian, você traz sempre ótimos conteúdos, gosto muito do seu blog! E principalmente essa conversa, sobre a participação das mulheres nas artes, me chama muito a atenção. Você já reparou que pouquíssimas são as que recebem prêmios e menções honrosas? Muitas mulheres se inscrevem em concursos literários, por exemplo, usando pseudônimos masculinos para lutar contra o preconceito e o machismo.
    Um abraço,
    www.literasutra.com

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    1. Oi, Monalisa!
      Essa coluna é feita pela Ruth e para falar de mulheres justamente pelo que você disse... é triste a realidade, mas está na hora de mudanças!
      Obrigada pelo carinho e pelo comentário, sua linda!

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  11. Oi Ruth!!
    Q coluna top!!
    É muito legal saber mais sobre estas grandes personalidades q representam o lao feminino.
    Adorei o texto!!
    Bjos!
    Aline Praça
    www.leituravipblog.com

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    1. Valeu Aline, fico lisonjeada com o elogio, gratidão..bjss

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  12. Oi Ruth, tudo bem?

    Não conheço a Gilka, mas achei a proposta dela de inovação do perfil feminino, bem interessante. Ainda mais para a época, né? Super válido.

    beijos
    Kel
    www.porumaboaleitura.com.br

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    1. Verdade Kel, realmente na época a coisa era mais apertada e por isso me encanta a história destas mulheres ... em breve teremos mais bjs

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  13. Olá
    Não conhecia a Gika mas adorei ela ser assim pra frente e inovadora
    Adorei os textos dela por ser passar naquela época dá pra ser perceber o que ela passou pra postar isso
    Malucas por Romances

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    1. Oie Ana kkkk ela não apenas postou ela publicou vários livros e participou de várias palestras falando da mulher dentro deste universo tão limitado a mulher que ainda é a literatura.. Gilka hoje é foco inclusive de estudos acadêmicos. bjs

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  14. Que coisa mais linda, Ruth!
    Eu confesso, vergonhosamente, não sou leitora de poesias. Não aprecio o gênero, justamente por ser algo tão particular do autor. Apesar disso, adorei cada detalhe que descreveu sobre a carreira dessa poetisa. Acho muito especial quando a literatura é entendida em seu contexto pelo leitor. Parabéns.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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    1. Francine também concordo que apesar da obra ser atemporal, a época vivida e o seu contexto histórico deixa sim fortes marcas na obra. eu acho lindo tentar perceber estas coisas e a lilian qse me mata porque eu praticamente mato o eu lírico kkkkk bjsss

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  15. Oi Ruth, tudo bem?
    Não conhecia a Gika, não sou ão fã de poesia, mas pude ver que ela foi uma mulher admirável.
    Bjs

    A. Libri

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    1. Ola angélica que prazer por apresentar Gilka não apenas a você como também as demais amigas que tem respondido a este post.. até porque tudo fica tão difícil de inovar neste nosso universo não é mesmo?? bjss

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  16. OLá
    Ótimo post.
    Não conhecia Gika, mas foi interessante saber mais sobre a poetista e seus poemas, não leio muito, mas pretendo mudar esse habito, pois poesias são essenciais.

    http://realityofbooks.blogspot.com.br/
    Catharina
    Beijos

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    1. Grata Catharina e fico feliz que vc já se veja lendo mais poesias, contagiada por esta magia incrível. bjss

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  17. Oiee ^^
    Eu também não conhecia a Gilka, e mesmo não gostando muito de poesia, fiquei curiosa para ler as obras dela. Gostei bastante do seu post, me deixou curiosa para saber ainda mais da poetisa.
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Oiee Dryh em breve será publicada a segunda parte desta edição e eu espero que vc goste tanto quanto esta bjss

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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