Releituras – Inspiração Nordestina




27 maio 2015


Patativa do Assaré, mais que o Sertão, representa a alma da poesia. Uma essência dinâmica sem cabresto, que divaga pelo imaginário e dialoga com a vida. É estranho pensar que nunca fiz sequer um texto sobre o autor, sinto-me envergonhada. Pois, apesar de usá-lo com frequência em âmbito educacional, restringi seu valor apenas a oratória e alguns métodos avaliativos.

Sou uma amante incorrigível da cultura popular nordestina, logo, apreciadora da arte do mestre Antônio Gonçalves da Silva, que, além de poeta, foi compositor, cantor e repentista. A escolha do livro aconteceu enquanto ouvia ‘A triste partida’ na voz do Rei, Luiz Gonzaga; chorava com saudade do Sertão nordestino e muitas histórias lá vividas...
Em seguida, olhei para o meu blog, que encho o peito para dizer que é meu prazer e notei que faltava nele aquilo que apreciou como clássico. Patativa do Assaré sempre me serviu como ferramenta educacional, em minhas aulas sobre Sociolinguística, Variação linguística, Preconceito linguístico e primordialmente, como alimento da alma.


Inspiração Nordestina - O livro é uma reunião da obra poética de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), o Patativa do Assaré, poeta cearense, cuja obra é totalmente voltada à cultura popular nordestina em suas formas e temas. ’

Leitô, caro amigo, te juro, não nego,
Meu livro te entrego bastante acanhado
Por isso te aviso, me escute o que digo,
Leitô, caro amigo, não leia enganado.

É simpre, bem simpre, modesto e grossêro,
Não leva o tempero das arte e da escola,
É rude poeta, não sabe o que é lira,
Saluça e suspira no som da viola.



O mestre nasceu na cidade de Assaré-CE, bem longe da capital, na região do Cariri, linda, por sinal. Aos quatro anos, ficou cego de um olho devido ao sarampo. Somente aos doze anos foi à escola, por um período de seis meses. Seu ofício de agricultor não seria capaz de esmagar seu talento, muito pelo contrário, serviu de inspiração.
Seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, publicado em 1956, teve outras edições que o tempo levaria a inspiração do poeta ao mundo, ainda em vida, o homem que só estudou seis meses, ganhou o título de doutor honoris causa de vários centros Universitários pelo Brasil. Até hoje, vem sendo estudado em Universidades pelo mundo, sendo tema de dissertações e teses.


Cada poema do autor é universo particular, passível a uma longa análise em vários campos do conhecimento científico. Com o tempo, Assaré foi perdendo a visão do outro olho, contudo, seu terceiro olho, aquele regido pela alma, estava mais aberto que nunca. E seus versos deram representatividade aos marginalizados: retirantes, crianças de rua, sem-teto, sertanejos.
Ele versava tudo e conseguia transformar o pior no belo. Versava sobre as injustiças sociais, a dor do sertanejo, o amor, o preconceito linguístico, mas só um gênio para transformar dor em poesia. Se no Sertão a seca jazia, na mente do poeta era pura chuva num terreno fértil, encarrilhado de adubo.
Ele não se tornou, ele nasceu poeta, era livre de conceitos cartesianos e elitistas. Sem doutrinas, o poeta matuto. A identidade do povo sertanejo.

Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.

Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.

O homem que com poesia desfaz mitos, aqueles que delimitam ‘certo’ e ‘errado’ e que na realidade suas únicas funções é servir de instrumento de poder e controle. Ele não era um seguidor da Gramática Normativa, ele tinha seu próprio modo de fazer, criando, experimentando e sendo fiel ao seu discurso. E o nome disso não é licença poética. O nome disso é dizer que cultura e arte estão para além de normas gramaticais.


Não é um Euclides que vem para o Sertão achar que sabe o que é ser sertanejo. É o próprio sertanejo dando voz e representação. É todo um povo em forma de poesia, de poesia popular nordestina. Patativa do Assaré é uma parte importante da história do Brasil, aquela parte em que o homem marginalizado fala de sua própria história. 

15 comentários:

  1. Que lindo... a musicalidade da poesia dele é de arrepiar. A simplicidade , esse sentido de verdade, de identidade real... eu como paulista, desconheço que é essa sensação de pertencer a uma cultura e invejo muito. Povos como os Nordestinos, os gaúchos, os mineiros, têm tanto respeito pelo que é de sua terra. Por aqui parece que o que veio de fora soterrou nossas origens, e tentamos fingir que não fomos caipiras, sertanejos, bandeirantes de embornal como todos os outros... Triste.

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  2. Olá, tudo bem?

    Viva ao nordeste! \o/ QUe coisa mais linda, tanto a história de Patativa do Assaré, como suas poesias. Amei a resenha. Pois, não conhecia este encanto. Agora saio daqui com pedacinho do nordeste através da sua linda apresentação da obra e vida do autor.

    beijos

    http://www.livrosfilmeseencantos.blogspot.com.br/

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  3. A cultura nordestina, não importa o que digam, resgata a essência da arte. A linguagem não precisa ser "correta", basta servir para a expressão livre do outro de um jeito que o ouvinte/leitor possa entender. Havendo a comunicação, para mim, pouco importa a linguagem usada. Importa mesmo é ser feliz! Entender e se deixar enriquecer pelo universo alheio.
    Gostei de conhecer mais sobre Patativa do Assaré. Parabéns pela divulgação.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  4. Oláá
    Poxa, seu post ficou muito legal, foi ótimo saber mais sobre a história de Assaré e suas poesias, tudo muito diferente e bonito.

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  5. Olha eu gostei bastante do seu post.
    Principalmente das poesias, embora faz tempo que eu não leio uma.
    Gostei do video tbm...muito legal...

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-para-todos-os-garotos-que-ja.html

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  6. Oi tudo bem?
    Sou nordestina e tô com vergonha aqui por não conhecer o Patativa do Assaré!
    Gostei de através de seu post conhecer mais sobre ele e sobre suas poesias! Gostei bastante e me deixou saudosa das músicas do mestre Gonzaga :).

    Beijo :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  7. Que post lindo! Eu como nordestina fico feliz de ver aqui um texto falando de um dos autores mais representativos da cultura popular brasileira.
    Nos meus seis anos de blog, também nunca falei de Patativa. Que pena!
    O que mais me chama atenção da obra de Patativa e simplicidade para falar de coisas tão caras à humanidade. Só os gênios conseguem tocar os corações assim.

    Beijos!

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  8. Nunca li nada da cultura nordestina, mas acho demais a música de lá!
    Adorei seu post, muito enriquecedor, parabéns!
    www.apenasumvicio.com

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  9. Nossa, que incrível! Estou envergonhada por não ter conhecido esse autor antes. Acho que a cultura nordestina é uma coisa tão rica e preciosa, merece ser muito mais valorizada! A gente consegue perceber a riqueza do Patativa nos dois trechos do livro que você colocou. Fiquei encantada e com certeza vou querer saber mais não só sobre o livro, mas sobre o próprio Patativa.
    Parabéns pelo post incrível!
    Beijos
    Carol
    www.sobrevicioselivros.com

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  10. Oi Lilia, tudo bem?
    Não conhecia o Patativa, gostei de conhecer.
    Acho a cultura nordestina fascinante, tinha uma professora que me mostrou muito da cultura, mas principalmente com músicas do Luiz Gonzaga.
    Bjs

    A. Libri

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  11. Oi, Lilian!
    Sou nordestina, mas não conhecia o autor. Não costumo ler muito poesia, mas sempre que algo me chama atenção gosto de dar oportunidade e conhecer melhor e esse livro me deixou curiosa. Quando tiver oportunidade quero ler! :)

    Beijos,

    Rafa [ blog - Fascinada por Histórias]

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  12. Eu gostei muito desse post sério, principalmente por ser a voz de alguem que vive o dia a dia do sertão, e isso é realmente muito interessante. Cada vez mais eu fico encantada com os conhecimentos que eu ganho aqui.

    laoliphant.com.br

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  13. Olá, não conheço muito da cultura nodertisna mesmo meus paranetes sendo de lá
    Adorei os poemas são lindos.
    Adorei seu post
    bjs

    http://malucaspor-romances.blogspot.com.br/

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  14. Sempre tive curiosidade em conhecer o Nordeste, conheço pessoas que dizem que lá não é só a seca, mas a beleza em seus traços e agora sei que há beleza em sua literatura também, o autor parece muito simples e cativante em seus textos, gostei do que disse a respeito dele e sei que seus textos tem uma enorme qualidade! Adorei o post!

    Abraços e até!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

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  15. Olá, Lilian! Eu não costumo visitar muitos os blogs, só quando tenho mais tempo, pois gosto quando o blog tem conteúdo a oferecer, ainda mais quando nos transmite algum um pouco mais de conhecimento, seu blog esta salva na minha aba de favoritos, gosto da maneira como você escreve e também dos pots diferenciados. Eu não conheci a obra, mas achei bem interessante, ainda mais por se tratar de obra brasileira e que acima de tudo por abordar um pouco da cultura do povo.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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