Resenha – Pelas Mulheres Indígenas




11 maio 2015


Antes de iniciar esta resenha, gostaria de pedir a todas e todos que ajudem na divulgação da obra. Quem desejar saber mais, basta clicar no projeto Pelas Mulheres Indígenas. Vocês mais que ajudarão a divulgar a literatura nacional, contribuirão com o combate ao feminicídio e ajudarão no empoderamento de mulheres.
Empoderamento, segundo o Dicionário Formal, significa: Conscientização; criação; socialização do poder entre os cidadãos; conquista da condição e da capacidade de participação; inclusão social e exercício da cidadania.
Empoderamento de mulheres está fortemente ligado a autoestima e ao Poder fazer, a conquista da autonomia. ‘É quando nos libertamos da opressão de gênero e da opressão patriarcal. É assumir o controle sobre os nossos corpos e nossas vidas’, segundo Cecília M.B. Sardenberg. Do ponto de vista da meritocracia, a mulher que é violentada sexualmente, sofre violência física ou psicologia, além de outras agressões, é por merecimento. É importante desmitificar essas falácias diariamente, e a desconstrução dessa ideologia só será materializada, a partir do momento que mulheres forem empoderadas. E no caso das mulheres indígenas, ainda adentra num resgate de valorização e reconhecimento cultural, espiritual e geográfico.



Quando iniciei a leitura da obra Mulheres Indígenas, tinha noção do que encontraria, mesmo assim, meu coração sangrou. Não contive o choro em cada forte relato de mulheres que sobreviveram para contar suas histórias. E, reconheço a história das muitas mulheres que morreram lutando, para que hoje, outras pudessem falar. Escrever um livro sobre nossas histórias, também é empoderamento.
Cada capítulo conta uma história diferente, são poucas páginas e também intercala com explicações sobre o que é a violência contra mulher. O primeiro capítulo, Eu Consegui, traz a história de Jacialva, mulher indígena, que precisou fugir para outro estado por causa das agressões do marido. Passou fome, mendigou e depois de anos, pode voltar para sua aldeia e reconstruir sua vida.  

“Depois que tivemos o terceiro filho, ele se tornou violento e começou a me agredir.”

O capítulo Vida Renovada mostra a entrevista de Zenaide Karapotó Plaki-ô, que foi abandonada pelo marido e passou fome e finaliza com uma Cartilha Contra Violência e Os tipos de Violência contra a mulher.
  

E as páginas vão intercalando entre várias vozes femininas e histórias diferentes, que se encontram em relatos emocionantes, triste e cruéis. O capítulo O Fogo de 51 me deixou extremamente perturbada. Isso, por recordar, de certa maneira, a história das mulheres da minha família, deixo aqui, um trecho para melhor compreensão.

‘Foi uma coisa muito horrível para as mulheres indígenas... Houve muito estupro, até de índias grávidas e de mulheres em resguardo. Os policiais usaram elas. Judiaram delas. As nossas mulher foram muito humilhadas. Amarraram seus maridos perto delas enquanto eram usadas. Tem mulher que ainda hoje se sente envergonhada. Nós, mulheres, somos muito sofridas. Ainda hoje passa muito essa coisa de estupro. Foi lá que começou essa violência que ainda existe contra nós, mulher indígena. Quando a polícia chega nas nossas áreas é com muita agressão, agressão contra as mulheres e contra as crianças também. Agressão verbal e física.’

Mesmo diante de tanta agressão e humilhação, Maria Braz sobreviveu para relatar essa barbárie.  Muitas sobreviveram, a avó de minha avó, mulher índia, foi arrastada pelo cabelo, por um cachorro, num dia de caça, por homens brancos e cristões, violentada sexualmente mantida trancafiada numa casa para servir ao seu ‘marido’. A realidade atual não é muito diferente, a morte de muitos índios continua seguindo sem o olhar rigoroso da justiça, mas ele é ‘cega’, então justifica muita coisa...
Existe também a luta de mulheres que ficavam em casa cuidando dos filhos e trabalhando enquanto os maridos lutavam para conseguir reaver as terras roubadas pelos homens brancos.
“Tinha que procurar um jeito para me virar porque foi na época em que meu marido viajava muito para conseguir a retomada das terras Karapotó Plaki-ô, e saía sem deixar o alimento. Então, a única saída era eu trabalhar no plantio do arroz, fazer pote e sair para vender ou trocar por alimentos como farinha, feijão... Nós caminhávamos quilômetros de distância com os potes na cabeça e, quando eu chegava em casa, encontrava meus 12 filhos dormindo.”



O povo Karapotó Plaki-ô, do estado de alagoas, conseguiu reconquistar suas Terras, mas lutaram muito para serem reconhecidos como indígenas. Imagine como maçante é para o índio ter que provar que é índio... sem deixar que os rituais morram.

‘Hoje, posso dizer que sou uma mulher batalhadora, guerreira e vencedora. Estou feliz vendo a minha família crescer a cada dia. Meus filhos estão todos casados e hoje tenho 35 netos e um bisneto. Meu sonho já se realizou, pois minha família está unida e com saúde’

Infelizmente, ainda falta a compreensão a muitos brasileiros que a tradicional família brasileira é a indígena e existe uma dívida gigantesca do homem branco para com a comunidade indígena. Essa dívida tem mais de quinhentos anos e só cresce.


Mas não acaba por aí, é também preciso políticas para saúde da mulher indígena, que respeite sua cultura e crença. Atendimento diferenciado e humano, o fim da violência obstetrícia. É preciso acabar com o preconceito que a comunidade indígena sofre em sua própria terra. Há quinhentos anos, o holocausto está instalado em nossas terras contra o povo indígena e não dá mais para silenciar. O livro, em suas poucas páginas, expõe histórias como a da Pajé; a de Mayá Pataxó Hãhãhãe que descreve o ritual do plantio saudável; a cacique do povo Tupinambá, Jamopoty. As Mulheres Guerreiras.

‘Nós, mulheres, fomos fundamentais na retomada Pataxó Hãhãhãe. O que nós enfrentamos aqui foi uma guerra. Na reconquista da nossa terra, nós saíamos de nossas casas para o que der e vier. Quando a gente vai para uma retomada, a gente não sabe se volta. A gente vai arriscando a vida.’


São poucas páginas com muitas emoções, organizada pela própria comunidade indígena, nada de homem branco fazendo livro e/ou documentário e ganhando dinheiro às custas da cultura e da história desse povo. Enfim, é um livro sobre empoderamento da mulher indígena, com belas imagens, muitas histórias, cultura, luta e protagonismo. 

26 comentários:

  1. Olá Lilian,

    Esse é mais um livro que fico conhecendo aqui no seu blog, fiquei super curioso, com certeza são relatos impressionantes....abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Sensacional esse livro Lilian! Essa é uma discussão muito importante, pois muitas vezes as pessoas esquecem que os índios também sofreram e sofrem muito nesse mundo. Mulheres indígenas então, nem se fala.
    Vi que o próprio site Mulheres Indígenas disponibilizou o livro para download e já baixei o meu. Vai enriquecer a leitura que estou fazendo agora de Chimamanda Ngozi Adichie, Sejamos Todos Feministas.

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  3. Não conhecia mas achei muito bacana a proposta do livro, incrível!
    Co. Certeza é um livro que vou querer ter na minha estante, obrigada pela dica,
    Bjus

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  4. É tão triste essa realidade não é mesmo? Toda essa violência e ainda por cima a destruição de uma cultura. Eu realmente acho muito injusto isso.
    E outra, policiais? Cara, eu já detesto os policiais por natureza, quer alguém que abusa do poder, são eles. E eu já me "tretei" mais de uma vez com policial. E saber de mais esses fatos me deixa enjoada.
    Espero que esse livro possa mudar o pensamento de muitas pessoas!

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  5. Amei a sua resenha, eu já tinha lido a sua divulgação sobre o mesmo, e já havia percebido um pouco do que o livro falava, mas lendo a sua resenha, eu compreendi o tamanho da importancia deste livro, posso dizer que é de extrema importância para nossa sociedade atual, para que ela abra os olhos e veja como realmente é! Adorei a sua resenha, parabéns!

    Abraços e até!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

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  6. Olá, Lilian
    É com muita aflição que deixo esse comentário, você chorou ao ler o livro, e eu a esta resenha. Confesso que sou muito emotiva, principalmente com esse assunto, nem sei o que dizer.
    É realmente muito triste os relatos dessas mulheres, eu não leria este livro, apesar de seu teor de esperança e conscientização. São relatos fortes, mas que por trás deles há um objetivo, o de empoderamento, como você disse. Sigo combatendo aos poucos esses sentimentos e certos pensamentos alheios a respeito das mulheres.
    Um abraço .-.

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  7. Oi Lilian, tudo bem?
    Gostei muito da sua resenha e principalmente do tema desse livro! Ainda não o conhecia mais achei muito bacana um livro contando sobre essas mulheres dessa comunidade indígena!
    Deve ser um livro um pouco difícil de ler apesar de curto, pois deve ser bem triste acompanhar esses relato de sofrimentos dessas mulheres.

    Beijão :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  8. Que coisa linda!
    Mesmo sendo homem, sempre defendi o feminismo e o empoderamento feminino. Mesmo a igualdade entre os sexos parecer algo tão banal e um direito já conquistado, não é difícil perceber o quando as pessoas pouco se importam.

    Nunca tinha ouvido falar desse livro, e fiquei muito interessado.

    Adorei a resenha,
    Beijos

    http://www.lanaminhaestante.com

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  9. Oi Lilian, não conhecia o livro, e já divulguei suas resenhas nas redes sociais. Este livro deve ser impactante, um soco no estômago. Espero que ajude as pessoas a tomarem consciência.
    Bjs, Rose.

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  10. Oi, Lilian, eu já tô com meu exemplar em ebook e em breve farei a leitura
    e farei a minha parte divulgando essa causa que merece sem dúvida se abraçada.
    Parabéns por estar sempre a frente nessa luta pelo empoderamento feminino, ou melhor humano num geral.
    Beijos
    Conversas de Alcova ❤

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  11. Oi, Lilian!
    Que triste é entrar em contato com essa realidade tão cruel e saber que ela ainda se perpetua. Vivemos uma cultura do abuso verbal e físico, da intolerância e do desrespeito. Fazer a nossa parte, seja na divulgação ou na denúncia, é o mínimo para combater a violência contra a mulher. Achei o livro muito interessante e importante para problematizar a violência cometida contra a mulher indígena e, também, para levar o leitor a refletir sobre a violência doméstica que acontece em qualquer cultura.

    Beijos, flor!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  12. Nossa que histórias marcantes.
    Como deve ser violentada por alguém que vc teria quer ser protegida.
    Mecheu comigo mesmo essa resenha.
    Violência contra a mulher é um caso sério e com certeza vou querer saber mais sobre esse pojeto. Acho que seu eu ler vou chorar tbm. Quase chorei com esses quotes. Adorei sua resenha

    http://malucaspor-romances.blogspot.com.br/

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  13. Leria este livro pelo contexto social mais do que pela história em si. Não é muito o meu tipo de leitura, mas eu gostei da ideia de poder conhecer mais as mulheres indígenas e entender como é a vida delas no mundo de hoje.

    http://laoliphant.com.br/

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  14. Quando você fez a divulgação desse livro, eu falei que achava que ele é aquele tipo de leitura que arrepiar a alma. Agora com a resenha vem minha constatação.

    Na minha inocência (ou fechamento de olhos. Coisa de quem não quer se envolver com o problema) nunca imaginei que haveria violência sexual do branco com mulheres indignas. Foi o que mais me chocou. Pois a gente imagina que estupradores são seres com problemas psicológicos graves. Saber que homens que deveriam proteger fazer esse tipo de coisa e depois vão para casa como se nada tivesse acontecido. É um horror.

    Vou ajuda na divulgação.
    Beijos!

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  15. Olááá
    Ouvi falar sobre o livro recentemente e parecer ser muito interessante conhecer essa realidade tão triste mas tão presente, muito obrigada pela dica e seu post está muito bonito.

    http://realityofbooks.blogspot.com.br/
    Beijos

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  16. Oi Lilian, tudo bem?
    Não é o tipo de livro que costumo ler, mas mesmo assim é fantástico.
    É muito triste saber o que essas mulheres sofreram e tenho esperança que um dia isso mude.
    Bjs

    A. Libri

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  17. Olha eu gostei bastante de tudo que você abordou sobre o livro.
    Achei sinceramente interessante, mas não sei se pegaria para ler, até porque não faz muito meu gênero, mas gostei da sua abordagem. De sua explicação e tudo mais. Espero poder ler um dia que tiver mais tranquila com as minhas leituras. Adorei seu desenvolvimento. Continue assim =]

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-uma-vida-para-sempre.html

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-o-frances-que-caiu-do-ceu.html

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  18. Olá Lilian.

    Que incrível essa leitura. Que incrível esse livro criado pela comunidade. Afinal só vemos quase livros criados pelo "branco", ou seja com sua visão do que é ser um indígena ainda mais no nosso país e ainda mais sendo mulher.
    Uma grande iniciativa.
    Imagino que a leitura deva mesmo ser muito tocante.

    Beijos
    Fer
    http://www.matoporlivros.com.br/

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  19. Oi. Não conhecia esse livro, mas eu com certeza leria pois a resenha mexeu muito comigo

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  20. Uau, o livro parece realmente algo que gostaria de ler, apesar de não ser meu estilo, não o conhecia mas com toda certeza o tema abordado me deixou instigada a ler! ótima resenha ^^
    www.muchdreamer.blogspot.com.br

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  21. Oii, tudo bem?

    Nossa que forte e interessante. Fiquei encantada com o projeto, e ao mesmo tempo triste por este tipo de coisas acontecer. Fico muito emocionada e fragilidade com casos de violência contra mulher, tive uma vizinha sofreu com isso, e os gritos del, doía em mim. Que resenha maravilhosa, com certeza vou ler sim.

    Um grande beijo.

    http://www.livrosfilmeseencantos.blogspot.com.br/

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  22. Lilian, estou encantada com a sua resenha e impactada com o livro mesmo antes de ler. Infelizmente, é a triste realidade do nosso país que ainda não olha a comunidade indígena como deveria, especialmente as Mulheres. Se formos pararmos para pensar podemos constatar que as inúmeras agressões sofridas por mulheres hoje vem de muitos tempos atrás e permeia até os dias de hoje. A questão do empoderamento das mulheres indígenas é um assunto que cabe discussão pelas autoridades e pessoas que tenham voz ativa e que possam falar claramente sobre o tema. Nossa cultura é cega e falha ao fechar os olhos para essa e outras questões relacionadas ao povo indígena que ficam fadados ao esquecimento e abertos para a continuação de velhos erros. Fico feliz que este livro/projeto está sendo divulgado. Quero ler e assim poder divulgar também.
    Um grande beijo
    Daniela Correa
    Http://danielacorrea2011.wordpress.com

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  23. Vi uma resenha desse livro essa semana e eu gostei muito da ideia. A gente sabe pouco sobre a vida delas, é bem interessante alguém ter criado um livro sobre isso!
    www.belapsicose.com

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  24. Oi,
    Ainda não conhecia a obra, visto que tem toda uma abordagem bem importante pretendo divulgar no blog também, com toda certeza as histórias encontradas aqui são repletas de emoção, acabamos conhecendo um outro ponto da história.
    Dica anotada, parabéns pelo post.
    Beijos



    Mari - Stories And Advice

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  25. Olá
    Esse tema de empoderamento, protagonismo e defesa dos direitoas da mulher me interessa muitissimo,seja ela indigena ou não é importante combater as expressões da questão social. Moro no Mato grosso do sul em uma cidade com varias audeias indigenas, kaiowa, bororo e Jaguapiru e achei muito interessante essa sua iniciativa. Quero muito conhecer este projeto.

    http://leiturasdamary.blogspot.com.br/

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  26. Ola Lilian, tudo bem?
    Eu não me interessei pelo tema do livro e a resenha não me fez mudar de opinião quanto a obra, mas achei bem bacana o esforço que as autoras tiveram em trazer um livro com críticas bem notáveis e dando relatos reais, esse na minha opinião é um dos pontos fortes do livro,

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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