Swing: Eu,Tu... Eles... - Um estudo antropológico sobre a prática do Swing




06 agosto 2015




O swing (troca de casais) é o ponto de partida para reflexões acerca de valores, comportamentos e modelos conjugais, sexuais e de gênero predominantes há séculos nas sociedades ocidentais, mas, atualmente, em crise profunda. O livro Swing: Eu, Tu... Eles é o resultado de dois anos e meio de pesquisa, trabalho de campo realizado em clubes de swing em Portugal e entrevistas com casais adeptos da prática. Trata-se de um livro que mostra diferentes reflexões e fenômenos socioculturais que influenciam diretamente a nossa maneira de lidar com aspectos da vida afetivo-sexual.




Escrito por Maria Silvério, Swing: Eu, Tu... Eles, publicado pela Chiado Editora aborda o 'universo' da prática de swing, de acordo com uma pesquisa realizada pela autora em clubes noturnos de Portugal, por meio de uma pesquisa de campo, depoimentos e muita observação do comportamento dos frequentadores destes locais e praticantes assíduos desse estilo de vida que é permeado de tabus e preconceitos...


Dividido em cinco partes, ela dá início à obra discorrendo sobre o início de sua pesquisa, quando precisou investigar os endereços desses locais na internet e sua dificuldade em consegui-lo, devido ao extremo sigilo desses ambientes em preservar a identidade de seus clientes/membros. Com a ajuda de seu namorado, ela consegue alguns contatos, através de poucas informações na internet e finalmente visita um desses locais. 

Ainda na parte inicial do livro, a antropóloga nos apresenta uma ideia do espaço físico de um clube de swing, o perfil dos membros e os valores que costumam pagar para entrar e usufruir do espaço, as investidas por telefone e pessoalmente pra conseguir escrever o trabalho, e algumas tentativas [frustradas] por parte de alguns indivíduos de convidá-la a participar das relações sexuais. Em momento algum ela foi para a parte prática da pesquisa, e teve receio de dizer seu propósito por medo que fechassem as portas para ela e os contatos que tinha conseguido se sentissem vigiados, usados ou coisa do tipo...

Silvério também nos apresenta as regras do swing, desmistificando alguns pré-conceitos formados  pela sociedade, que apontam a prática como algo completamente desorganizado e sem limites. Existe todo um conjunto de princípios a seguir para quem se aventura nesses clubes. O principal deles é saber ouvir um 'não' de algum casal ou single [solteiros que frequentam o ambiente], sem insistir na abordagem. Ela também fala sobre a prática aqui no Brasil, fazendo vários comparativos entre os dois países, e conhecemos as diferenças entre os espaços físicos e casais adeptos daqui e de Portugal. 

Uma parte do livro é toda dedicada à compreensão da origem dos relacionamentos conjugais, a fim de - talvez - explicar/esclarecer o fenômeno na contemporaneidade. O foco swing não tem tanta ênfase nesses capítulos, e a abordagem se concentra em questões como união familiar, amor/paixão, industrialização e sexualidade, patriarcalismo, feminismo, aspectos patológicos estudados ao longo dos anos para denominar práticas sexuais que saiam da linha 'sexo para procriar' e convergem no campo da 'perversão ou desvio de conduta sexual', psicanálise, entre outros pontos interessantes acerca do casamento/sexo/religiosidade. 

Destacam-se também os capítulos falando sobre a liberdade sexual, e como ela se encaixa nos estereótipos de gênero. Ela referencia nomes importantes no campo da psicologia e sociologia, como Sigmund Freud, Michel Foucault e Zigmunt Bauman, faz paralelos com opiniões divergentes de vários antropólogos sem dar um diagnostico de quem está 'certo ou errado', fazendo com que o leitor enxergue mais de uma perspectiva do assunto em pauta e possa tirar suas próprias conclusões...

Voltando ao swing, ela mantém no anonimato as pessoas que contribuíram com sua pesquisa ao longo das semanas, preservando suas identidades, atribuindo-lhes nomes fictícios no decorrer do livro. Conceitos como homossexualidade, ciúme e infidelidade são citados nos capítulos finais, e servem como uma forma de entendermos os casais que se iniciam nessa prática sexual. 

Em suma, o livro se revelou um excelente estudo antropológico sobre a prática do swing, trazendo características pertinentes a esse estilo de vida, satisfazendo os curiosos acerca do tema e aprofundando o conhecimento de quem já pesquisa algo relacionado à sexualidade. Como ponto negativo, a única coisa que me incomodou um pouco ao longo da obra foram alguns erros ortográficos, mas nenhum deles comprometeu a leitura, e são bem poucos espalhados ao longo de quase 300 páginas... Aos leigos e estudiosos da história da sexualidade, eis uma boa e interessante leitura...  Minha classificação do livro é 4 estrelas!



10 comentários:

  1. Essa temática de livro não me agrada
    Mas eu gostei muito da sua resenha, pude saber claramente pontos importantes do livro no qual é necessário ser mencionado, parabéns!
    Beijos
    Myself here

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  2. Nossa, Val, arrasou. Eu não achava que este livro era assim tão profundo, um estudo antropológico, cheio de dados. Acho que eu não faria ideia de como resenhar algo assim. Você arrebenta.

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  3. Oi Val, tudo bem?
    Excelente resenha como sempre, mas eu particularmente não me interesso pelo livro...
    Bjs

    A. Libri

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  4. Uau!!! Incrível!! São raras as vezes que leio uma resenha tão completa, sobre um livro que nunca pensei que fosse tão profundo. Um assunto abordado pela autora com tanta clareza, apesar de ser um tema ainda polêmico.
    Sempre para minhas leituras busco algo mais leve, então essa tematica não me agradaria, mas para aqueles que tem curiosidade de conhecer melhor esse universo do swing, com toda certeza curtiria, correto?? =/
    Bjs Val!!

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  5. Olá!!! Quero dizer que me interessei hahaha
    Ideia interessante, essa, não? Bem, antes swing do que bsdm(?), que já deu o que tinha que dar nos livros. Beijos!

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  6. Valéria, achei o estudo bem interessante, porém não é o tipo de leitura que chama minha atenção, então eu passo a dica.

    Lisossomos

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  7. Olá!
    Acredito que esse livro não é para mim. Sei lá.. eu considero esse tipo de coisa muito pessoal e seria como se eu quisesse entender os motivos que levam a pessoa a tal pratica. Cada um no seu quadrado. Não tenho necessidade de entender nada além do respeito mútuo.

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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  8. Olá Kris,
    Essa parece ser uma leitura bem bacana, principalmente por não ser um assunto abordado comumente na sociedade, mas que acontece, então não deve ser ignorado. Já vi algumas reportagens sobre o assunto e abordagens sobre em séries e filmes também, mas ainda não tive a oportunidade de me aprofundar. Talvez esse livro seja o ideal para tal!

    Beijos,
    Miss Sorrisos Blog
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  9. Oie!!
    Bom, esse é literalmente um livro que não faz o meu estilo.
    Me pareceu mais uma especie de documentário e apesar de gostar muito de romances eróticos não sei se leria este.
    ;**

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  10. Oii, tudo bem?
    Já vi eu algum programa de tv algo do tipo, e realmente são bem sigilosos para manter a identidade dos membros protegidas, eu acho bem interessante temas como estes, mesmo sendo polêmicos, não sei porque ainda é tão difícil deixar que o pessoal vivam a vida como querem. Com certeza quero ler.

    Beijos da Jéss ♥
    Brilliant Diamond | Fan Page

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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