Resenha – Inventário




15 janeiro 2016

O Inventário, de Elisa Lispector, é o segundo livros de contos da autora. Minha versão, comprada no sebo, é de 1977, pela Editora Rocco.  Nesta reunião de 14 contos, a autora retrata o cotidiano com um tom introspectivo, capaz de fazer o leitor refletir dias a fio num único parágrafo.


Dando a última palavra à vida, Elisa recria sua linguagem tal como um pêndulo,  e que vai da expansão à retração: “Sobretudo que só com o nascimento do verbo se humaniza a criatura”, ao retratar o Medo, título do primeiro conto, descarrega um turbilhão de emoções sobre a própria existência, “Viver é tão perigoso, e tão difícil, prosseguiu, que só por um milagre atravessamos um dia e alcançamos o dia seguinte.”, na única certeza que nascemos para morrer, suas palavras se movimentam na pulsão do coração, finalizando o conto com um parágrafo longo e de pouca pontuação, dando a sensação de pânico e adrenalina. Tudo não passa da introspecção de uma mulher à espera do diagnóstico médico.

Prosseguindo no mesmo ritmo, Insônia dá espaço a um sonho acordado, na mescla de real e imaginário, o texto, assim como todo o livro, é um órgão vivo que se conecta com o leitor em um ambiente conhecido por nós, confundindo o próprio Cronos. Entre devaneios e badaladas inaudíveis do relógio, no silêncio do tempo, eis que surge a sonoridade do pensamento: “minha necessidade imediata de saber por que, sendo o homem o mensageiro de Deus, é também o anjo destruidor”, dando ênfase a lógica do universo de, organização, desorganização, reestruturação e nova organização.
A Secreta Beleza nasce do conectar-se com a natureza, da relação com o mar, que aliás, durante todo o livro o mar é um forte personagem, natural, visto a importância da representação do inconsciente.

Só muito devagar fui saindo da inconsciência do sono. Ainda de olhos fechados, tentei reconstruir a imagem do pássaro que ia diluindo como se esvanecem todos os sonhos, para afinal, compreender que os instantes de verdadeira beleza são escassos e efêmeros, e tão secretos e sutis que não se os pode traduzir, muito menos capitar.

Um exemplo singelo que constrói a complexidade das quatro páginas que faz uma conexão com a beleza, mas, quando quase atinge o ápice de alcança-la, para depois toma-la como posse e coloca-la numa gaiola, a lógica da natureza, o despertar do sono, rompe a lógica do egoísmo humano.

E A Despedida discorre das ações simples, a exemplo de sentir o vento no rosto.  Como o sofrimento de uma doença pode ameaçar a presença do sutil, sofrimento que eleva e dignifica a essência. Assim é a singularidade do homem, um organismo vivo que tenta se desvincular de sua natureza, para vir o caos e dar emergência à própria vida.  

E dando continuidade à rede, ressignificando a ideia de Capra (1996), ou à teia literária, não poderia, depois de a Despedida, faltar o Amor. Mas o amor daqueles que não são amados, “se ela nunca tivera um amor que frutificasse ao menos num pequeno e cálido sentimento capaz de aplacar a amargura que sempre lhe vedara todos os caminhos, e se traía em seus modos bruscos, nos lábios constantemente contraídos, no olhar de mágoa (...)

Nasce Uma Nova Sensação de Realidade, que enterra o passado e vivencia um novo presente, restaura: “Não, eu não quero mais ser o meu passado. Quero ser o meu futuro”. Experimenta uma nova realidade, uma nova verdade do ser, saindo do estado de morte, uma autopoiese, a reconstrução dos fios que tecem a vida, “Como são sinuosos e imprevisíveis os caminhos da vida, e quantas voltas damos até alcançar a mínima verdade do ser, pensou.

E as palavras vão tecendo um leitor também introspectivo, “Há palavras das quais é impossível retroceder. São fatais. Como a vida. Como a morte.”, trecho do conto A Terra é azul. Sua linguagem transmite sentimentos únicos e, por vezes, palpáveis. É um sistema aberto que se equilibra entre a agressividade e a sutileza. Criando um fenômeno holográfico, em que seus contos se aglomeram em um todo maior, a pungência do equilíbrio que desmascara a face concreta do homem e abre espaço à resiliência do universo, tal qual o Big crunch.

Por Lilian Farias

32 comentários:

  1. Não sou muito chegado a contos, mas as histórias do livro parecem ser legais.

    Frases, Trechos e Pensamentos

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  2. Oi Lilian, tudo bem?
    Não conhecia esse livro de contos e nem sua autora.
    Gosto de livros de contos, mas as temáticas desses não me interessaram muito, por isso provavelmente eu não leria.
    Estou a procura de uma leitura mais leve e menos reflexiva!

    Beijos :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  3. Oiii

    Nossa que legal eu não conhecia o livro, mas achei interessante, vou da uma pesquisada e ver se compro.
    Obrigada pela dica.

    Beijos
    Books And Carpe Diem

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  4. Olá!
    Não conhecia essa escritora e gostei muito do quote que escolheu para sua resenha. Vou procurar esse livro para ler.

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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  5. Eu gosto de contos. Me interesse por alguns citados e dos quotes que selecionou gostei bastante deste "Há palavras das quais é impossível retroceder. São fatais. Como a vida. Como a morte"

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  6. Lilian, desde que vi a postagem sobre Elisa fiquei muito curiosa em ler algo dela e por tudo que você falou desses contos sei que me apaixonaria pela escrita dela.
    É uma raridade essa obra que você tem, espero conseguir lê-la.

    Lisossomos

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  7. Não conhecia esse livro, mas sua resenha, como sempre, me encantou.
    Adorei
    Beijos

    http://myself-here1.blogspot.com.br/

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  8. Oii Lilian <33
    Eu posso dizer assim, eu me agradei bastante desse livro, são contos e eu adoro. Mas, lendo a sua resenha é possível perceber que nos contos é transmitida a ideia de muitas vezes dar valor para as coisas simples que a vida nos proporciona, como vento no rosto.
    Beijão
    segredosliterarios-oficial.blogspot.com

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  9. Olá; ainda não conhecia a autora nem o livro. Gosto de livros de contos, e pelo que você disse na sua resenha, a autora consegue usar as palavras para transmitir sensações e sentimentos para o leitor, o que me agrada muito.

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  10. Nossa,eu amo contos!
    Esse livro parece ser muito especial,e eu ainda não tinha visto falar dele ainda.
    Adorei sua resenha,me fez querer ter essa obra.
    Bjo

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  11. Não conhecia o livro e para quem gosta do genero para ser muito bom, eu gosto de contos e leria de boa, porem certeza que acharia uma leitura um tanto dificil, mas aceito o desafio :DD
    http://marifriend.blogspot.com.br/

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  12. A irmã é tão famosa e Elisa não é tão conhecida do grande público. Eu só a conhecia na universidade. É muito legal ver o seu blog apresentando o trabalho dessa grande mulher. Acho que o talento era mesmo de família.
    Pelo o que você pontou, o livro parece ser lindo, com contos que trazem a essência da própria autora.

    Beijos!

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  13. Ótimo postagem!
    Ler e resenhar coletâneas de contos e/ou poesias é complicado, pois nem todos gostam dos estilo. Você soube trabalhar bem a resenha, deixando-a interessante ao apresentar o livro conto por conto. Adoro autores que trabalham seus contos como se estivessem desnudando a humanidade. Ficou show!
    Até + ver! Nu.
    As 1001 Nuccias | Curtiu?

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  14. Oi Lilian!
    Ótima resenha, demonstrou muito bem toda profundidade que o livro parece carregar! As palavras da autora parecem ser bem profundas, e apesar de eu até ler contos, no momento, este é um livro que eu não leria, por conta dessa profundidade mesmo. Não me encontro num momento para isso. rs

    beijo
    http://pobreleitora.blogspot.com.br/

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  15. Oi Lilian.

    Adoro ler contos, mas não conhecia este. Já anotei a dica e quero ver se consigo adquirir ele logo para ler. Pois gostei muito do tema.

    Bjos

    http://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com.br/

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  16. Olá!

    Adoro livros de contos, mas esses não me chamaram a atenção. Mas parecem ser bem escritos. Eu não conhecia o livro nem a autora, por acaso ela é parente da Clarice?

    resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

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  17. Oiiie
    Livros de contos são sempre bons para dar uma pausa nas leituras mais longas e quando queremos algo mais rápida, sua resenha está ótima e parece ser um livro diferente e interessante

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  18. Olá, Lilian!
    Adoro contos *-* São ótimos, fáceis e rápidos de serem lidos. Fiquei bastante curiosa quanto a esses e eles parecem muito interessantes! Adorei sua resenha!
    Beijos, Garota Vermelha
    www.livrosdagarotavermelha.wordpress.com

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  19. Olá!!!
    Eu aprendi a gostar de contos com o blog e as leituras normalmente são agradaveis. Eu adorei saber um pouco mais dessa obra, já que não conhecia o livro. o ritmo parece ser bem calmo e é muito legal isso pois é bem diferente do que eu estou lendo :)

    Beijinhos

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  20. Oi, tudo bem?
    Sem dúvida um livro que merece ser lido! Só que no momento estou evitando livros que me fazem refletir mais do que já tenho feito. E essa edição de 1977 deve ser linda, e amo comprar livros em sebo!
    Bjs

    http://a-libri.blogspot.com.br

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  21. Lilian, antes de mais nada parabéns pela forma singular de escrever. Textos assim como o seu me fazem perceber o quanto você leva a sério seu blog e o trabalho que vc faz. Toda uma preocupação com a utilização das palavras e da mensagem que vc está transmitindo. Enfim gostei de saber sua opinião sobre esse livro antigo de contos. Não conhecia a Elisa Lispector; ela tem algo a ver com a Clarice Lispector!!??? Como vc falou que ela retrata o cotidiano de forma introspectiva lembrei de alguns textos da Clarice que li.
    Achei interessante essa questão dos contos serem interligados passando uma mensagem final da personagem em questão. Enfim amei a dica!!!

    Leituras, vida e paixões!!!

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  22. Olá flor!
    Querida, amei tua resenha!
    Você contou com tanta profundidade desse livro da editora Rocco que estou pensando em ler ele logo agora. Antigamente tinha um certo problemas com contos, mas hoje costumo ler muitos deles. Já tinha ouvido falar desse livro através dos meus pais, porém nunca tive o real interesse como tenho agora.

    - Garotinha Adolescente!

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  23. Bem, os contos possuem pontos interessantes, principalmente para quem gosta de histórias curtas, mas não senti curiosidade em ler este livro, pois não é exatamente o que eu procuro. No entanto, gostei de conhecer Inventário, nunca tinha lido nada a respeito desse livro.

    http://www.daimaginacaoaescrita.com/

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  24. Nunca tinha ouvido falar dessa autora de de seus livros! Parece ser bom, mas também não sei se é o tipo de livro que eu leria no momento, já que procuro por algo mais leve e que me distraia, rs.

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  25. Oie
    Embora que contos não seja um gênero que leio muito... Achei interessante o livro a qual abordou. Os detalhes de cada conto que o autor escreve, carrega algo profundo e que nos faz refletir a dar valor as pequenas coisas... E é verdade... No mundo a qual vivemos, as pessoas acabam não valorizando o pouco que possui, e sim, querem sempre mais e mais... Fazendo com que essa essência se perca
    Beijos
    Ariana Silva
    http://ariabooks.blogspot.com.br/

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  26. Olá, gostei muito desse resenha, de vez em quando eu separo livros mais maduros e reflexivos, é bom quando o livro nos traz uma linha de pensamento que toca o leitor, isso difere um pouco dos livros que estão saturados sempre com mesma proposta para segurar o leitor, gosto de livros inusitados. Dica anotada.

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  27. Oiie,

    Gente, você está mesmo com uma relíquia nas mãos, 1977 O.o deve ser muito lindo. Não sou chegada em contos, mas leio, e adoro quando eles trazem pensamentos que tocam o leitor e consegue segurar o leitor.
    Cuide bem dessa relíquia.

    Bjs

    Amantes da Leitura

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  28. Eu não sou muito de livros de contos, por isso não conhecia o livro. Mesmo não curtindo muito, gostei dos pontos que você comentou em sua resenha e ela me deixou interessada em conhecer o trabalho da autora. Obrigada pela indicação :)
    Beijinhos,
    Lica
    amoreselivros.com.br

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  29. Olá Lilian...
    Muito boa a sua resenha, gostei muito do modo que fez para nos passar um pouco de cada conto. Porém, eu tenho um sério problema com esse tipo de texto, por isso não sei se o leria.

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  30. Olá.
    Tudo bom?
    Nossa versão bem antiga essa sua, mas voltando a resenha, eu não sou muito fã de livros de contos, mas achei esse bem interessante e vou procurar por ele.
    Dica anotada.
    Beijos

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  31. Olá!
    Confesso que não conhecia a autora. Os seu contos parecem ser bem reflexivos e emocionantes. Não sei se leria, mas gostei de conhecer.
    Sua resenha está ótima.
    Beijinhos!
    http://www.eraumavezolivro.com.br/

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  32. Olá

    Não conhecia o livro ou a autora, gosto de contos, na verdade eu amo, gostei da temática desses, vou anotar a dica, vou ver se não acho num sebo também.

    Bjss

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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