Resenha - Destino: Poesia




03 julho 2016



Ao receber a visita do carteiro me trazendo alguns títulos da Editora Record, não resisti a beleza do livro Destino: Poesia e devorei seu conteúdo pelas duas horas seguintes, em que - compenetrada -  me entreguei a sua apreciação...

Organizado por Italo Moriconi, trata-se de uma coletânea de grandes poemas dos grandes nomes da poesia marginal - ou Geração Mimiógrafo - que produziu um grande tesouro na década de 1970 para a literatura nacional... Em meio a censura da ditadura militar, esses versos serviam, muitas vezes, como resistência ao movimento cultural do país naqueles anos de chumbo...

Ana Cristina César, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão ilustram as 160 páginas de Destino: Poesia com o melhor de suas obras. Os anos 70 foram tempos de contracultura e comportamento transgressor, por vezes chamado marginal. As convenções sociais e instituições religiosas eram afrontadas por jovens 'a frente de seu tempo'. Poetas que surgiram nesse período, confeccionavam seus livros de forma artesanal e vendiam de porta em porta, nos teatros, bares e ruas. Onde os encontros e interações sociais ocorriam. Os cinco poetas reunidos nesse livro estão mortos, dois deles tiraram a própria vida, no auge de suas produções literárias. Viveram e queimaram intensamente: um sonho utópico e afrontador por meio de suas composições estético-literárias.

Torquato Neto foi um anjo maldito suicida que marcou a década de 1970. Ana Cristina - ou Ana C. para os mais íntimos de sua obra - se joga do apartamento em que morava com os pais no início da década de 80. Morto o corpo, sua poesia vive. E serve de influência/referência para poetas mulheres de nossa geração... Salomão foi o último da lista a falecer. Paulo Leminski nos deixou em 1989. Antônio Carlos, o Cacaso - partiu dois anos antes do curitibano Leminski. Mas seus versos foram imortalizados, e nos chegam em fragmentos por meio dessa antologia publicada pela José Olympio Editora.

A poesia lírica de Ana C. et all compilada aqui é capaz de encantar o leitor habituado aos versos e também aos iniciantes. Basta ter sensibilidade ao toque invisível das palavras tão intensamente entremeadas, cadenciadas e viscerais. Acidez, ironia e desencanto se mesclam nas linhas escritas. Um paraíso de versos que venceram o tempo...

"A poesia não - telegráfica - ocasional -
me deixe sola - solta -
à mercê do impossível -
- do real."Ana C.

"Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio."
Cacaso.

"morreu o periquito
a gaiola vazia
esconde um grito."
Leminski.

"eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível."
Torquato Neto.

"Entra mar adentro
Deixa o marulho das ondas lhe envolver
Até apagar o blá-blá-blá humano.
Maré que puxa com força, hoje. É a luz cheia, talvez..
As retinas correm a cadeia de montanhas que circunda a praia."
Waly Salomão.




16 comentários:

  1. Oi Maria!
    Adorei sua resenha, você foi direto ao ponto e conseguiu me fazer desejar uma leitura que definitivamente não faz meu estilo. Amei esses versos que você selecionou para o post e espero poder ler esse livro muito em breve :)

    Abraços
    As Crônicas de um livro Viajante

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  2. Ontem mesmo eu estava vendo uma matéria na tv sobre Ana C., que falava sobre o período de repressão/depressão e o quanto esses autores foram transgressores. De todos os autores citados, acho que Paulo Leminski é o mais conhecido popularmente falando. Eu mesmo fiz um trabalho na universidade da obra Catatau.

    Beijos!

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  3. Oii Maria, como vai?
    Creio que seja até uma leitura forte diante de tantos nomes renomados e de que certa forma fizeram a diferença para nós leitores. Quando vi a capa não sabia que a obra trazia tanto conhecimento assim,parabéns pela resenha. Dica anotada.
    Beijinhos

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  4. Olá!
    Mesmo não sendo um gênero literário que costumo ler, sua resenha me deixou curiosa a respeito desse livro.
    Eu ainda não o conhecia, mas esses versos me encantaram, principalmente:
    "Minha pátria é minha infância:
    Por isso vivo no exílio."
    Dica mais do que anotada.
    Beijos!

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  5. Valéria, não sou muito adepta de poesia, mas gosto de ler as produções dessa geração.
    Curti muito o estilo e acho que também me encantaria.

    Lisossomos

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  6. Olá, tudo bem?
    Adorei sua resenha, muito bem feita e gostei muito de ler sobre alguns autores que estavam presentes na obra.
    Não sou muito fã de livros de poesias, por isto não tenho muito interesse em ler este livro.
    Beijos, Larissa (laoliphant.com.br)

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  7. Oiii
    Nesses últimos tempos, tenho visto muitos livros bons de poesia. Esse que você citou, me deixou morrendo de vontade de ler rs
    Amei sua resenha. Livro incluído na minha lista.

    Beijos

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  8. Este livro parece ser incrível, pois só tem autores maravilhosos. Estou curiosa!!!
    Beijos
    http://blog-myselfhere.blogspot.com.br/

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  9. Oie
    parabéns pela resenha, até eu que não curto muito o gênero fiquei curiosa, parece ser uma leitura bem interessante, boa dica

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  10. Olá, tudo bem?

    Deve ser uma leitura maravilhosa, por reunir esta galera toda. Dos citados já li Paulo Leminski e gostei muito.Adorei a dica e foi anotada aqui.

    Beijos!

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  11. Ótima resenha! Maaaaaas, infelizmente não é meu gênero preferido, sei que não me arriscaria nessa leitura porque não a olharia com outros olhos que não fosse de crítica por estar lendo algo que não aprecio. Portanto, que seja sucesso nas mãos certas!
    Abs
    Ni
    Cia do Leitor

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  12. Oioi! Tudo bem?
    Nao conhecia o livro Destino: Poesia e achei empolgante a sua animaçao ao contar sobre a leitura.
    Eu nao sei mto apreciar peomas e poesias, prefiro um livro de historias de ficcção.
    De qualquer forma, gostei de conhecer um livro novo pra mim.
    Beijos

    Livros e SushiFacebookInstagramTwitter

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  13. Maria Valéria tudo bem, eu adoro ler poemas, é uma forma de expor o mais puros e confusos sentimentos, eu fiquei curiosa com esse livro lendo a sua resenha, e o fato dos autores não estarem mais vivos, o livro se torna mórbido de um jeito bom e cativante. Bjkas

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  14. Não conhecia a obra, mas não poderia ler uma resenha com uma visão mais sensível do que a sua. Boa demais...como sempre!
    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  15. Olá

    Eu não leio muita poesia normalmente mas fiquei interessada em saber mais sobre a vida e a obra de Ana Cristina.

    Super bjos
    http://i-likemovies.blogspot.com.br/

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  16. Olá Maria,

    Não leio poemas mas admiro bastante, para falar a verdade eu gosto mas tem que ser na hora certa, anotei a dica.....bjs.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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