Resenha – O Homem que ri




23 junho 2017



A arte não produz unicamente o Belo, mas também o feio, o
horrível, o monstruoso.’
Bruyne

O homem que ri, escrito no período de exílio de Victor Hugo e publicado originalmente em 1869, Editora Amarilys, 2017, 800 páginas, é um romance histórico, que se passa na Inglaterra, entre os séculos XVII e XVIII. Na obra, o autor se utiliza de um romantismo burlesco para mostrar a face da miséria e degradação humana, a mutilação como punição, além de embate político e relutância no que concerne as mudanças de estruturas sociais.

Comprachicos, como comprapequeños, é uma palavra espanhola composta que significa ‘os compra-crianças’.
 O comprachicos mercadejavam crianças.
 Compravam-nas e vendiam-nas.
 Não as roubavam. O roubo de criança é outra indústria.
 E no que transformavam essas crianças?
 Em monstros
 Por que monstros?
 Para fazer rir.”


Para agradar os desejos da aristocracia, do Rei, ou mesmo do clero, crianças eram traficadas e tinham seus rostos mutilados. “Uma criança destinada a ser um brinquedo para os homens, isso existiu. (Ainda existe) ”.  Foi o que aconteceu com Gwinplayne.

Que o menino tivesse naquele grupo pai e mãe era pouco provável. Nenhum sinal de vida lhe era dado. Faziam-no trabalhar, nada mais. Ele não parecia uma criança em uma família, mas um escravo em uma tribo. Servia a todos, e ninguém falava com ele.”

Gwinplayne teve sua infância roubada, vendido a uma trupe de comprachicos, e no lugar dela, a infância, fora-lhe atribuído um rosto deformado com um sorriso pavoroso que nunca se desfazia. Logo, o menino perde o valor comercial para trupe e é abandonado a própria sorte.

(...) aquilo era inesperado; não disse uma palavra. Havia, no navio, o mesmo silêncio. Nenhum grito do menino para os homens, nenhum adeus dos homens ao menino.”

Numa noite fria, Gwinplayne encontra uma criança cega, Dea, agarrada ao corpo da mãe morta. Na tentativa de se abrigarem, são ajudados por Ursus e seu fiel amigo, Homo, um lobo que já se confundia com o homem, o homem que já se confundia com o lobo.

(...) o lobo, por sua vez, ensinara ao homem o que sabia -  viver sem teto, viver sem pão, viver sem fogo, preferir a fome em um bosque à escravidão em um palácio.”

Ursos é um homem livre, tanto quanto o lobo, além de filósofo, sabia de tudo um pouco para morar numa carroça em andanças pelo mundo e conseguir o suficiente para sobreviver. Gwynplaine e Dea passam a vivem com Ursos e Homo como uma família. Eles crescem e começam a se apresentar, e o rosto desfigurado de Gwynplaine, que antes causava total repugnância, agora é entendido como exótico, causa curiosidade, os jovens, então, ganham fama.  Com a fama, essa história toma rumos inesperados sobre a origem do nascimento de Gwynplaine e seu relacionamento com Dea.


Apesar de se valer do humor ácido e da vida livre de Ursos e Homo, os saltimbancos, conferindo o tom romântico, poético, valorizando o simples, Victor Hugo faz um caldo pessimista em torno da vida de Gwynplaine. Seu destino rodeado de drama e horror, humilhações. Se o belo está nas relações de amizades, lealdade e liberdade dos pobres e errantes, o grotesco está junto a burguesia e sua rudeza frente a necessidade de bobos da corte, de escravizar.

Nesse caso, o leitor também é amplamente mutilado, pois, é impossível uma postura neutra diante das mazelas que acometem uma criança, que nas primeiras páginas do livro é vendida, desfigurada, lançada ao mar, abandonada e necessita sobreviver. O que pode uma criança, entre adultos mais ferozes que lobos famintos, fazer? Se tornaria ela corrupta por necessidade?

Saudado pela fome e pelo frio, Gwinplayne salva outra criança cega. Crianças a mercê da própria sorte. Crianças que se acaso se tornassem adultos corruptos pela necessidade, obviamente seriam punidos pela burguesia que lhes viraram as costas. Seriam punidos pela sociedade. Seriam punidos por políticos. Seriam punidos por existir e não terem cumprindo com suas funções sociais, fazer rir os homens de bem.


O homem que ri é desfiguração do homem alienado. O modelo social da deterioração do homem pelo homem. Atemporal. Cruel. Cáustico. Necessário

25 comentários:

  1. Olá Lilian, tudo bem amiga?

    O Homem que Ri é um grande livro, um clássico que de fato é atemporal, eu adorei a leitura e todas críticas apresentadas pelo autor, esse é um livro necessário para todos que gostam de literatura clássica ou uma ótima leitura. Adorei a sua resenha, está de parabéns!
    Beijos

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  2. É um livro e tanto essa sua indicação,eu realmente não o conhecia e fiquei bastante encantada, principalmente por ter algo a ver com o homem alienado, adorei saber as suas críticas e pretendo ler.
    Beijinhos

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  3. Oi tudo bem?
    Não sabia da existência desse livro, mas adorei a indicação afinal gosto quando que o livro tenha personagens problemáticos.

    Beijos

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  4. Olá!
    Nossa não conhecia essa história, porém já me ganhou pra leitura, primeiro porque parece ser uma obra bem caprichada e repleta de informações, com personagens que tem uma carga emocional e vivencias que nos fazem refletir e segundo e não menos importante por ser um clássico.
    Dica anotada!
    Beijos!

    Camila de Moraes.

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  5. Quando eu vi a foto desse livro no IG não imaginei que fosse uma história tão intensa e destruidora como essa. Eu acho que não conseguiria ler, mas se tentasse não ficaria mesmo com uma postura neutra, seria muito sofrimento. Me fez lembrar o caso das mulheres (e meninas) mutiladas da guerra que são transformadas em bonecas engessadas para satisfazerem homens sexualmente.

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  6. Apesar de o livro ser antigo, nunca tinha ouvido falar dele, mas gostei da sua resenha e fiquei curiosa para conhecer. Obrigada pela dica!

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  7. Olá!
    Confesso que não conhecia a obra, mas vejo que mesmo sendo antiga trás questões que ainda vivemos na sociedade. Ainda temos crianças vivendo sozinhas e tendo que amadurecer antes do tempo, sofrendo todo tipo de abuso e crueldades. A história é bem forte, mas trás um tema bem importante.
    Sua resenha está muito boa.
    Beijinhos!

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  8. Olá!

    Nem de longe eu imaginaria que esse livro seria um tapa na cara, tão atemporal e atual, mesmo tendo quase 200 anos. Só leria para saber do final, porque uma premissa forte dessa, dificilmente eu aguentaria. Obrigada pela resenha!

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  9. Nunca li nada de Victor Hugo, mas tenho muita vontade de ler, principalmente por ouvir várias coisas boas sobre os livros dele.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  10. Achei a resenha bem esticante e me deixou bem curiosa pra ler
    parece uma otima leitura, parabéns pelo post

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  11. Olá, tudo bem?
    Eu sempre quis ler algo do Victor Hugo, mas as obras dele são sempre tão gigantes que sempre acabei deixando pra depois. Eu ainda não tinha ouvido falar de O Homem que Ri, mas o conteúdo me chamou muito a atenção, é uma dura realidade mascarada de ficção. A última parte da sua resenha, que fala de crianças vítimas dessa burguesia que depois seriam culpadas pela mesma em caso de serem corruptos... daria pra fazer muitos links com nossa realidade atual.
    Beijos <3

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  12. Estou lendo "Os miseráveis" também do Victor Hugo e o pouco (umas 300 páginas de 1400) que já li já percebi que o autor é um gênio. Cria personagens marcantes e com uma singularidade incrível. Preciso continuar!
    Sua dica está anotada
    Beijos

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  13. Heeeeey!

    Não conhecia este livro, e pela capa não compraria rs ..
    Mas sua opinião me deixou extremamente interessada, me parece um livro e tanto. A parte onde você citou as crianças me deixou ainda mais ansiosa, lembro do filme "o menino do pijama listrado" que agonia eu fiquei.
    Dica anotada.

    Beijos!

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  14. Olá, tinha visto nas redes sociais do blog algumas postagens sobre esse livro e estava curiosa para conferir uma resenha dele. Que complicada a situação dessas crianças, quanta crueldade foi cometida com Gwinplayne! Preciso ler para descobrir quais caminhos ele seguirá.

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  15. Olá, Lilian!

    Victor Hugo é sempre encantador, mesmo quando nos conta uma história cheia de injustiças e terror. Essa, provavelmente seguirá os passos dos outros escritos de qualidade, nos moldes clássicos, mas muito atual e preocupante para uma sociedade que quer ser modelo, mas esconde seus "lixos" em baixo do tapete.
    Fiquei intrigada com a história e vou procurar o livro para tirar minhas conclusões da obra. Obrigada pela excelente resenha e dica de leitura! Abração,
    Drica.

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  16. Nossaa fiquei aterrorizada com essa resenha e surpresa com essa obra, li o primeiro livro "Os miseráveis", então acredito que se o autor escreveu da mesma forma, a quantidade excessiva de páginas se dá pelo fato de ter trechos extremamente descritivos, o que torna realmente cansativo. Mas de qualquer forma, gostei de sua resenha e já coloquei a obra na minha lista de próximas leituras, apesar do preço para compra ser alto, cerca de R$ 80,00 para 800 páginas. Beijos

    Nara Dias
    www.viagensdepapel.com

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  17. Oieee, não conhecia o livro apesar, de achar que tenha o filme, mas ainda não vi, como sempre o autor VH é um ótimo escritor e suas obras sempre são repletas de verdades por trás de seus personagens, obrigada pela dica!

    www.leituraentreamigas.com.br

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  18. Oie
    ainda não conhecia o livro mas tem um enredo bem forte e diferente, daqueles que te levam a reflexão e isso é o que procuro em alguns momentos então gostei da dica

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  19. Oi Lilian,
    Mais um clássico!
    Pra quem não sabe, Coringa, o arqui-inimigo do Batman, foi inspirado em Gwynplaine.
    Victor Hugo é mestre em suas críticas sociais.
    Beijos,
    André | Garotos Perdidos
    www.garotosperdidos.com

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  20. Olá, tudo bem? Confesso que não conhecia a obra, até tenho a sensação de já ter escutado o nome, mas nada concreto. Gostei muito de sua resenha, dos pontos que levantou. Parece ser uma leitura bem forte, que é necessário entrar totalmente de cabeça. Anotei a dica!

    Beijos,
    www.paginasincriveis.blogspot.com.br/

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  21. Olá! Tudo bom?
    Para ser sincera não conhecia o livro, mas parece tratar-se de uma obra muito interessante.
    Ótima resenha parabéns por ela, achei a capa linda demais.
    Beijos.

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  22. Nossa parece ser uma leitura um tanto tensa. Pelo menos foi o que senti. Não sabia sobre o livro mas me instigou uma certa curiosidade. Parabéns pela bela resenha.

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  23. Eu não conhecia esse título específico, mas apesar de nunca pegar esse tipo de leitura, eu me interessei bastante por causa da resenha. Eu quero mesmo explorar outros tipos de livro.

    http://laoliphant.com.br/

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  24. Esse livro deve ser uma leitura incrível, você comentou sobre ele, mas só lendo tua resenha eu senti a intensidade que deve ser.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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