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da crueldade/ beatriz hierro lopes klein





Cruel. Chamam-me. Que talvez seja de mim a crueldade das costas que se viram, das mãos que se fecham ou da boca que se cala. Sou, de veias, vidro partido, e do meu sangue apenas posso dizer «somente sangue» enquanto lavo o que me mancha. Sem nódoa sou corpo inteiro, cabelo castanho escuro, e um espelho onde talvez veja passar a minha própria sombra. Sei do mundo o que dele vi: que nunca foi de mim, o desvio. Reta, sigo o choro de velhos; as asas partidas das gaivotas; os gatos atropelados e de olho caído sobre o asfalto; a terra e o único cão que levei ao colo na tarde em que as nuvens subiram desde o fundo do Mondego só para dançarem sobre as nossas cabeças. Sou da água como do chão e quando me pedem lume ofereço névoa por ser dela o princípio da chama. De onde venho ninguém mais virá, e talvez seja apenas isso que haja para dizer, enquanto ouço «cruel» e sorrio. Por saber de todas as vezes em que é a crueldade é chamada no lugar dos pulsos que, por lhes correr o vidro, se abrem e deixam cair sobre a terra os grilhões que um beijo planeou. Sou cruel, o mesmo é dizer que sou do vidro que corta e que me abre portas e janelas na casa do meu corpo de onde escrevo estas linhas.

9 comentários:

  1. Interessante como o lado cruel pode ser ao mesmo tempo o lado bom, tão bem mostrado no texto, mas que me encantou na frase final " vidro que corta e que abre portas e janelas na casa do meu corpo."
    Amei.
    Bjs Rose

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    Respostas
    1. Não é isso? Quando eu crescer, quero escrever como ela.

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  2. Adoro textos assim, que conforme vamos lendo, vamos interpretando de uma forma. E o interessante é que nem sempre podemos interpretar do mesmo jeito de outra pessoa, não é?
    O texto é profundo e nos mostra que nem tudo que é cruel é feio. Às vezes é uma forma de nos protegermos.
    beijos

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  3. Olá, tudo bem? Caramba, que texto mais incrível! Além de ser muito bom, abre portas para diversas interpretações diferentes de diversos leitores. Adorei!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  4. Amei o texto! Profundo e um tanto quanto complexo. Permitindo diversas reflexões e interpretações. Já anotei o nome da autora aqui, quero conhecer mais sobre ela.
    Beijo

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  5. Não sei se é o sono ou eu que sou lerda, mas não entendi muito bem o texto... parece ser profundo e poético, mas não compreendi a mensagem por trás dele. Poderia me explicar melhor?

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  6. Olá, tudo bem? Texto lindíssimo! Gosto das metáforas e dualidades encontradas nas nuances. Não conhecia textos assim, mas adorei! E irei pesquisar mais sobre quem escreveu <3
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com.br

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  7. Olá, adorei o texto, ele esta muito bem escrito deixando aberto a diversas interpretações *-* Vou procurar outros textos da autora para ler depois *-*

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  8. Olá!
    Adorei o texto. Por segundos consegui vislumbrar aquele olhar profundo que dizia cada palavra dele. Tocante!
    Bjim!
    Tammy

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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