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resenha – júbilo, memória, noviciado da paixão





Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.

Júbilo, memória, noviciado da paixão, de Hilda Hilst, lançado originalmente em 1974 e publicado pela Companhia das Letras em 2018, dividido em dez seções de poemas amorosos, é considerado o livro mais estudado da autora, aclamado pelo público e crítica.  De modo que os dez poemas da seção ode descontínua e remota para flauta e oboé. de ariano para dionísio foram musicados por Zeca Baleiro.



II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

A paixão, o corpo, mística, erotismo, amor, memória, o tempo e a morte são presentes durante toda a obra. “Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me./ E eu te direi que o nosso tempo é agora”.  

O corpo, em Hilda Hilst, faz um clamar erótico e amoroso pela sua completude a exemplo da seção Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amorTempo do corpo este tempo, da fome/ Do de dentro.”

A completude também exime o ter em detrimento do ser, se fazer humanizado, em carne, osso e desejo. “Ávidos de ter, homens e mulheres/ Caminham pelas ruas. As amigas sonâmbulas/ Invadidas de um novo a mais querer/ Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas./ Uma pergunta brusca/ Enquanto tu caminhas pelas ruas./ Te pergunto: E a entranha?”.

XIII
Ávidos de ter, homens e mulheres
Caminham pelas ruas. As amigas sonâmbulas
Invadidas de um novo a mais querer
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca
Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto:
E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?
Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada

‘E a entranha?’ torna-se o choque, o romper abrupto do homem e mulher que se caminha meramente capital e se perdeu, esqueceu a paixão visceral da vida. A entranha é o insight do homem moderno adestrado para transgressão, para olhar dentro, onde não habita vitrines, marcas, dinheiro. Onde habita o desconhecido.

Pelo amor que rompe e se torna livre pela transgressão, Hilda continua: “É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.”, que o amado fique onde está, mesmo que a saudade e o desejo seja uma certeza, “Porque é melhor sonhar tua rudeza/ E sorver reconquista a cada noite/ Pensando: amanhã sim, virá”, não é uma possessão, é uma mulher livre e habitada no amor próprio que não sofre pelo abandono do amado que não chega, “E o verso a cada noite / Se fazendo de tua sábia ausência”, a amada sem o amante descobre o amor da própria companhia.


I
É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
O meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência

O noviciado de júbilo, memória, noviciado da paixão é o voto amoroso do eu lírico que percorre e rompe com um eu feito no contexto político e social que pouco transborda, mas reprime o corpo. É um livro de impaciências e urgência pelo amor erótico e o corpo que se toca. “Contempla o teu viver que corre, escuta/ O teu ouro de dentro”. Para ler Hilda Hist, comecei a entender sobre como deve funcionar as interrogações.

9 comentários:

  1. Olá!
    Esse livro deve ser uma fonte de inspiração e reflexão para muitos admiradores da Hilda e principalmente dos amantes da poesia.
    Tive um pouquinho de dificuldades em entender mais sobre a obra justamente por nunca ter ouvido falar na Hilda e quase não conhecer sobre o universo da poesias, dos poemas. Os trechos destacados, no entanto, são interessantes e aguçam a vontade de se aprofundar na leitura.
    Pode ser uma leitura que tira da zona de conforto e que me agradaria conhecer um pouco mais.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  2. Olá!
    uau, eu nunca li nada da autora mais agora fiquei super curiosa, apesar de achar que não estou no momento para ler algo tão profundo e tão bem escrito assim, vou colocar na listinha para ler assim que der. Com certeza é uma leitura singular!

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    Respostas
    1. Você está correta, a Hilda é uma leitura profunda que exige do leitor, não é para qualquer hora, merece seu momento específico pq não é entretenimento, é arte e a arte tem caminhos em nosso inconsciente que a agente não controla.

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  3. Olá!
    Confesso que não sou fã do gênero, infelizmente nunca me prendeu, mas fico feliz que tenha sido uma leitura prazerosa pra você. Está na minha meta de 2019 tentar novos gêneros, vou colocar esse livro na lista e dar uma chance!

    Beijos,
    Ana Luiza
    www.entrepaginas.com.br

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  4. Olá,
    Eu pensei que tinha entendido os trechos que você selecionou, mas quando você fala que tem erotismo eu fiquei perdida por não ter achado nada disso nos versos, porém eu realmente não entendo hehehe. Porém já ouvi falar de Hilda Hist e do quanto ela é importante nessa área.

    Debyh
    Eu Insisto

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  5. Nossa, eu não conhecia essa autora! Que bom que a Cia das Letras decidiu publicar (ou republicar?) esse livro. Sua resenha demonstra bem o estilo da autora, acredito que seja uma obra que com certeza vale a pena ser apreciada.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  6. Será que esse ano eu saio da minha zona de conforto e leio mais do gênero? Ano passado saí daqui com várias dicas<3 Esse deixou claro ser bem profundo e espero conseguir dar uma chance na hora certa =D

    Sai da Minha Lente

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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