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Resenha – A mãe de todas as perguntas, de Rebecca Solnit





No livro A mãe de todas as perguntas – Reflexões sobre novos feminismos, Companhia das Letras, a consagrada autora Rebecca Solnit traz o silêncio como uma das respostas ou como adoecimento social, afinal, a certeza que temos do machismo e suas nuances é o adoecimento social entre tantas outras consequências nocivas.

Por voz não me refiro apenas à voz em sentido literal – o som produzido pelas cordas vocais nos ouvidos dos outros –, mas à capacidade de se posicionar, de participar, de se experimentar e de ser experimentado como uma pessoa livre com direitos. Isso inclui o direito de não falar, quer seja o direito de não ser torturado para confessar, como no caso dos prisioneiros políticos, quer seja o direito de não ter de atender a desconhecidos que nos abordam, como alguns homens procedem com as moças, exigindo atenção e lisonjas e punindo-as quando não as recebem. A ideia de voz ampliada para a ação abrange amplos setores de poder e falta de poder.

A obra está dividida em duas partes – Rompeu-se o silêncio e Rompeu-se a história – para explicar temas antigos e atuais como por exemplo piadas sobre estupro. Para mudar a história, primeiro, precisamos acabar com o silêncio que mata mulheres, educa homens violentos, assassinos e estupradores, adoece o meio ambiente. Neste caso, portanto, a autora não se refere ao silêncio como uma quietude necessária em busca de tranquilidade, serenidade e introspecção. O silêncio que ela esmiúça no livro é aquele provido pela repressão.

No capítulo ‘Uma breve história do silêncio’, Rebecca explica como o silêncio é uma arma para desumanizar as mulheres e como é extenso o número das que não são ouvidas: a mulher, a pobreza, a mulher negra, a mulher Latina. Desencadeando num ‘canibalismo narrativo’.

O Silêncio foi o que permitiu que os poderes atacassem ao longo de décadas, sem impedimentos. É como se as vozes desses homens públicos importantes devorassem e aniquilassem as vozes dos outros, num canibalismo narrativo. Tiraram-lhes a voz para recusar e lhes infringiram histórias inacreditáveis. Inacreditável significa que os poderosos não queriam saber, ouvir, acreditar, não queriam que eles tivessem voz. As pessoas morriam por não serem ouvidas. Então algo mudou.

As pessoas morriam por não serem ouvidas’ infelizmente, as pessoas ainda morrem por não serem ouvidas, é o caso, por exemplo, da mulher que cometeu suicídio e deixou em seu diário o relato dos abusos sofridos pelo tão conhecido Médium João de Deus. Entretanto, ‘Então algo mudou’, mais de trezentas denúncias de mulheres que sofreram abuso sexual desse mesmo homem foram registradas, ouvidas aceitas, para algumas, tarde demais, para outras, a possibilidade de recuperar a voz e como a humanidade.

Boa parte do feminismo consiste em mulheres expondo experiências até então não reveladas, e boa parte do antifeminismo consiste em homens lhes dizendo que essas coisas não acontecem (...) “Você não foi estuprada”.

No livro, a autora utiliza outros exemplos envolvendo famosos e figuras de autoridade e como suas vítimas foram silenciadas, como no caso de Bill Cosby e seus estupros em série. Com o rompimento do silêncio, um mar de histórias sai de debaixo do tapete e começam a mudar histórias pelo mundo.

Se o direito de falar, de ter credibilidade, de ser ouvido é uma espécie de riqueza, essa riqueza agora vem sendo redistribuída. Por muito tempo houve uma elite com audibilidade e credibilidade e uma subclasse de destituído de voz.

Quem é e quem não é ouvido define o statu quo”, em referência a autora, podemos pensar nos povos originários, mais conhecidos como povos indígenas. Nos últimos dias, algumas aldeias foram invadidas por ruralistas e fico a pensar no silêncio que esse povo vive agora, as mulheres, crianças e sim, os homens indígenas. A autora traz como referência, no entanto, como o Movimento Sufragista excluiu mulheres negras.

No capítulo ‘Todo homem é uma ilha: o silêncio masculino’ Solnit traz um tema que às vezes não tem o espaço merecido. Sim, o patriarcado também adoece homens quando desde criança são privados de sua integridade emocional. Um caso recente disso, no Brasil, foi na última semana quando Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves, afirmou que seria ‘terrivelmente cristã’ e ‘menino veste azul e menina veste rosa’.

A partir dessa ideia, nasce uma distinção pelo ódio, os meninos desde cedo aprendem a odiar e repudias o que é imposto para meninas e os meninos desde cedo, são silenciados e esse contexto dá cria a dois outros monstros, segundo Rebecca “A misoginia e a homofobia são, ambas, formas de odiar o que não é patriarcado”.

A masculinidade é uma grande renúncia. O cor-de-rosa é apenas uma miudeza, mas meninos e homens bem-sucedidos renunciam a emoções, à expansividade, à receptividade, a todo um conjunto de possibilidades na vida cotidiana, e homens que ocupam áreas masculinas – esportes, Forças Armadas, política, trabalhos exclusivamente masculinos como construção ou extração de recursos minerais – muitas vezes ainda precisam renunciar a outras coisas mais. (...) Ou seja, o silêncio é uma força difusa, distribuída de diferentes categorias de pessoas. Ele subjaz a um statu quo que depende de uma homeostasia de silêncios.

Durante os dozes ensaios que compõem a obra, Rebecca constrói uma teia de diversos aspectos da sociedade que estão interligados pelo patriarcado. A presença das mulheres na literatura, política, questões de raça, igualdade de gênero e obviamente, não é possível deixar de lado, classe social, mansplaining, etc.

Rebecca Solnit é hoje considerada uma das grandes vozes do feminismo no mundo, seu trabalho amplamente reconhecido, a julgar os nossos dias sombrios, são urgentes e necessários. Rompemos uma pequena estrutura do patriarcado e de forma lenta, começamos a ter voz, melhor dizendo, Vozes. Não podemos voltar par ao armário, não podemos voltar para cozinha e principalmente, não podemos aceitar que nenhuma ‘princesa’ seja assassinada ou estuprada por um ‘príncipe’ de azul.

16 comentários:

  1. Olá!
    Tenho gostado cada vez mais de leituras nesse estilo. Trazendo o grito da mulher, relatos, a força e a incessante busca pela sobrevivência, contra esses machismo desenfreado que se instalou na sociedade.
    Os textos devem ser ricos, um tapa na cara e muito reflexivo.
    Vou procurar pra ler.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  2. parece ser um otimo livro
    estou a procura de tudo que fale sobre feminismo, porque ach que e um tema importantissimo e que noos mulheres principalmente precisamos ter na ponta da ligua

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  3. Esse livro é sensacional, já vi muitas resenhas dele e acabei comprando ele recentemente. Ainda não acabei de ler mas ele é muito muito bom!
    Cada reflexão insana sobre feminismo que são coisas que eu jamais imaginei. Adorei tua resenha, ficou sensacional. Adorei!!

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  4. E a primeira vez que me deparo com esse livro, e bom, pelo título não imagina que a trama abordava um tema tão atual que e a questão do silenciamento feminino, que vem ocorrendo durante tantos séculos. E como vemos rompendo com isso durante os últimos anos, e o quanto e importante que isso se ocorra. Gostei muito da premissa do livro, e seu conteúdo e já irei inclui-lo na minha lista de desejados.

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    1. Concordo, o título do livro não foi muito feliz para a profundidade da temática e atrair novos leitores, entretanto, acho que se aportaram no nome da autora já firmado, conhecido, acho que já esperam que o leitor saiba que um livro dela terá tal temática... hehehehhehe eu acho

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  5. Oi, tudo bem?
    Eu ainda não tinha visto nada sobre esse livro, mas achei interessante a premissa dele e como feminista, fiquei curiosa com a obra, pois acredito que irei aprender muito ao longo dessa leitura. Enfim, gostei bastante da sua resenha, muito bem detalhada, agora vou marcar esse livro na minha lista de desejados.

    Beijos :*

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  6. Olá, tudo bem? Nossa leitura mais que anotada! Precisamos e muito de livros assim, para o tempo atual que a mulher vive e o quanto não estamos mais aceitando sermos caladas. Mas infelizmente, como você falou, ainda temos, e muito, relatos que tentar calar nossas vozes e nosso direitos. Não conhecia o enredo, por isso fiquei bem contente em ver a resenha e poder pegar a dica!
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com.br

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  7. Oii!!


    Esse é um tipo de leitura que tenho prazer em ler. Estava sumida desse mundo literário e por isso não conhecia nem a obra e nem a autora, mas pretendo ler em breve e me cativar tanto quanto imagino. Aliás, esse era um tipo de leitura para todas as pessoas. QUem sabe assim facilitaria a compreensão do feminismo.

    Beijos!

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  8. Oi, tudo bem?
    Eu ainda não conhecia esse livro, mas ele vai direto para a minha lista de desejados. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade machista e acho que livros como esse são muito importantes para fazer as pessoas refletirem. Além disso, achei muito interessante a forma como a autora dividiu o livro, abordando primeiro quando o silêncio é rompido e as mulheres começam a usar sua voz, e depois as mudanças que acontecem após o silêncio ser quebrado.
    Adorei a resenha e fiquei realmente interessada em ler esse livro. Vou anotar a dica e espero conseguir ler em breve.
    Beijos!

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  9. Essa é a resenha que eu precisava ler! Esse livro tá no meu carrinho de compras tem alguns dias mas estava pensativa se deveria ler ou não, agora que li suas impressões tudo foi muito bem esclarecido e certamente irei finalizar a compra, obrigada pela resenha tão sincera.

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  10. Não conhecia o livro, mas acho que é uma leitura obrigatória para mim. Ainda mais nesse momento que estamos vivendo e vendo, onde temos um homem com mais de 300 acusações colocando em dúvida as mulheres que a fizeram e sabe o que mais me deixa indignada nisso tudo? Ninguém fala nada, não tenho uma comoção na minha timeline falando sobre esse monstro que usava a fé alheia para atos cruéis contra mulheres fragilizadas em busca de socorro. Desculpe pelo desabafo, enfim, gostei muito de conhecer o livro e quero muito ler, espero ter essa oportunidade.

    Abraços.

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  11. Olá,
    Parece uma leitura bem atual, o que não deixa de ser algo triste pensando no nosso dia a dia. Gostei de todo o conceito de o que aceitar ser tratado de um modo de fácil entendimento.

    Debyh
    Eu Insisto

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  12. Que obra mais interessante! Eu ainda não conhecia e o tema abordado muito me atrai. Dica anotada! Espero poder ler em breve.

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  13. Olá, tudo bem?
    Fico tão feliz quando obras assim são lançadas aqui no Brasil. Felizmente as mulheres estão encontrando um pouco de espaço, pelo menos na literatura. É importante discutirmos e provocarmos uma mudança, por isso essas obras são importantes. Sua resenha ficou ótima.
    beijinhos.
    cila.

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  14. Olá,

    O ato do opressor normalmente é sempre tirar a voz do outro e isso no sentido de liberdade e lhe conferir o titulo de "escravo" de suas atitudes e julgamentos. A opressão do patriarcado é extenso e poderoso. Convivo com mulheres que acham que devem satisfação a qualquer homem que se envolvam ou tenham que aguentar caladas quando são elogiadas e não acham adequado por causa do lugar ou o desconforto gerado por isso. Muitas acham estranho minha naturalidade em dizer não e acabo sendo vista como antipática.

    Os homens desde cedo acabam se tornando máquinas que são incapazes de mostrar seu lado humano e vulnerável para qualquer outra pessoa. Se destroem e mutilam outros com seus posicionamentos destituídos de sensibilidade e respeito pelo próximo.

    A opressão deve ser combatida com educação e força diária que quebre esse sistema corrosivo e imundo, porque não sei quantas vezes fui e ainda serei vítima dele, assim como várias manas pelo Brasil e mundo.

    Beijos!

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  15. Olá Lilia, eu não conhecia esse livro e nem a autora, mas já estou mega curiosa para lê-lo, pelos seus comentários ela trás reflexões bem atuais e amplas *-* Espero poder lê-lo em breve também.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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