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E se ninguém fosse propriedade de ninguém? / Eduardo Galeano

 



1909

Nova Iorque

 

Charlotte / Eduardo Galeano

 

O que aconteceria se uma mulher despertasse uma manhã transformada em homem? E se a família não fosse o campo de treinamento onde o menino aprende a mandar e a menina a obedecer? E se o marido participasse da limpeza da cozinha? E se a inocência se fizesse dignidade? E se a razão e a emoção andassem de braços dados? E se os pregadores e os jornais dissessem a verdade? E se ninguém fosse propriedade de ninguém?

 

Charlotte Gilman delira. A imprensa norte-americana a ataca, chamando-a de mãe desnaturada; e mais ferozmente a atacam os fantasmas que moram em sua alma e a mordem por dentro. São eles, os temíveis inimigos que Charlotte contém, que às vezes consegue derrubá-la. Mas ela cai e se levanta, e cai e cai novamente se levanta, e torna a se lançar pelo caminho. Esta tenaz caminhadora viaja sem descanso pelos Estados Unidos, e por escrito e por falado vai anunciando um mundo ao contrário.

 

(Eduardo Galeano, in Memória do Fogo vol. 3, O Século do Vento. As dimensões e os segredos da América Latina num Mosaico de Histórias, Fatos, Mitos e Homens. Tradução Eric Nepomuceno. L&PM Editora. 1998)

 

Charlotte Perkins Gilman foi uma feminista, socióloga e escritora norte-americana, que escreveu contos, poesia e livros de não ficção.


13 comentários:

  1. Eu a amo, adoro! Eu adoro demais O papel de parede amarelo. Aliás, te recomendo a leitura de Orlando, da Woolf. Confere! <3
    Os valores sociais são complicados e devem ser revistos. <3

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    1. Já li Orlando, três vezes . Obrigada pela interação.

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  2. Oioi! Posso apenas supor como a sugestão de um mundo ao contrário, ainda mais no começo do século passado, deve ter parecido subversiva, sobretudo partindo de uma mulher. Não conhecia a Charlotte, mas já posso imaginar que foi uma lutadora e tanto. Belo post. Abs!

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  3. É de extrema importância todos esses questionamentos levantados! É muito importante refletir! E rever os pensamentos machistas introduzidos por uma sociedade tóxica. Já quero ler algo escrito por essa feminista, socióloga e escritora norte-americana, que escreveu livros de não ficção, além de poesia.

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  4. digo que pra mim essa inversa, vulgo delírio, seria esperado, amado e bem tratado kkk. seria interessante ver esses papéis distribuídos de forma mais 'justa' e 'correta'.

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  5. Oi, tudo bem? Não a conhecia mas achei interessante sua forma de pensar. Para muitos podem ser delírios, no entanto, muitas famílias que conheci isso era real. Apesar de a maioria das famílias serem tradicionais e já definirem papéis de homens e mulheres desde a infância ainda temos espaço para aqueles que agem completamente diferente do usual. Eu por exemplo não fui educada para casar, ter filho, e cuidar da casa. Mas hoje comentar sobre faz as pessoas te olharem com "interrogação" como se fosse algo inédito. Um abraço, Érika =^.^=

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  6. Galeano sempre tão certeiro.
    A cada dia que passa fico ainda mais apaixonada pelos textos dele.
    Ainda não li esse dele. E sobre Charlotte, ainda não tive a oportunidade de pegar algo dela. Mas pretendo.
    🖤

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    1. Acredito que você vá gostar da autora me questão, principalmente, talvez, Terra das Mulheres

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  7. É demais saber que há tanto tempo já tínhamos mentes delirantes, criativas e revolucionárias! Adorei seu post e sua forma de expô-lo. Deu todo um "gostinho" diferente!!!

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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