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Estamos aqui para vencer a dor / Matilde Campilho

 


CHAPÉU DE PALHA

 

Fazes-me lembrar

um filme do Rohmer

ou o toldo vermelho

do Joaquim Manuel

Quando penso em ti

eu esqueço o lixo

que de manhã faz barulho

à minha porta

Pareces-te com o tempo

das amendoeiras

Tens tudo a ver com

a escadaria semi-invisível

que o mágico escavou

no rochedo atlântico

Sim tu pareces o Verão

Às vezes quando entras

quase dá para ouvir o ruído

do motor de um jipe

Um Lada Niva por exemplo

(de cor azul)

a assapar entre a poeira

e os eucaliptos

sempre em direção à praia

Fazes lembrar a alegria

de um risco na parede

desenhado a carvão

pela criança da manhã

É no verde dos teus olhos

que eu treino a disciplina

de uma explosão sossegada

que se vai revelando devagar

ao ritmo das estações concretas

E já agora também é no amarelo

dos teus olhos que eu descanso

da guerrilha do mundo moderno

Aquele que nos fez esquecer

a gargalhada de David

quando derrotou o gigante

(mas olha há sempre um riso

ecoando lento na caverna)

Estamos aqui para vencer a dor

E teu rosto diário faz lembrar

a vitória do tempo sobre o tempo

Porque afinal de contas tu

te pareces muito com a promessa

de uma fé vagarosa & livre

Pareces a coragem, pareces a paz

Pareces mesmo a madrugada egípcia

sobre a qual voa um passarinho.

 

(Matilde Campilho é poeta, nasceu em Lisboa no ano de 1982, e reside no Rio de Janeiro.)


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