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HALLOWEEN, BRUXAS, CIÊNCIAS E O PATRIARCADO / LEONARDO NÓBREGA

 

By imagem  - Camila Cattucci


Era uma vez um povo que ocupava o Oeste da Europa dividido em tribos, tinham vários deuses e rituais, entre eles o Festival Samhain que era uma homenagem ao Rei dos Mortos, por mais paradoxal que pareça, era uma festa em agradecimento pela abundância das colheitas do ano. Essa comemoração acontecia por toda a noite do dia trinta e um de outubro para o dia primeiro de novembro quando a fronteira entre o nosso mundo e o outro mundo, o dos mortos, podia ser cruzada. Esse povo eram os Celtas, subjugados pelos romanos e depois pela Igreja Católica, que, na Idade Média, perseguia alguns homens e muitas mulheres os taxando de bruxos e bruxas. Quando os irlandeses (de cultura celta) chegaram aos Estados Unidos o antigo Samhain do dia 31 virou o Dia das Bruxas, ou Halloween. Também não podemos deixar de lembrar uma mudança que o papa Gregório III fez no calendário no século VIII, quando designou o dia 1º de novembro como Dia de Todos os Santos e Mártires que era comemorado em maio, isso para se opor ao dia das bruxas, sendo após a esse, aquele poderia purificar as almas contaminadas por bruxas e demônios.

 

 

Desse ponto em diante, trataremos só com bruxas, já que após a publicação do Malleus Maleficarum ou O martelo das Feiticeiras os homens saíram desse rol. Bando de incompetentes, nem pra fazer bruxaria servem, ô raça! Na verdade, eles mudaram de nome, viraram Magos, mas continuaram sendo presos, excomungados ou mortos por outros “crimes” que não bruxaria. Esses novos bruxos eram os filósofos, cientistas, alquimistas e outros estudiosos que tinham o descaramento, vejam só, de se opor a autoridade (e mentiras) da igreja. Que atitude absurda, querer provar cientificamente os eventos humanos e naturais, provar que existem leis naturais e comportamentais que regem o universo. Capaz de terem questionado se a Terra é o centro do universo ou, pior, dizer que é redonda. Que imbecis. Entre esses “asnos” estavam Giordano Bruno, o filósofo Boécio, Johannes Kepler, René Descartes, Galileu Galilei que não foi morto porque foi obrigado a negar suas ideias, porém uma frase dele dita frente ao tribunal da inquisição ficou famosa, e é sensacional: “a verdade é filha do tempo e não da autoridade (eu acho sensacional, e daí? Ora! O texto é meu rsrs). O que nos conforta é que em 1992, 350 anos depois da condenação, o Papa João Paulo II reconheceu o erro e perdoou Galileu e, assim, ele pode sair do Inferno e ir para o Céu. Amém, Igreja?

 By imagem Carol Nazatto
  

Bruxa, uma fada que não deu certo? Não. As bruxas são complexas e misteriosas, algumas pessoas as temem, outras, as odeiam, outras ainda as admiram e, hoje elas até fazem parte da decoração de quartos infantis (muitas vezes nem tão infantis assim). Nos dicionários, elas vão de mulheres depravadas que têm contato com o sobrenatural e obedecem ao demônio semeando o mal a mulheres sábias que conhecem a magia dos elementos da natureza; detentoras do conhecimento. Eram mulheres versadas na manipulação das ervas, dos ciclos lunares, do poder do útero, da integração com as estações do ano e da alquimia, e que promoviam o bem, por isso, eram vistas pelo patriarcado como um risco, como pessoas que poderiam – pela sapiência – se apropriar do “poder”. Infelizmente, o primeiro tipo, o do mal, foi o que se popularizou e foi disseminado pelo mundo, e, para nossa tristeza, a principal ferramenta para isso foi a literatura. Principalmente a literatura infantil, povoada pelas bruxas descritas por Câmara Cascudo como “velhas, magras, altas, enrugadas, horrorosas de feiura e hediondas de sujeiras, cobertas de trapos, com um saco cheio de coisas misturadas e confusas, andando de noite, misteriosas, sinistras, silenciosas”. Essa tipificação bruxesca(?) chegou ao Brasil via Portugal e tinha como serventia principal assustar crianças desobedientes. Entretanto, não jogo pedras na literatura infantil, as bruxas dos Contos de Fadas são necessárias pela própria construção maniqueísta dessa literatura, se existe o bem é preciso que exista o mal em contrapartida. Outra mulher injustiçada (digamos assim) nos Contos de Fadas é a madrasta, que foi transformada em sinônimo de maldade, de crueldade e que, curiosamente é, ao mesmo tempo, na maioria dos contos, também a mãe e a bruxa. A criança, em um tipo de proteção psíquica inconsciente, separa a mulher amável (mãe), a má (madrasta) e a cruel e ameaçadora (bruxa).



 

Como todo professor de Humanas, vou falar um pouco da minha vida (rsrs). Eu vivi em um ambiente de Conto de Fadas, minha mãe é a segunda esposa do meu pai, que já tinha três filhos, e juntos tiveram outros três, então a dona Vilma era ao mesmo tempo mãe e madrasta. Porém, quando adoecíamos, virava bruxa e fazia lá umas poções, umas beberagens, umas gostosas runas de farinha e ovos enquanto murmurava palavras místicas tipo: vai passar; mamãe tá aqui; não foi nada, etc. Isso se aplicava para filhos e enteados. Na minha infância, bruxa era uma mulher velha e gorda que andava de preto pedindo coisas na vila onde eu morava. Coitada, nem bruxa era, só porque ela passava montada numa vassoura e usava um chapéu pontudo a criançada tinha medo da anciã (rsrs).  Aliás, hoje, eu também sou bruxo, tenho conhecimentos sobre a natureza que divido com meus alunos de Geografia e misturo coisas estranhas que terminam virando bolos, coberturas e molhos.

 


Mas, voltemos à meada. Com a popularização do Halloween, em nossa grande e triste nação, foi “preciso”, pelos brios do nosso povo, eleger um produto nacional puro para fazer frente a esse absurdo do estrangeirismo, já não bastava o Papai Noel? Então, em 2003, foi criado o Dia do Saci que é comemorado no dia 31 de outubro, uma maneira de resgatar a cultura popular. Eu, como ex-componente de grupo folclórico e fã da cultura popular, dei e dou meu apoio a essa ação. Minha crítica sarcástica acima é apenas uma brincadeira, porém, na verdade ele também é meio imigrante. Embora o Saci tenha surgido no Sul do Brasil, recebeu acréscimos da cultura europeia (gorro vermelho) e africana (cachimbo). Fora isso, perdeu uma perna jogando capoeira.

 

Para concluir vamos listar maneiras de afastar e neutralizar as sogras e piranhas. Ops! quer dizer, como lidar com as bruxas. Embora a Igreja Católica acusasse as bruxas de terem filhos a mando do demônio sem o sacramento do matrimônio, com homens que estavam casados pela lei de Deus. Mais uma vez, o ônus da culpa recaí na mulher, quando, na verdade, quem tem um contrato a ser cumprido e respeitado é o homem, ele é quem está “em pecado”. Mas, vamos lá, o que você pode fazer para se resguardar das horrendas bruxas. Em casa: Esconder uma lâmina virgem de aço no cômodo; espalhar uma camada de sal na soleira das portas não as deixa entrar; o quarto das crianças recém-nascidas pode ser protegido com uma cruz feita de palhas-bentas do Domingo de Ramos. Na Igreja ou vila: Deixar o missal aberto, isso impede a bruxa de sair; suspender o ferrolho da porta do templo tem o mesmo efeito; deixar canais em torno da vila, bruxas não conseguem atravessar a água corrente. No Nordeste brasileiro é mais simples, uma surra com pinhão-de-purga acaba com os poderes das feiticeiras, ou seja, umas lapadas na quenga e ela deixa seu homem em paz (rsrs). Também pode fazer como eu, não faça nada. Eu adoro as bruxinhas, principalmente as que frequentam o Poesia.


VAMOS SORTEAR UM KIT DE TODOS OS LIVROS DO AUTOR LEONARDO NÓBREGA PARA QUEM COMENTAR ESSA POSTAGEM. A REGRA É SIMPLES: COMENTAR NESTA POSTAGEM SOBRE O TEXTO, DEIXAR O EMAIL NO FINAL DO COMENTÁRIO E TER ENDEREÇO DE ENTREGA NO BRASIL. O RESULTADO SERÁ DIA 30/11/2020 NO IG @BLOGPOESIANAALMA

 

23 comentários:

  1. Oi Lilian, sua linda, tudo bem?
    Esse texto é ótimo para discutirmos vários assuntos da nossa história, tanto que o autor é da área de humanas. Acho muito legal o espaço que você abre no seu blog. Sempre encontro assuntos interessantes por aqui que me fazem refletir.
    bjs.
    cila.

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  2. Oi Leonardo, tudo bem?

    Devo dizer que adoro seus textos, sempre me deixam bastante reflexiva e dessa vez não foi diferente, esse ano que fiquei em casa eu acabei focando em estudos e leituras pra não perder a cabeça sabe, e esse mês eu pesquisei um pouco sobre a histórias das bruxas e nossa, realmente é muito louco pensar que essa sociedade patriarcal vem desde sempre e que não é uma invenção moderna como muitos dizem por ai erroneamente.
    Adorei o texto e os paralelos que você traçou, já mandei no grupo de amigas pra gente discutir sobre!!

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    1. Bianca, abraço. Obrigado pela presença nos meus textos, seja sempre bem-vinda. Cadê o e-mail para concorrer aos livros?

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  3. Que texto incrível! Eu achei surreal várias coisas ditas ali, que eu nem sabia, tipo, o dia do Saci. Eu nunca tinha parado para pensar sobre isso, mas faz todo sentido, é mais um motivo que arrumaram para dizer que mulheres são culpadas das incompetências dos homens, que saem sempre como as vítimas...
    Essa texto rende até dissertação de mestrado, genial!
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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    1. Oi, Hanna. Obrigado por compartilhar suas impressões mais uma vez. Senti falta do e-mail para o sorteio dos livros. Abraço.

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  4. Para mim a autêntica Bruxa é aquela alquimista, que resmunga amor e proteção, como bendito aqui... Uma alquimista que serve chás, aguentos e mão macia para a dor passar. Certamente temos várias as etapas da vida cuja imagem se metamorfoseia e deixa seu arquétipo nos contos de fada como essencial para infância que se alimenta de imagens. Um texto sensivelmente bruxo para acordar nossos tempos e continuarmos com o alimento necessário.

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    1. Olá, obrigado pelo comentário e siga bruxa rsrs. Abraço.

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  5. Achei ótima essa junção de assuntos pertinentes desde o Halloween, ciência e o patriarcado. Incrível o texto que levanta tantas questões e problemáticas importantes. Fica uma reflexão através dessas informações compartilhadas. Muito bom!

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    1. Debora, obrigado pelo seu comentário, confesso que foi difícil juntar tudo, daria um livro rsrs. Abraço.

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  6. que texto top, to apaixonada com o que voce escreveu.
    varias coisas, na verdade quase todas as coisas que voce falou nao fazia ideia sobre o assunto
    to chocadissima kkkk

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    1. Que legal, Renata. Espero que tenha despertado a curiosidade e que você se aprofunde nos temas. Obrigado pelo comentário, abraço.

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  7. Aaaah, a ironia.. kkkkkkkkk
    Como sempre, texto maravilhoso de Leonardo.
    Pois é, o cristianismo sempre "culpabilizando" a mulher, tantos foram queimados como bruxos hereges por falarem o óbvio... Penso até no tribunal da inquisição atual, que não queima numa fogueira, mas causa danos do mesmo jeito...
    Sempre um deleite vir aqui e ler os textos dele. Parabéns.
    😍

    torporniilista@gmail.com

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    1. Olá, Maria Valéria. Sempre fico encabulado com seus comentários, mais uma vez obrigado pelas palavras gentis. Abraço.

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  8. Olá,
    Desconhecia sobre a origem do saci (sei bem pouco na verdade). E também não conhecia nenhuma das dicas para afastar as bruxas. o.o
    E lógico preciso ressaltar que amei o tom do texto hahahahaha.

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    1. Oi, Debyh. Obrigado pelo seu comentário. Agora já sabe o que deve evitar para não se machucar rsrsrs. Abraço.

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  9. Oi, tudo bem?
    Amei o texto! Falou de uma forma diferente sobre a data, com informações sobre o Halloween, as lendas das bruxas e até o nosso folclore, além de levantar várias discussões importantes sobre a nossa história. Além disso, amei o humor irônico do autor.
    Beijos!

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    1. Olá, Maria Luiza. Que legal que você gostou, fico feliz por contribuir por alguns instantes de entretenimento. Obrigado pelo comentário. Abraço.

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  10. Quanto conhecimento! Quantos comparativos! Quanta História! Só poderia ter sido escrito por estudioso da história do mundo! Que fantásticos comparativos! Que beleza introduzir sua mãe nesse comparativo de fadas e de "bruxas". Texto rico, profundo, cheio de História e de história. Parabéns, Leonardo! Que venha mais poesia! Que venha mais História! Quem venham mais histórias!

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    1. Olá. Acho que não mereço tanta atenção, fico certamente honrado, mas também bem encabulado. Obrigado pelo seu comentário. Abraço.

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  11. Oii!

    Eu adoro esses textos, pois nem vejo o tempo passar enquanto estou lendo heheh... Gostei dos comparativos, de ver a história do autor misturada em tanto conteúdo.
    Parabéns!

    vou deixar meu e-mail hehehe: anilima.gd@gmail.com

    Beijinhos,
    Ani
    www.entrechocolatesemusicas.com.br

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    1. Olá, Ani. Obrigado pelas sua palavras, fico feliz que tenha gostado. Abraço.

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  12. Olá, tudo bem? Engraçado que nesse tempo estou lendo O Martelo das Feiticeiras, e o associar a essa postagem. É crítico e necessário todos conhecemos as histórias por trás.! E que sorteio maravilhoso!
    Beijos

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    1. Oi, Ana. Nada é por acaso, as bruxas do "Martelo" lhe levaram para o meu texto rsrsr Obrigado pelo comentário. Abraço.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma