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Filme Substitutos, Pandemia e Redes Sociais / Leonardo Nóbrega

 



O filme Substitutos é uma distopia que se passa em 2054, porém, acredito que não será preciso esperar tanto tempo para que se torne realidade, os androides poderão estar nas ruas, no trabalho e até nas nossas férias bem antes do que imaginamos. Tudo foi acelerado por dois motivos: um sórdido, terrível e cruel, a pandemia; outro social, íntimo e cosmético, as redes de relacionamento virtuais e o narcisismo crescente.

 

Ficarmos em isolamento social nos fez usar o que o ser humano tem de mais brilhante: a adaptação. Por necessidade, passamos a usar de forma intensiva os recursos que a internet e os softwares desenvolvidos para ela já nos brindavam. Entretanto, nesse meio tempo, também aconteceu o aprofundamento de um fenômeno que a “moderna” sociedade capitalista imagética criou e disseminou. A cobrança da bela juventude eterna, uma exigência tão medonha e impossível quanto amar ao próximo como a si mesmo, então, tentando cumprir essa demanda, que as cirurgias e os cosméticos já não dão conta, procuramos outra fonte da juventude nos avatares, não aqueles bonequinhos de desenho que montamos tipo as bonecas de papel que vinham com roupas e acessórios para serem trocados ao bel prazer do dono, mas avatares feitos de nós mesmos, das nossas fotos. Colocamos filtros, rejuvenescemos, mudamos o contraste, brilho e intensidade das cores, mudamos a cor dos olhos, e por aí vai.

 


Isso tudo não é novidade, mas algumas pessoas chegaram a um nível extremo, preocupante e perigoso (para elas próprias) que beira as atitudes de Maggie Greer, personagem do filme que se recusa a aparecer até para o marido, Tom Greer, em sua casca real, resistindo à insistência do homem que quer amar a esposa e não uma ginoide. Conhecemos pessoas – eu conheço – que vivem isoladas para que os amigos, ex’s (namorados, maridos e, por que não? Amantes) e familiares não percebam em seus rostos a passagem do tempo. Acham mais importante as lembranças revividas como memórias de um computador do que, talvez, quebrarem o encanto mostrando a realidade e permitindo acesso as suas e vulnerabilidades.

 

Pelo que registrei nessas exíguas linhas, ao leitor pode parecer que estou falando de pessoas que nasceram em meados do século passado e já caminham lado a lado com o ceifeiro, a inevitável, aquela-que-não-mencionamos, porém, não é bem isso. Na verdade, minha motivação para esse minúsculo texto foi notar que jovens muito novos já desenvolveram esse transtorno narcisista e estão vivendo em uma realidade paralela. Vi muitos ex-alunos com menos de trinta anos exibindo esse tipo de comportamento, o que é uma tristeza, mas não irreversível, a dificuldade que percebo nesses tempos e comportamentos é que esses jovens são educados por mídias sociais e informações falsas, e nem a escola ou os pais possuem maior influência do que os influencers – desculpem o trocadilho -, aliás, boa parte desses jovens se veem como influenciadores de mídia, mesmo sem terrem nenhum talento para produtores de conteúdo.

 


Enfim, não estamos longe de podermos trocar de aparência como trocamos de carros (claro que uma unidade ciborgue não será barata). Ficaremos na segurança das nossas casas e aperfeiçoaremos o trabalho remoto posto à prova na pandemia. Também estamos mais próximos de levarmos para as ruas a nossa falsidade disseminada nas redes sociais, nossa tristeza escondida em emojis de carinhas felizes, nossas fotos alegres em paisagens paradisíacas, mas é claro que não serão nossos sorrisos e sim dos nossos robôs (e que experiência ruim temos com robôs de internet). A questão é o que restará de humanidade em nós nessa novíssima sociedade? A força de um abraço será a mesma? O ombro frio de um androide servirá para consolar um amigo?  Mas, quem pode deter o progresso, não é mesmo? Quem somos nós para desviarmos desse destino? Ah, é! Somos os construtores do destino, formatadores da realidade, edificadores do planeta. Pode soar piegas, e talvez seja mesmo, mas é o que temos para hoje.

 

Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida? Não sei. Talvez a arte antecipe a vida e tente nos preparar para o virá. Abraços e não esmoreçam.

 

*Substitutos  – 2009 – Direção Jonathan Mostow - Baseado na HQ de Robert Venditti e Brett Weldele, (2005).

 




64 comentários:

  1. Léo, seus textos são maravilhosos. Não podiam estar em outro lugar se não em um blog chamado poesía na alma. Um abraço meu amigo.

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  2. Infelizmente as relações pessoais estão a cada dia mais frias. Com a pandemia veio também o medo de relacionar-se. Tenho medo que isso continue se espalhando e que nos tornemos como essas máquinas...

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  3. Uma (pre)ocupação recorrente! Às vezes penso nisso tb. Assistindo o desfile de escolas de samba na TV (devo ter sido sambista na Lapa, na reencarnação passada, porque adoro samba), me deparei com algumas celebridades. Eu era criança e elas já tinham aquelas caras! Tomei um susto!!! Eu achava que elas já tinham até desencarnado!🙄 Mas é isso… contemporaneidade!!! Belo texto, amigo!!!

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  4. Reflexão apropriada para esse tempo que é tão midiático e de relações superficiais.

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  5. Sérgio Nóbrega4 de maio de 2022 10:17

    Excelente visão, concordo plenamente. Leonardo sempre necessário e preciso. Adorei. É sim um grande presente poder crescer com sua crítica/análise.

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  6. Uma bela reflexão contemporânea dos costumes e vaidade. Gostei e alegro-me em dizer que não tenho vontade nem de pintar os cabelos.

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  7. Muito interessante esse texto, me deu vontade de assistir novamente!

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  8. Adicionado à lista!!!

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  9. Bom dia. Texto bastante eloquente. A sociedade digital que a gente vive é muito dependente do alguém dizer como deve ser feito. E se esse alguém disser meias verdades, já basta para o consumidor da informação. A busca pelo certo não importa, contanto que a informação e a atitude de contrapartida seja rápida. A pandemia intensificou esse fato.

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  10. Muito interessante, Leonardo! Quero ler mais reflexões suas!!!

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  11. Que reflexão pertinente! Parabéns, Leonardo. (Rodrigo Passolargo)

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  12. Ótimo texto e fica de reflexão para o tempo em q vivemos...

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  13. Excelente reflexões, perfeita abordagem desse tema polêmico e que já é realidade hoje e que deve preocupar a todos nós. Parabéns ao autor pela sensibilidade na forma de abordar o assunto.

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  14. Excelente reflexão! Léo, você como sempre cirúrgico e preciso em suas palavras. É muito gratificante ler suas obras! Parabéns pelo dom maravilhoso que Deus te concedeu!

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  15. Pura reflexão! Vamos ficar mais noite abraços e encontros, e fazer o mundo tecnológico mais humano!!!!

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  16. Maravilhoso!!! Gostei demais.

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  17. Amei o texto!! Precisava ler tudo isso! É verdadeiro e super necessário!

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  18. Muito bom, Leo! E já irei atrás do filme.

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  19. Uma excelente resenha crítica. Parabéns, Leonardo Nóbrega!!!

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  20. Excelente reflexão.
    O autor sempre se expressa de forma brilhante, coerente.

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  21. Texto excelente!
    Os seus escritos despertam em nós, o desejo de nutrir nossas almas sempre de uma boa leitura.

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  22. Tudo que Leonardo Nóbrega produz é de muita qualidade, então gostei muito do que li.Que ele continue produzido mais e mais.Luiza de Marilac. 💯

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  23. Léo, parabéns pelo texto. Sua visão, brilhantemente ajustada para o momento, nos permite redimensionar - com mais facilidade - nossos vínculos afetivos.
    Dentro ou fora da nova realidade, do novo normal.

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  24. Belo texto. Boas reflexões. Sempre é bom pararmos para questionar e analisar a existência humana. Para onde estamos caminhando? Como estão nossas ações? Ana Flávia

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  25. Realmente, seu texto merece reflexão.

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  26. Gosto do que escreves, Leonardo. A propósito, estou terminando "Outros tempos", seu romance tipo policial, drama....ótima descrição da nossa Fortaleza antiga. Abraço

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  27. É impactante vivenciar essa nossa transformação. E por mais que a gnt pense que não faz parte, em um detalhe que seja já há o envolvimento. Fico me perguntando se realmente evoluímos ou se deixamos de existir para criar outro ser.
    Léo… como sempre vc foi espetacular.

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  28. Muito bom Léo o texto. Com essa pandemia muitas pessoas ficaram mais frias, incomunicáveis, fez o medo aflorar, medo de dialogar, do abraço, da proximidade com o próximo. Muitos até melhoraram os relacionamentos e outros colocaram pra fora o que vinham empurrando com a barriga, amizades, casamentos que se desfizeram e por aí vai. Espero que as coisas um dia com a graça de Deus voltem Ao seu lugar. Abraço e sucesso no livro!

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  29. Gostei muito da reflexão desse texto Leo. Se faz muito necessário esse tipo de discussão hoje em dia. As relações pessoais estão cada vez mais fragilizadas e a internet está cada vez mais camuflando uma sociedade que vai adoecendo aos poucos. Desejo sucesso nessa jornada meu amigo. Abraços.

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  30. Oi Leronardo

    Tenho quase certeza que cheguei a ver esse filme a algum tempo atrás, mas, tem tanto tempo que nem lembrava dele bem. Sua reflexão foi bem interessante fazendo a conexão do filme com a nossa realidade.

    Beijos!
    Eita Já Li

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  31. Oi Leonardo, Oi Lilian
    Que texto incrível!
    Não conhecia o filme Substitutos e nem imaginava que foi baseado numa HQ. Vou procurar para conferir depois. Agora seu texto mostra claramente uma realidade triste que a pandemia trouxe. Vi alguns amigos dizendo que iríamos sair mais humanos dessa pandemia, mas a cada dia que passa vejo mais frieza nas pessoas e dando prioridade para certas coisas que não tem tanta importância.É triste, mas o novo normal juntamente com a internet está adoecendo as pessoas.

    Bjos

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma