Resenha – A Rainha Normanda




17 março 2015

A Rainha Normanda, de Patricia Bracewell, 386 páginas, Editora Arqueiro, já começa de maneira visceral. Em sua sinopse é perceptível notar que não adentraremos num universo de romantismo meloso, possuído por singularidades sutis. Ao meu ver, 15 anos não é idade de casamento. Mas, o livro retrata uma época em que meninas eram vendidas, para quem pagasse mais, como bois, pelos próprios familiares. Hoje, infelizmente, essa realidade ainda se faz presente.

A Rainha Normanda - Em 1002, Emma da Normandia, uma nobre de apenas 15 anos, atravessa o Mar Estreito para se casar. O homem destinado a ser seu marido é o poderoso rei da Inglaterra, Æthelred II, muito mais velho que ela e já pai de vários filhos. A primeira vez que ela o vê é à porta da catedral, no dia da cerimônia. Assim, de uma hora para outra, Emma se torna parte de uma corte traiçoeira, presa a um marido temperamental e bruto, que não confia nela. Além disso, está cercada de enteados que se ressentem de sua presença e é obrigada a lidar com uma rival muito envolvente que cobiça tanto seu marido quanto sua coroa. Determinada a vencer seus adversários, Emma forja alianças com pessoas influentes na corte e conquista a afeição do povo inglês. Mas o despertar de seu amor por um homem que não é seu marido e a iminente ameaça de uma invasão viking colocam em perigo sua posição como rainha e sua própria vida. Baseado em acontecimentos reais registrados na Crônica Anglo-saxã, A rainha normanda conduz o leitor por um período histórico fascinante e esquecido, no qual fantasmas vigiam os salões do poder, a mão de Deus está presente em cada ação e a morte é uma ameaça sempre à espreita.

A intensidade da obra varia entre jogo político, guerras, violência, amores impossíveis, sedução, ódio, poder e religiosidade. O não direito ao amor também relembra algo bem comum do nosso cotidiano. Principalmente, quando a religião é uma arma, citada exaustivamente para definir ‘pessoas de bem’ e quem eles terão o direito de explorar.



“- Você nunca pensa além de suas preocupações mesquinhas, não é, minha irmã querida? – sibilou ele ao seu ouvido. – Não se iluda achando que essa aliança seria para seu benefício. O único objetivo seria fortalecer a influência de meu pai junto ao rei, e não satisfazer sua vaidade colossal. Você vai fazer o que lhe mandarem, vai se casar com quem lhe mandarem, e deixar seu pai e seus irmãos cuidar de quaisquer detalhes que existirem para ser negociados.”

Se para Emma a ideia do casamento era uma tortura, para Elgiva era uma ótima oportunidade de ser rainha. Porém, nenhuma das duas poderia decidir o próprio destino e nem fazer as próprias regras. Elas, e todas as outras mulheres, ficavam a mercê do desejo dos homens e da igreja. Nenhuma das duas tem seus desejos materializados. Emma torna-se rainha e Elgiva fica solteira.
Acredito que Elgiva teve mais sorte que Emma, mas cega pela ambição de um reinado, ela torna-se uma pedra no sapato de Emma. Vira amante do Rei, desejo pelo dia em que ele abandone a rainha para ficar com ela. Enquanto todos consideravam a rainha infértil, Emma precisava corresponder aos desejos, humilhações e indiferenças do marido.
E numa noite, ele a espanca e depois a violenta sexualmente. Destroçada e humilhada, ela engravida. Mesmo a gravidez sendo uma fonte de segurança para ela; o desprezo pela criança é forte. Além disso, seus inimigos não gostam de saber que ela está grávida... Elgiva dá um jeito de fazer a rainha tomar um abortivo e perde a criança. E nesse meio tempo, ela também entende que o rei jamais deixará a rainha para ficar com ela. Não que essa relação envolva amor, mas era mais lucrativo politicamente permanecer com Emma...
Nesse contexto, todos eram dominados pelos desejos, crueldade e poder da igreja. Ninguém escapava, nem mesmo o rei. Um cenário de hipocrisia que domina a Europa, também conhecido como Período Medieval. Apesar da longínqua data, ainda encontramos fortes resquícios, nos dias atuais, do que o livro narra. A história é baseada em fatos reais, o que a torna mais emocionante.


Por muitas vezes, me senti incomodada. A violência sexual que Emma sofre é algo doloroso e pior, depois ela ter que tratar com o marido como se nada tivesse acontecido, ter que gerar um filho dele. Ter que ser obediente aos desejos do marido, interesses do irmão, homem que negociou seu corpo. Isso tudo sem perde a humanidade. Isso tudo sem perder a sanidade, pois acaso acontecesse, ela seria a única culpada para a igreja, sociedade, sua família...

Quando discorro que o livro incomodou, não é de maneira pejorativa, mas digo que tira da zona de conforto... faz pensar... repensar... Isso é bom...

Resenha por Lilian Farias

10 comentários:

  1. Gostei da resenha, é bem chamativa a capa,
    mas infelizmente não faz meu genero..
    Espero poder mudar de opnião e ler este livro...
    Beijos!

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  2. Oii, tudo bem?
    Nossa, que livro é esse?!
    Não leria ele no momento, mas só de ler a resenha já paro pra pensar, imagine se surgir a oportunidade de ler?
    Bjs

    A. Libri

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  3. meu Deus. e eu que não dei muita trela pra história quando vi o livro sendo lançado xD
    Agora eu preciso ler :o
    Ainda mais por ser um fato verídico... =T

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  4. Ei Lilian!
    N gostei da premissa do livro, n seria escolha minha p ler momentaneamente!
    Parece uma leitura forte!
    Bjos
    Aline Praça
    www.leituravipblog.com

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  5. uau que demais este livro, todas estas nuances entre oque sentimos, desejamos e oque devemos fazer. O fato do livro se contextualizar historicamente também considero um charme a mais como a cereja do bolo, amei a resenha e o livro nem preciso dizer o quanto estou ansiosa para ler... bjs :)

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  6. Olá, Lilian.

    Confesso que quando vi a capa desse livro imaginei que seria uma história mais romântica que de briga pelo poder, religiosidade e abusos. Perdi um pouco de interesse na obra, mas irei buscar mais informações a respeito. Sempre é bom sair de nossa zona de conforto.

    Beijos.
    Visite: Paradise Books BR

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  7. Oláá
    é bem estranho mesmo quando um livro nos tira da zona de conforto, mas ás vezes é bom, o livro parece ser bem interessante e o enredo é bem atraente, acho que também me tiraria da zona de conforto, a capa é muito bonita.
    Ótima resenha.

    http://realityofbooks.blogspot.com.br/
    Catharina
    Reality Of books

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  8. Oi Lilian, tudo bem?
    Fiquei bem interessada em ler este livro quando vi seu lançamento, mas sua resenha me deixou em dúvida. Sou um pouco fraca para ler livros com tema de violências nesse extremo. Será que seria uma boa dica de leitura para mim??
    Beijos,

    versosenotas.blogspot.com.br

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  9. Estou louca para ler este livro, desde que vi seu lançamento e li a sinopse. Mas tenho consciência da leitura penosa que será ver todo o sofrimento e humilhações que Emma passará. Isto eu já previa, e sua resenha apenas confirmou este sentimento.
    Bjs, Rose.
    Fábrica dos Convites

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  10. Oie, tudo bom?
    Eu fiquei curiosa com esse livro durante o lançamento, mas imaginava uma trama diferente. Parece ser interessante, mas eu ficaria incomodada com a violência sexual na história.
    Beijos,
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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