Releituras – O Conto da Ilha Desconhecia




22 abril 2015



A peculiaridade de O Conto da Ilha Desconhecia, de José Saramago, 62 páginas, Companhia das Letras, é assunto pra mais de metro. Apesar de ser um texto curto, seu aspecto ímpar ganha vida na gama de possibilidades que a obra estende sobre o leitor.

O Conto da Ilha Desconhecida - Um homem vai ao rei e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas. Este pequeno conto de José Saramago pode ser lido como uma parábola do sonho realizado, isto é, como um canto de otimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia ancorar em porto seguro. Antes, entretanto, ela é submetida a uma série de embates com o status quo, com o estado consolidado das coisas, como se da resistência às adversidades viesse o mérito e do mérito nascesse o direito à concretização. Entre desejar um barco e tê-lo pronto para partir, o viajante vai de certo modo alterando a ideia que faz de uma ilha desconhecida e de como alcançá-la, e essa flexibilidade com certeza o torna mais apto a obter o que sonhou. "...Que é
necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós...", lemos a certa altura. Nesse movimento de tomar distância para conhecer está gravado o olho crítico de José Saramago, cujo otimismo parece alimentado por raízes que entram no chão profundamente.’

Um homem vai até a porta dos pedidos solicitar ao Rei um barco para chegar à Ilha desconhecia; o pedido não é simples, afinal, ele discorre sobre algo que não está nos mapas e não tem como provar que existe. Porém, não é hábito do Rei ‘trabalhar’ e quem acaba por atender a porta dos pedidos é a Mulher da limpeza, que além de limpar e atender a porta, faz outras coisas... como costurar!
Nada satisfeito, o homem exige a presença do Rei, pode parecer ousado, mas ele fica alguns dias acampado frente a porta dos pedidos à espera de ter seu desejo atendido. Por fim, o Rei finalmente cede e dá ao Homem o barco que tanto almeja. Mas essa é só uma pequena parte da história, que de poucas páginas, tornou-se Grande!
Apesar da aparente fragilidade e superficialidade do texto, eis que ai se esconde o ‘não dito’ que torna-se mais que evidente. As questões sociais, psicológicas, filosóficas e linguísticas criam forma gigantesca no que aparenta ser simples. As primeiras linhas apresentam questões como: Hierarquia, crítica a classe dominante, burocracias, exploração. Também na obra há oito reproduções de aquarelas que nos faz adentrar numa análise Semiótica entre o texto verbal e não verbal.
O homem, na verdade, queria mais que uma ilha desconhecia, estava à procura de si mesmo. A maneira como ele tenta velejar o próprio barco da vida é que vai se esbarrado em excesso de racionalidade e burocracias, as mesmas que nas primeiras páginas da obra, ele soube veementemente criticar.



A casa do rei tinha muitas portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldabra de bronze se tornava, mas do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar.’

Sobre a linguagem muito bem construída, não há como não recordar de Mikhail Bakhtin e o sentido ideológico contido na literatura. As vozes sociais presentes no texto materializam todo um contexto sociocultural a ser apreciado pelos leitores.  O livro é rico de diversas maneiras e não é para ser lido uma única vez, tão pouco duas, é aquele que lemos e relemos todos os anos, até, todo mês quem sabe... Acho que deu para entender o quanto eu gosto do autor e como é tão superficial discorrer sobre O conto da ilha perdida numa simples resenha, em poucas linhas. O livro exige um estudo mais profundo uma apreciação mais cautelosa. Mas, foi tão gostoso relembrar do período que li o livro, de como foi para tê-lo em mãos, o que fiz no dia que o comprei. Lembrar do debate na época de faculdade. Essa coluna releituras, para mim, tem gosto, cheiro, toque e requinte de saudade... O próximo e último livro do mês é O Lustre, da diva, Clarice Lispector...

31 comentários:

  1. Que resenha MARAVILHOSA!
    Resenhas boas, são resenhas que mesmo que você não tenha taaanto interesse assim no livro, a resenha faça você despertar um interesse maior.
    Adorei!!!!! Fiquei com vontade de ler!!!
    Super beijo
    Gio - Clube das 6
    www.clubedas6.com.br

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  2. Oi, Lilian! Nossa, como eu AMO o Saramago. Tenho quase todos os livros dele, e ainda não sabia da existência desse conto. Adorei, e preciso muito de um pra mim. Minha coleção não estará completa sem ele!
    Aliás, sua resenha está muito linda.
    Um abraço,
    www.literasutra.com

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  3. Oi Lilian,
    eu adoro Saramago
    Estava pensando em reler Ensaio sobre a Cegueira
    Adorei seu resenha e já coloquei esse na lista para ler
    beijos
    http://entree-virgulas.blogspot.com.br/

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  4. Muito boa a resenha, esse estilo de livro não é meu favorito (prefiro os romances), mas sua resenha despertou minha curiosidade para ler.
    Arrasou viu :)
    http://glamodaon.blogspot.com.br/

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  5. A sua resenha tá bem legal, mas a história em si não me chamou a atenção. Acontece né? haha
    Beijos.

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  6. Nossa, deu muita vontade desse livro!!!! Pena que é tão curtinho, uma história complexa dessas merecia páginas e mais páginas pra gente se enfiar e não sair mais. Se bem que, pelo que você falou, o "não dito" é grande parte da graça do texto, né? Adorei a resenha! Beijos.

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  7. Saramago seria genial escrevendo até mesmo bula de remédio! Adoro tudo que ele escreve. E "O conto da ilha desconhecida" nos convida a uma viagem para dentro de nós mesmos. Uma ótima reflexão. Aliás, Saramago é especialista em nos fazer pensar. Às vezes, até mesmo uma "simples" frase faz que com fiquemos minutos ou mesmo horas pensando sobre aquilo. Pena que se foi. Eu ainda esperava por mais um livro dele.
    Bjus

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  8. Oiii
    Uma coisa que andei percebendo nas resenhas literárias que venho lendo ultimamente é a forma perfeita como os blogueiros escrevem... vc mesma, vc tem uma maneira tão simples mas ao mesmo tempo tão encantadora de resenhar que faz a gente ficar com uma vontade imensa de ler o livro, mesmo não gostando. Esse livro, O Conto da Ilha Desconhecida, olhando assim não me cativa porém ao ler sua resenha já fiquei querendo ler. Nunca li nada de José Saramago, portanto acho que este será o primeiro passo para eu me apaixonar, quem sabe, pelas obras do autor :)
    Bjo lindona

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  9. Estou curiosa para ler esse livro desde que eu vi ele a primeira, esta na minha lista, mas infelizmente ele não esta nas minhas prioridades de leitura, mas algum dia irei le-lo. A resenha fiou otima.

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  10. Para dizer a verdade, o livro não me interessou muito, mas para quem gosta do gênero ele parece ser bem legal. Ótima resenha *-*

    http://geekcorderosa.blogspot.com.br/2015/04/7-on-7-pascoa.html

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  11. Leitura brasileira, valorizo muito e as escolas deviam valorizar mais.
    Gostei do resumo e da sua resenha. Embora aparentemente não tenha muito a oferecer me surpreendeu saber que contém assuntos fortes como: hierarquia, crítica a classe dominante, burocracias, exploração...profundo.
    Muito legal!
    Blog ArroJada
    Divulgação de Blogs

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    1. Olá, querida! Obrigada pelo carinho. Saramago nasceu na vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, em Portugal, não no Brasil.

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  12. O único livro de Saramago que li foi Ensaio Sobre a Cegueira, o mais famoso dele. Achei um pouco difícil me adequar ao estilo de escrita do autor, mas depois de um tempo a leitura seguiu mais fluida. Meu pai tem 3 outros volumes dele, mas ainda não peguei para ler. Vou ver se faço isso em breve! Sua resenha me motivou, ainda que não a ler esse livro exato, mas a ler o autor!

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  13. Que maravilha Lilian! Eu gosto muito de contos, mas ainda não tive o prazer de ler este livro. Confesso que fiquei com aquela sensação de quero mais. Gostei muito da sua exposição. E que busca árdua deste homem hein!?

    Que sejamos buscadores de nós, todos os dias!

    Um abraço!
    Vanessa Vieira
    Pensamentos Valem Ouro

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  14. Oi Lilian, tudo bem?
    Nunca li nada do Saramago... #myshame
    Acho que O Conto da Ilha Desconhecida seria uma boa opção para começar.
    Gosto muito de livros que nos fazem refletir sobre nós mesmos e acredito que quanto tiver a oportunidade de ler isso certamente acontecerá.
    Bjs

    http://a-libri.blogspot.com.br/

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  15. Lilian acredita que não li nada do Saramago, e lendo sua resenha estou no prejuízo não lendo. Amei esse conto e já estou buscar o livro para ler, muitas vezes deixamos grandes mestres de lado devido a correria. Sua resenha ficou perfeita. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  16. José Saramago <3 Como não amar literatura brasileira? Esse em especial eu ainda não conhecia, mas fiquei encantada com a sinopse e com a proposta do livro. Com certeza é preciso tomar uma certa distância para enxergar melhor as coisas. Não somente com os problemas, mas também os nossos sonhos. Ótimo post! Beijos, Érika

    www.queroseralice.com.br

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    1. Olá! Realmente a literatura produzida no Brasil é fabulosa. Obrigada pelo carinho. Saramago nasceu na vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, em Portugal, não no Brasil. viveu boa parte da vida em Lisboa.

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  17. Escapei de ler Saramago na época de escolha e vou te dizer que vou escapar mais uma vez. Não vou te falar que não gosto, até porque eu nunca li, mas as sinopses dos livros dele me deixam com muito tédio, e eu sei que a escrita é um pouco arrastada. Ou eu que não to pronta pra ler esse cara ainda, não sei.

    http://laoliphant.com.br/

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  18. Oie, tudo bem?
    Ultimamente estou cada vez mais procurando ler livros nacionais e essa obra parece ser fantástica, principalmente porque eu sempre quis sair por aí para conhecer/descobrir lugares - quem sabe um dia. Também ainda não li nada desse autor, mas pelo que você descreveu a escrita dele é muito boa. Obrigada pela dica e parabéns pelo blog.

    Beijos, Maah
    http://bloggrascunhosfemininos.blogspot.com.br/

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    1. Olá! Realmente a literatura produzida no Brasil é fabulosa. Obrigada pelo carinho. Saramago nasceu na vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, em Portugal, não no Brasil. viveu boa parte da vida em Lisboa.

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  19. Olá Lilian,

    Você acredita que ainda não li nada do autor? Tenho muita curiosidade e espero em breve ler alguma ora dele....abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  20. Olá!!!!

    é sempre um prazer tão grande ler suas resenhas, você tem um jeito impar de escrever, lia muitos contos até um tempo atrás, mas acabei parando por algum motivo que não sei explicar. Nunca li nada do Saramago o que é uma vergonha pois sempre foi altamente indicado por amigas, talvez eu comece com algum conto.
    beijão*...*
    http://notinhasderodape.blogspot.com.br

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  21. Olaaa
    Poxa, sua resenha ficou ótima, eu sempre ouvi muito falar do autor mas ainda nao criei coragem para ler, mesmo assim, quem sabe daqui um tempo né??

    Beijos
    Reality of Books

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  22. Hey, tudo bem?

    Apesar do autor ser bem renomado nunca li nada dele, mas fiquei encantada com a sua resenha e com o fato do livro precisar ser lido com atenção, acho que a maioria de livros dessa forma permite-nos ma reflexão mais profunda e consequentemente agregam muito ao nosso intelecto. Adorei sua resenha, ficou ótima e fiquei com muita vontade de conferir a leitura.

    Beijos,
    Dois Dedos de Prosa

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  23. Oi Lilian
    Eu adorei a sua resenha, de verdade.
    Eu não conhecia o livro, mas o autor é meio impossível de se falar que não conhece né? O livro parece ser muito bom realmente, mas ele infelizmente não faz parte do meu gênero literário, então não sei se o leria

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  24. Estou me tornando, seriamente, uma fã das suas resenhas, flor. Eu adoro o modo como se aprofunda nas entrelinhas e capta mais do que a essência, mas a crítica do texto. E acho que esse autor, em especial, obviamente tem talento mais que suficiente para explorar temáticas sem nunca delas falar abertamente. :) Incrível! Anotei a dica de leitura.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  25. Oi, tudo bem?
    Acho que nunca li nada do José Saramago (eu sei, que feio), mas esse me pareceu muito bom, e bem filosófico. Achei legal os temas abordados, mas não estou no momento para ler um livro que precisa ser analisado mais profundamente, rs. Mas é uma excelente dica para outro momento
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  26. Oi, Lilian!
    Não tem como não amar suas resenhas, sempre tão poéticas e com referências cultas que sei que valem a pena conferir. Quanto ao Saramago, você conseguiu chamar minha atenção e pela primeira vez senti vontade de ler algo do autor. Parabéns por esse feito, inédito até então! haha
    Com carinho,
    Celly.

    Me Livrando: Livre-se você também!

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  27. Oiee ^^
    Acho que esse é o único livro do José Saramago que eu conheço, e depois da sua resenha fiquei bastante curiosa para ler as obras dele, mesmo sendo mais fã dos livros contemporâneos do que dos clássicos.
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  28. Olá!

    Conheço algumas obras do Saramago por causa do meu curso da faculdade, mas nunca cheguei a ler esse livro. Vou procurar na biblioteca aqui da faculdade e dar uma lida nele assim que possível, pois sua resenha foi tão bem escrita que deu para sentir seu afeto ao ler a obra.

    loucurasaovento.blogspot.com.br

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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